Resenha: Fleet Foxes – Crack-Up

Lançamento: 16/06/2017
Gênero: Indie Folk, Folk Rock
Gravadora: Nonesuch Records
Produtores: Robin Pecknold e Skyler Skjelset.

Quando Fleet Foxes lançou o seu álbum de estréia em 2008 tornou-se único no cenário indie-folk. O seu foco na harmonização vocal foi algo incrivelmente refrescante. Da mesma forma, o criticamente aclamado “Helplessness Blues” (2011), sustentou a mesma qualidade sonora do seu antecessor. Depois de uma pausa de seis anos, Fleet Foxes finalmente lançou o aguardado “Crack-Up” em 16 de junho de 2017. Uma das coisas mais fenomenais sobre essa banda é a sua contínua experimentação e inovação sonora. Embora possa parecer controverso, “Crack-Up” é o álbum mais atraente da banda até à data. É de longe o disco mais abstrato e complexo que eles já criaram. Possui um som quase meditativo, calmante e sombrio, algo um pouco diferente dos registros anteriores. A beleza das harmonias da Fleet Foxes sempre foi algo de destaque e, como esperado, elas continuam presentes. Com onze faixas e um tempo de execução de 55 minutos, “Crack-Up” proporciona uma audição densa e excepcionalmente atraente. O disco abre com “I Am All That I Need / Arroyo Seco / Thumbprint Scar”, uma música tão grande quanto o título. Robin Pecknold começa a canção cantando poeticamente: “Eu sou tudo o que eu preciso / E eu serei até que eu termine”.

Momentos depois, a música segue por um tom familiar da Fleet Foxes. Os incondicionais vocais de Pecknold estão fortes como sempre, enquanto toda a música oferece momentos que alternam entre o violão e a pesada guitarra. Os sussurros ecoam em segundo plano, da mesma forma que os riffs de banjo e a sinfonia do violino. Em seguida, “Cassius, –” amplia ainda mais as mudanças estilísticas da Fleet Foxes, antes de retornar à sua antiga forma. Aqui, Pecknold encontra o equilíbrio perfeito de ser autoconsciente e socialmente consciente. Ele se manifesta através de cordas e um piano, enquanto compartilha uma história conosco. O título da terceira faixa, “– Naiads, Cassadies”, pega nomes emprestados da mitologia grega. Nessa música, Pecknold mergulha nas complexidades de uma relação entre um homem e uma mulher. Ele usa Naiads, ninfas aquáticas com o dom da cura e da profecia na mitologia grega, para descrever as mulheres, e Cassidies para retratar os homens. Com poucas palavras, o vocalista da Fleet Foxes fornece uma compreensão poderosa do que o amor pode significar. Sonoramente, “– Naiads, Cassadies” faz um uso mínimo de instrumentos e permite que os vocais falem por si mesmos.

A próxima faixa, “Kept Woman”, é mais escura, intensa e intrigante. Dessa vez, Pecknold lamenta sobre o brilho de uma guitarra: “Anna você está perdida na sombra lá / Cinza e fumaça pendurada no ar / Oh, eu sei que você será mais ousada do que eu”. É uma canção tão complexa e bonita que sugere uma mudança refrescante de ritmo e tom. Esta faixa é, sem dúvida, uma das experiências mais abstratas e agradáveis do repertório. A próxima faixa, “Third of May / Ōdaigahara”, foi divulgada como primeiro single do registro. Uma canção excepcional com quase nove minutos de duração. Uma faixa repleta de arranjos de cordas complexos, encorpados com muitas camadas e uma fortíssima guitarra. Inspirada por uma pintura de Francisco Goya, enquanto pega emprestada o nome de uma montanha japonesa, “Third of May / Ōdaigahara” explora o relacionamento de Pecknold com um amigo íntimo. Esse amigo é o seu companheiro de banda, o guitarrista Skyler Skjelset, cujo aniversário é coincidentemente no dia 3 de maio. Essa música contém muitas rupturas inesperadas de cordas inebriantes, interrompidas apenas pelos vocais suaves de Pecknold. O seu maior apelo é visto na sua natureza incomum e pegajosa.

As mudanças são muitas vezes repentinas, mas é certamente algo muito bem-vindo e cativante. O grande comprimento da música não adiciona grande coisa, mas é necessário para concretizar a mesma. O início soa caracteristicamente Fleet Foxes, ritmicamente familiar e cheio de ricas harmonias. A intensidade das cordas e melodias desafiadoras, apontam para uma direção muito interessante. O último minuto da música é formado apenas por sons instrumentais. Nada em “Third of May / Ōdaigahara” é particularmente novo para a banda, mas eles fizeram um grande trabalho em sua totalidade. A sexta faixa, “If You Need to, Keep Time on Me”, é uma doce balada indie-folk com um piano cintilante. Mais uma vez, Pecknold escava profundamente suas emoções para contar uma história para nós. Da mesma forma que a faixa anterior, ele também fala sobre o quanto Skyler Skjelset significa para ele. Emoções continuam aflorando durante todo o “Crack-Up”, como podemos ouvir em “Mearcstapa”. A linha de baixo inicial de “Mearcstapa” é tão sinistra que dá o tom para o resto do álbum a partir daqui. Pecknold usa muitas influências pessoais nessa canção, enquanto o combo de guitarra e bateria só reforça a complexidade deste álbum.

Depois de lançar “Third of May / Ōdaigahara” como primeiro single do álbum “Crack-Up”, a banda Fleet Foxes divulgou “Fool’s Errand” em 12 de maio de 2017. Tendo grandes semelhanças com o álbum de estreia da Fleet Foxes, “Fool’s Errand” não perde tempo e rapidamente mostra a sua magia. Isso é feito através dos vocais de Pecknold em parceria com violões e uma excelente percussão. Uma canção acessível, com melodias graciosas e uma intimidade imediata. Mas entre todas as suas qualidades, o que faz a música realmente brilhar é o vocal crescente de Robin Pecknold. É difícil resistir ao charme e tons de sua voz. Através de uma frustração desafiadora e triunfante, Pecknold reflete sobre os erros do passado. Isolado e cheio de arrependimento, “Fool’s Errand” é um single muito convincente. Um número clássico da Fleet Foxes que sente-se muito coeso quando colocado ao lado do primeiro single. À medida que o refrão alterna o tempo da música, Pecknold canta: “Foi uma missão de tolos / Esperando por um sinal / Mas eu não posso sair até que o sinal venha à mente / Uma missão de tolos”. Além dos excelentes vocais, o que torna tudo tão bom é a produção geral.

Uma música bastante direta, que não soaria fora do lugar se estivesse presente no último álbum da banda, “Helplessness Blues” (2011). “Fool’s Errand” faz boas transições dos versos para o refrão, fornece a marca registrada da banda e tece em cima de lentas batidas. O refrão é surpreendente e, fechando com chave de ouro, a música ainda oferece breves harmonias acapela e um piano solitário. No final do álbum, a faixa-título, “Crack-Up”, flutua perfeitamente bem. Essa canção mostra que precisamos de outra pessoa em nossas vidas para conseguirmos manter o equilíbrio. É um número adorável que encerra o disco da melhor maneira possível. O ponto-chave na música da Fleet Foxes é a sua versatilidade e diversidade. A banda preferiu não cair na rotina e correu alguns riscos, afinal esse é o seu álbum mais ambicioso até à data. Fleet Foxes garantiu que “Crack-Up” fosse feito com perfeição. Mesmo que silenciosamente, eles continuam inovando. Com letras que se duplicam, Pecknold e companhia trouxeram variedade e picos de emoção que traduzem a música indie-folk. “Crack-Up” jamais decepciona, é outro álbum impressionante para a sua discografia. Em outras palavras, esse é um dos melhores discos de 2017 até o momento.

Favorite Tracks: “Kept Woman”, “Third of May / Ōdaigahara” e “Fool’s Errand”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.