Resenha: Flume – Skin

Lançamento: 27/05/2016
Gênero: EDM, Eletropop, Dance-pop, Hip-Hop
Gravadora: Future Classic / Transgressive Records / Mom + Pop Music
Produtor: Harley Streten.

Já se passaram 4 anos desde o último disco lançado pelo australiano Flume. Conhecido por seus retrabalhos com Disclosure, Lorde, Sam Smith e Arcade Fire, o auto-intitulado álbum de Harley Streten, sob a alcunha Flume, demonstrou a sua capacidade para trabalhar com uma grande extensão de gêneros. Lançado em 27 de maio de 2016, “Skin” é o título do seu segundo álbum de estúdio. Um LP que apela para o EDM, eletropop, dance-pop e qualquer fã de música eletrônica. Além disso, nesse disco há muitas nuances e experimentação musical. Aparentemente, é um esforço consistente o suficiente para esculpir um lugar para si na indústria. De início, “Skin” ganhou reconhecimento internacional após o sucesso do primeiro single, “Never Be Like You”. Em um comunicado à imprensa, Harley Streten afirmou que queria explorar novas texturas nesse registro. Felizmente, podemos encontrar essas texturas com muita facilidade. Dentro do “Skin”, Flume conseguiu criar algo pessoal e intenso, que estende-se através de cada canção.

Ele produziu uma orquestração única, explorando texturas mais industriais e abrasivas, a fim de apelar para um público mais amplo. Outra característica instantânea em “Skin” é a grande quantidade de convidados talentosos. Entre eles, temos a presença de Tove Lo, Kai, AlunaGeorge, Little Dragon, Vince Staples, Vic Mensa, Allan Kingdom, Raekwon e Beck. Alguns podem achar que os vocalistas acabaram abafando a produção de Flume, porém, para mim, eles só ajudaram a destaca-la ainda mais. A ampla e poderosa introdução “Helix” foi a escolha certa para abrir o álbum. Ela permeia sobre sintetizadores esparsos, um baixo distorcido, arpejos de tambor vagamente cronometrados e uma melodia de flauta quase cinematográfica. A próxima faixa é “Never Be Like You”, primeiro single do álbum em colaboração com a canadense Kai. Uma maravilhosa canção de future-bass e R&B alternativo, com efeitos trap e um ambiente refrigerado.

Kai fornece vocais luxuosos, enquanto expressa uma duplicidade nas letras. Sua contribuição é forte, pois faz um lamento doloroso sob o apoio de um instrumental extremamente atraente. Flume utiliza um bassline rígido, tambores wonky e arpejos de sintetizadores, a fim de criar um som decorrente do trap, UK-garage e dubstep. Uma música realmente encantadora. Influências do hip-hop também são encontradas no “Skin”. Vic Mensa, por exemplo, contribuiu com suas rimas hipertônicas durante a ótima “Lose It”. O rapper fica um pouco afogado pela dinâmica flutuante dos sintetizadores, porém, oferece um desempenho muito sólido. Outra música que destaca-se é “Numb & Getting Colder”, com a australiana Kučka. Padrões frenéticos e imprevisíveis na bateria e sintetizadores combinaram perfeitamente com o poder adicional das letras. A arejada voz de Kučka apresenta algumas amostras expressivas e encaixou-se bem com a percussão fora de ordem.

Flume

Seus vocais, sem dúvida, assumem a liderança e emprestam um charme irresistível à música. Essa canção abre com uma passagem de ruídos, antes de cair sobre a bateria característica de Flume. Momentos inigualáveis como “Say It”, com Tove Lo, são de tirar o fôlego de uma maneira incrível. Aqui, Flume complementa a voz de Tove Lo com progressões de acordes exuberantes. Streten consegue impulsionar o instrumental ao mesmo tempo que transforma a voz de Lo em uma melodia emotiva e sintetizada. É uma música de inspiração wonky, future-bass e trip-hop com belos floreios de produção. O refrão, por sua vez, é irresistivelmente cativante e sensual. A partir da manipulação sutil da voz de Vic Mensa em “Lose It”, até o desempenho comovente de Tove Lo em “Say It”, Flume mostra o quanto é versátil e surpreendente. Interlúdios mais experimentais, como “Wall Fuck”, “Pika” e “When Everything Was New”, são faixas que mostram mais do âmbito criativo de Harley Streten.

“Wall Fuck” é completamente abstrata e experimental, uma fascinante viagem sob o baixo distorcido e bateria saturada de Flume. O australiano explora uma melodia tradicional num território quase sem tonalidade, algo reminiscente de produtores de R&B alternativo. “Pika” tem um som profundo, amostras vocais inclinadas e uma percussão mais livre, enquanto “When Everything Was New” é uma paisagem sonora evocativa e sutil, que move-se através de brilhantes sintetizadores. No extremo oposto do registro, “Smoke & Retribution” mostra Flume trabalhando com Vince Staples e Kučka. É um dos destaques do álbum, uma faixa eletrônica e experimental com camadas de sintetizadores, sulcos inquietos e uma dinâmica entrega vocal. Os sintetizadores instáveis dão a impressão que os vocais e instrumental estão trabalhando em desacordo. Vocalmente, Vince Staples entrega linhas desafiadoras e Kučka reflexões bem melancólicas. Para os fãs do primeiro álbum de Streten, temos números com características essenciais.

flume

“3”, por exemplo, ostenta alguns sintetizadores refrigerados e algumas qualidades de assinatura de Flume. É uma faixa lenta que faz um excelente uso de amostras vocais sussurradas e poderosas cordas. O produtor distorce sua própria voz em um cenário cheio de arpejos de sintetizador e batidas de rolamento. Momentos mais arriscados, tal como este, dá ao disco uma borda muito desafiadora e interessante. Mais tarde, Allan Kingdom e Raekwon emprestam seu fluxo para a faixa “You Know”. Essa é outra canção onde o rap e elementos de hip-hop dominam o ambiente, contrastando com os vocais que compõem a maioria do repertório. Raekwon proporciona um fluxo muito interessante, especialmente porque aparece ao lado de um baixo sinistro e sintetizadores gaguejantes. A faixa “Take a Chance”, por sua vez, apresenta a banda sueca Little Dragon. Ela abre com sintetizadores atmosféricas e uma entrega vocal suave, antes de apresentar alguns drops pesados.

O duo inglês AlunaGeorge aparece durante “Innocence”, uma canção que alastra-se por mais de 6 minutos. Embora seja uma boa faixa, ela parece que nunca chega no auge, especialmente devido a sua excessiva duração. Ela é preenchida por vocais fantasmagóricos e ranhuras influenciadas pelo hip-hop. Aluna Francis possui ótimos vocais, mas eles não justificam a baixa rotatividade e obsoleta progressão da música. Em outra parte do repertório, “Like Water” é uma faixa eletrônica com a assistência da cantora MNDR, cuja voz ilumina os elementos mais escuros da produção. Enquanto isso, “Free” apresenta belas passagens sintetizadas e ruidosos solos de teclados. Essa faixa possui uma sintonia muito rápida, algo que fornece um grande contraste quando colocado ao lado da vibração sutil e emocional do álbum. “Tiny Cities” serve como o ponto culminante do segundo trabalho de Flume e sua colaboração de alto perfil, com o renomado cantor Beck.

Os vocais de Beck dominam a primeira metade da música, dando uma sensação refrescante e tradicional para ela. Posteriormente, os sintetizadores incisivos de Flume brilham logo abaixo dos seus distintos vocais. Flume representa um conjunto de produtores de música eletrônica convencional e contemporânea, com uma vontade de abraçar sons desconhecidos e ignorar as tendências do momento, a fim de criar um nicho sonoro único. Em “Skin”, Streten conseguiu realizar essa façanha e forjar um som singular, dominado pela mesma direção sonora explorada no disco de estreia. Com valores de produções experimentais, Flume equilibra suas acessíveis melodias ao lado de números vocais com momentos desafiadores. “Skin” possui um som tão bom que justifica o grande tempo de espera para o seu lançamento. Esse álbum é o resultado de quatro anos de maturidade e crescimento artístico de um dos produtores mais inteligentes da atual música eletrônica.

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Favorite Tracks: “Never Be Like You (feat. Kai)”, “Numb & Getting Colder (feat. Kučka)”, “Say It (feat. Tove Lo)”, “Smoke & Retribution (feat. Vince Staples & Kučka)”, “3” e “Take a Chance (feat. Little Dragon)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.