Resenha: Florence + the Machine – How Big, How Blue, How Beautiful

Lançamento: 29/05/2015
Gênero: Indie Rock, Art Rock, Pop Barroco, Blues, Rock Psicodélico
Gravadora: Island Records
Produtores: Markus Dravs, Paul Epworth, James Ford, John Hill, Charlie Hugall, Kid Harpoon, Brett Shaw, Isabella Summers e Dan Wilson.

Florence Welch e sua banda, também conhecida por Florence + the Machine, lançou o seu terceiro álbum de estúdio em maio de 2015 via Island Records. Formada em 2007, liderada pela vocalista, já mencionada Florence Welch, e a tecladista Isabella Summers, a banda cresceu ao unir-se com outros músicos, incluindo o guitarrista Robert Ackroyd, o baterista Christopher Lloyd Hayden, o harpista/xilofonista Tom Monger, o baixista Mark Saunders e o guitarrista/tecladista Rusty Bradshaw. Juntos, ao longo dos anos, eles criaram o seu próprio e majestoso som indie-rock. O disco “How Big, How Blue, How Beautiful”, consequentemente, marcou o retorno da Florence + the Machine após um hiato de três anos sem álbum novo. Ele foi muito bem recebido pela crítica e ainda estreou em #1 no Reino Unido, ao vender mais de 68 mil cópias em sua primeira semana. “How Big, How Blue, How Beautiful” é um disco de indie-rock bastante refinado e despojado instrumentalmente, que incorpora uma mistura de influências musicais como o blues, gospel e rock psicodélico. A beleza das narrativas criativas de Florence Welch não perderam seu brilho e, aqui, estão em abundância. Este terceiro álbum coloca uma maior ênfase nas letras e exala diferentes emoções através de 11 músicas.

Um pouco diferente dos discos anteriores, que lidam fortemente com fantasias e metáforas, as letras do “How Big, How Blue, How Beautiful” foca um pouco mais na realidade. É um material poderoso que lida, principalmente, com conflitos pessoais. Um álbum que reflete sobre a forma de viver e amar, onde a mágoa de Welch é experimentada e sentida em cada palavra, nota, sussurro ou grito repentino. Ela é uma vocalista que, definitivamente, rouba a cena neste álbum. Sua incrível voz, tingida com dor e angústia, é capazes de transmitir um leque de emoções. Suas músicas contam histórias que, praticamente, transmitem sugestões e imagens ao ouvinte. Seu arco narrativo é o equivalente à arte abstrata. Ela nos permite uma conexão ao trazer suas experiências para seu trabalho. O repertório abre em grande escala com a faixa “Ship to Wreck”, segundo single oficial. Musicalmente, é uma faixa de folk-rock e pop, que carrega um som inquieto e fala sobre comportamento auto-destrutivo. “Ship to Wreck” é uma bela canção que realmente exala um conflito interno em seu conteúdo lírico.

Welch faz diversos questionamentos na letra, como por exemplo: “O que foi que eu fiz? / Eu bebi demais? / Estou perdendo o contato? / Construí este navio para quebrar?”. Alguns versos são confusos, mas o pré-refrão e o refrão são incrivelmente cativantes, assim como os vocais de apoio de influência gospel. Essa pista cimentou ainda mais o fato da banda estar reinventando o seu som. Uma coisa muito curiosa a respeito deste single é que, apesar de seu tema, ele transmite uma sensação divertida, otimista e refrescante. Ele inegavelmente possui a assinatura da banda, no entanto, é um pouco mais radio-friendly que os singles dos seus álbuns anteriores. “Ship to Wreck” incorpora um ligeiro som rock, mas não é tão intenso e pesado como “What Kind of Man”, por exemplo. É uma faixa que equilibra as percussões rápidas com uma sonoridade mais suave. Desde o seu primeiro segundo, possui uma guitarra dedilhando e uma batida acelerada que soam acústicos. Os versos são cheios de metáforas e referências marinhas, como: “Agonizando de dor, os tubarões brancos / Nadando na cama / E aí vem uma baleia assassina / Que canta para eu dormir / Arrebentando as cobertas / Me prendeu em seus dentes”.

Metáforas que falam sobre noites sem dormir e auto-destruição estão por toda parte, mas de alguma forma a música mantém-se arejada o tempo todo. Instrumentalmente, a canção começa com uma mistura de guitarras melódicas, bateria e uma percussão adicional. Essa combinação de instrumentos carregam o rápido ritmo com facilidade e constroem a base para os vocais impecáveis de Florence Welch. Ela alterna sua voz entre os vários intervalos da faixa com facilidade, combinando notas altas com inferiores sem perder a energia. A banda, por sua vez, atinge algo surpreendente ao mostrar habilmente a emoção crua das letras, enquanto ainda cria uma faixa que você pode dançar junto. Em suma, “Ship to Wreck” é impressionante, sofisticada e fresca, em comparação com alguns dos números mais antigos de Florence + the Machine. Produzida por Markus Dravs e escrita por Welch, Kid Harpoon e John Hill, a faixa “What Kind of Man” foi o carro-chefe do álbum e aparece na sequência. É uma faixa de rock e blues-pop que, segundo a própria Florence Welch, representa uma nova direção sonora para a banda. “Tem guitarras muito altas e isso foi muito divertido de gravar”, disse ela em uma entrevista.

Florence + the Machine

Aparentemente, a banda está canalizando ainda mais suas influências rock. Apesar de “What Kind of Man” ter a assinatura dos excelentes vocais de Welch, a produção é um pouco diferente do seu último álbum “Ceremonials”. Em vez dos tambores contundentes, a banda tomou uma nova direção ao apoiar-se fortemente na guitarra elétrica. Pode parecer uma diferença sutil, mas é algo que não passa despercebido. A canção começa em um tom muito sombrio, algo que equivale ao seu tema geral. “Eu estava em uma situação dificil / Tentando cruzar um desfiladeiro com um membro quebrado / Você estava do outro lado, como sempre / Se perguntando o que fazer da vida”, ela canta. O tom vocal de Welch é a chave aqui, um dos aspectos mais brilhantes de toda música. Isto define todo o cenário para a abertura da música, enquanto a turbulência temperamental, macia e despojada que sua voz transmite, é algo sinistro. A faixa é construída lentamente e, mais tarde, é invadida por uma potente guitarra, uma batida pesada, pandeiro, trombetas e bumbo. Toda a introdução pensativa é substituída por um aspecto melancólico frisado por incríveis riffs de guitarra e vocais de apoio gospel.

Liricamente, “What Kind of Man” concentra-se em falar sobre um homem muito indeciso que passou pela vida de Florence. Embora simplista, o refrão é eficaz e a parte mais estridente da canção. Ele é cantado de forma massivamente alta e com um enorme apoio da guitarra, conforme Florence se pergunta: “Que tipo de homem ama assim? / Que tipo de homem?”. Como sempre acontece com canções da Florence + the Machine, a faixa de alguma forma consegue ficar ainda melhor quando aproxima-se do seu final. Ela cria um drama eminente, refletido pela mudança repentina no ritmo e musicalidade. Após o refrão com a adição de trombetas, “What Kind of Man” evolui de novo conforme os instrumentos começam a misturar-se. Quando ela chega perto do fim, uma harpa infame e uma seção de metais surge novamente. Este single, sem dúvida, é mais hostil do que os do passado, tanto liricamente quanto musicalmente. A faixa-título, “How Big, How Blue, How Beautiful”, por sua vez, também aponta para uma nova direção. Uma balada pop de ritmo moderado, com trombetas e alto uso de violinos. Ela começa silenciosa, bem como a faixa anterior, porém, logo desabrocha para algo que demonstra uma maturidade musical.

Os arranjos melódicos das lindas guitarras, ao se juntarem-se com os violinos e tambores, provam o quanto a faixa é musicalmente diversa. Em seu conteúdo lírico é uma canção honesta que examina os efeitos da fama em um relacionamento de longa distância (“Entre um crucifixo e o letreiro de Hollywood / Nós decidimos nos machucar (…) / E cada horizonte foi como um beijo nos lábios / E eu estava fazendo de você um desejo”). Aqui, temos um controle vocal incrível em exibição, que desenha perfeitamente a melodia para o ouvinte. Além disso, a música também é lindamente composta de uma grande orquestração em seu final, o que cria um equilíbrio entre as partes mais serenas e fragmentadas. A quarta faixa, “Queen of Peace”, terceiro single oficial, é uma das músicas mais cativantes de todo o álbum. Ela fala sobre cair no esquecimento, incertezas e pressões da vida. “Oh, O Rei / Enlouqueceu no seu sofrimento / Clamou por alívio / Alguém cure-o de sua aflição”, ela canta inicialmente. “De repente fui derrotada / Dissolvendo-se como o pôr do sol / Como um barco no esquecimento / Porque você esta me afastando”. Ao escutar versos como este, sentimos a dor angustiante que Welch tenta retratar através de sua voz.

“Queen of Peace” também abre lentamente através de uma introdução solene esculpida por brilhantes arranjos musicais. Mas, essas cordas iniciais, não duram por muito tempo e são substituídas por incansáveis batidas de tambores. Eles ajustam o ritmo agridoce da música, enquanto os vocais grandes e exuberantes de Florence Welch tomam conta. É uma canção fantástica e energética, que atrai e prende rapidamente a atenção do ouvinte. As trompas finais são incrivelmente cativantes, bem como os vocais poderosos do refrão. Sua estrutura é, musicalmente, semelhante ao da faixa-título, porém, é uma música com mais energia e determinação. De acordo com algumas entrevistas, após o sucesso do disco “Ceremonials”, Florence sentiu uma grande pressão e passou por um colapso nervoso durante a criação desse registro. Isso, provavelmente, foi uma inspiração para a faixa “Various Storms & Saints”, uma balada que se move em um ritmo mais lento. Ela mostra um lado mais suave da voz de Welch, ao passo que fala de como encontrar a felicidade na vida, mesmo quando o mundo parece sem amor. Tem um ar sentimental e muito confessional, que acaba por evocar uma grande melancolia. Quando você presta atenção na letra, vai perceber o quão profunda e pessoal esta música é.

Florence + the Machine

Trata-se de ensinar a si mesmo a ser livre e deixar de lado as preocupações, a fim de seguir em frente com a vida. É uma canção conduzida, basicamente, apenas por uma guitarra e um tranquilo piano ao fundo. Transmite uma sensação mais escura, tanto vocalmente quando musicalmente. Suas harmonias misturam-se perfeitamente com os vocais de Welch, uma combinação fascinante de imagens que ela consegue executar com perfeição. “Delilah”, sexta faixa, começa com um foco maior nos vocais e, lentamente, constrói uma tranquila energia. A canção progride de forma constante e, rapidamente, explora as notas mais altas de Florence Welch. É uma das faixas mais otimistas e cativantes do álbum, inspirada pelo conto bíblico de Sansão e Dalila. Ela fala sobre os perigos de ser viciado em uma pessoa, e utiliza ambos como modelo para sua história. “Nunca soube que era uma dançarina / Até que Dalila me ensinou”, ela canta. Essa música possui uma sensação dominante, principalmente, por conta da batida triunfante de tambor. Outra coisa notável aqui é a presença permanente dos instrumentos vocais, como os das backing vocals. Há, em todos os momentos, diferente camadas de vozes que sobrepõem-se uns aos outros e fortalecem ainda mais a melodia principal.

Por outro lado, “Long & Lost” toma um rumo muito mais calmo e mostra um lado diferente, vocalmente falando, de Florence Welch. A cantora soa quase tímida, conforme anseia de saudade por um amor perdido. Consideravelmente mais lenta, essa balada é entregue quase através de um sussurro vocal, e seduz pelo ritmo bluesy evocado pelo solene riff de guitarra. Felizmente, encaixou-se bem na tracklist do álbum e não chega a deixar o ouvinte entendiado por conta do seu ritmo mais lento. Em seguida, temos “Caught”, uma faixa em total conformidade com o estilo da banda. Embora não apresente trombetas ou contundentes tambores, ainda é uma música muito dominante. Ela abre com um som sútil e grande vocalmente, enquanto faz uma mistura inteligente com rhythm & blues. Como os vocais obtêm visivelmente um ar mais soulful, o ritmo acaba levando o ouvinte para uma viagem incrível de sons e emoções. “Third Eye” é uma das melhores faixas do álbum, mas não apresenta nada de novo vindo deles. A canção inicia com um ritmo doo-wop e palmas, e contém fortes batidas tribais de marca registrada da banda. Florence oferece letras que fazem uma ode ao terceiro olho da tradição espiritual hindu. “Eu sou o mesmo, Eu sou o mesmo / Estou tentando mudar”, esse pode ser considerado um dos refrões mais potentes encontrados por aqui.

“Third Eye” começa com vocais cativantes que se destacam do resto da música. Enquanto esses vocais seguram o primeiro plano, os instrumentos de percussão pulsantes tomam o foco, em seguida. É uma canção que move-se facilmente e prende a atenção com facilidade, portanto, é uma das minhas favoritas do disco. A penúltima faixa, “St. Jude”, é uma homenagem a São Judas Tadeu, o padroeiro das causas perdidas, e indicada para aqueles que simplesmente estão tentando encontrar o seu caminho. É, provavelmente, a canção mais delicada e hipnótica do álbum, atada por melodias e letras meticulosamente divinas. É uma faixa muito contemplativa com um fundo fortalecido por um sintetizador solitário e uma distante batida. Tudo aqui flui facilmente, desde a sua forma assombrosamente até as notas altas impecavelmente mantidas. Ela vibra com uma energia tranquila em todo o seu comprimento e, embora nunca exploda em grandes harmonias, é muito bem escrita e realizada. “Mother”, última faixa da versão padrão, é peculiar, sensual e potente. Há um medo subjacente nessa música, que a torna ainda mais interessante quando colocado ao lado do poderoso vocal de Welch. É a faixa mais longa de todo registro, chegando perto dos seis minutos de duração. É uma composição suave com alto uso de sons de órgão e guitarra elétrica.

Sua introdução é fanhosa e tem uma sensação escassa. Porém, cresce rapidamente conforme o grande refrão surge. Ele é preenchido, especialmente, por fortes vocais e pela boa mistura de instrumentos. “How Big, How Blue, How Beautiful” é maravilhoso e, com certeza, vale a pena o tempo que levamos para ouvi-lo. Cada canção deste álbum é uma jóia e todas juntas formam um repertório nada menos que brilhante. Embora a maioria explore os mesmos temas, cada música é tão boa que te prende facilmente. “How Big, How Blue, How Beautiful”, no auge do seu jogo, é completamente sólido e oferece grandes performances vocais. É um disco mais coeso que o “Lungs” (2009) e menos abstrato que o “Ceremonials” (2011). Crivado de reflexões de desgosto e sabedoria, o álbum, em sua essência, é absolutamente filtrado e inspirado pela vida pessoal da vocalista Florence Welch. “Lungs” foi despreocupado e fluía juntamente com a sensação de se apaixonar. “Ceremonials”, por sua vez, foi mais obscuro e abordou temas de intranquilidade e perigos da vida. No entanto, em “How Big, How Blue, How Beautiful” a banda lançou suas inibições e apresentou uma nova metamorfose musical e lírica. Esse disco já é um marco na carreira de Florence + the Machine e, realmente, digno de elogios. É, definitivamente, um álbum grande, azul e bonito, como o próprio nome pede.

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Favorite Tracks: “Ship to Wreck”, “What Kind of Man”, “How Big, How Blue, How Beautiful”, “Queen of Peace” e “Third Eye”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.