Resenha: FKA twigs – LP1

Lançamento: 06/08/2014
Gênero: Eletrônica, R&B Alternativo, Trip-Hop
Gravadora: Young Turks
Produtores: Arca, Clams Casino, Paul Epworth, FKA twigs, Emile Haynie, Devonté Hynes, Inc., Tic, Cy An e Sampha.

Tahliah Debrett Barnett, mais conhecida pelo nome artístico FKA twigs, é uma cantora, compositora e produtora inglesa de 26 anos. “LP1”, o seu debut álbum, foi lançado em 06 de agosto de 2014 pela gravadora Young Turks. Para quem não a conhece, antes de assinar com a Young Turks, selo da XL Recordings, ela trabalhou como dançarina em vários videoclipes. Desde então, envolveu-se em outros trabalhos e passou a produzir canções para si mesma e outros artistas. O seu primeiro álbum é um material raro que consegue soar tanto vivido como completamente futurista. Um trabalho meticuloso onde cada acorde e batida foram estrategicamente feitos para promover sua personagem artística. A sexualidade, fisicalidade, dinâmica e a estranheza que ela é capaz de criar e apresentar, tanto nas músicas como também nas performances, é de impressionar. O seu álbum é algo monumental, singular e totalmente convincente, em meio a um mercado superlotado. Mais do que criar versos e refrões viciantes, o que seria óbvio, a ideia dela foi se manter nesse trabalho o mais experimental possível. A primeira faixa, “Preface”, possui quase 2 minutos de duração, é alimentada por riffs eletrônicos e nos mostra a dinâmica e os contrastes temáticos do restante do álbum. Enquanto isso, “Lights On”, com o seu clímax sensual, apresenta elementos que soam como o auge da música eletrônica.

É lenta, obscura e ainda possui um refrão grandioso. Além de ser uma das canções mais fortes de Barnett, é abastecida por ruídos e bases distantes de qualquer apelo comercial. “Two Weeks”, a primeira música de trabalho do álbum, é facilmente uma das melhores canções de 2014. Contém um refrão que explode em energia depois de uma boa introdução, e ainda tem um videoclipe magnífico. A onda de sintetizadores cavernosos, a letra (mais sexualmente explícita) e o vocal ofegante da ponte, antes do último refrão, seduzem com facilidade: “Sinta o seu corpo se fechando / Eu posso rasgá-lo para abrir / Chupe-me, eu sou a cura / Para esta merda que você está lidando (…) Filho da puta extasiado, abra sua boca / Você sabe que você é meu”. Em “Hours” temos uma declaração honesta durante o refrão: “Eu poderia te beijar por horas”. Aqui há tristeza e solidão, onde os sentimentos de Barnett vem de forma clara e direta. “Pendulum”, outra excelente canção, é um número de R&B distorcido onde ela utiliza uma voz aguda sob batidas desconstruídas juntas de arranjos. Conforme a música progride, os vocais se tornam ofegantes e sexy, enquanto o baixo e a bateria vão ficando mais velozes. O álbum inteiro está repleto de uma profundidade emocional, mas em “Pendulum”, isso é particularmente singular. Principalmente por causa da letras, que vão e vem entre a decepção e a saudade de um romance que fracassou no passado.

“Video Girl”, por sua vez, é uma das mais simples, porém, é outra faixa irresistível. Uma canção complexa com vocais totalmente em harmonia com as caprichadas batidas. Sampha ajudou na composição de “Numbers”, uma faixa que nos fornece elementos de trip-hop e ótimos versos. Essa canção serviu como um pico energético para o álbum, por conta da sua repetição hipnotizante e mudança de humor. A faixa seguinte, “Closer”, apresenta um coral de vozes de outra galáxia que praticamente leva o ouvinte para os céus. Com sintetizadores pesados em um ambiente de R&B, Barnett quase não foge do seu tom, enquanto emite uma linha vocal maravilhosamente solene. Em seguida, “Give Up” mantém o nível de evidente destaque em forma grandiosa. Uma canção que, juntamente com “Two Weeks”, “Pendulum” e “Closer”, seriam capazes de ofuscar discos inteiros lançados no ano de 2014. FKA twigs conseguiu deixar o magnetismo do restante do disco intacto em “Give Up”, no entanto, de uma forma mais eufórica e otimista. Como encerramento do álbum, temos a faixa mais longa: “Kicks”. Uma canção misteriosa com vocais serenos e uma sonoridade detalhista. Aqui também temos mais da sua identidade artística, além de outras vertentes já usadas, como o trip-hop, batidas quebradas e sussurros.

Uma das coisas mais interessantes do “LP1” é o modo como FKA twigs o transformou em uma incrível obra. Aqui, ela demonstrou uma genialidade magistral, autêntica e não abandonou a sonoridade trabalhada nos últimos anos. O “LP1” é realmente uma estreia fantástica, onde questões excêntricas e enigmáticas são bem parecidas com os trabalhos de Björk. Um disco que tem seus próprios ritmos, movimentos peculiares e distorções que espelham as reviravoltas de alguns relacionamentos. FKA twigs fez um trabalho tão notável que conseguiu criar uma estética coesa baseada num R&B moderno e ao mesmo tempo eletrônico. Em todos os momentos do registro ela permaneceu inventiva, forneceu ritmos imprevisíveis e profundidade em suas emoções. Talvez a única questão que posso levantar para o “LP1” seria a repetição. Porque algumas canções, por mais ótimas que sejam, possuem elementos sonoros quase idênticos. Porém, nada que tire o brilho deste poderoso álbum, que nos dá uma mistura hipnótica de mistério e emotividade complexa. Mas do que isso, o “LP1” é universalmente atraente, não foi por acaso que a produção ficou equilibrada entre produtores mais comerciais, como Paul Epworth, e outros mais alternativos como Sampha, Arca e Devonté Hynes. O futuro e o sucesso de Tahliah Debrett Barnett será uma consequência deste maravilhoso disco que é, inegavelmente, de altíssima qualidade.

Favorite Tracks: “Two Weeks”, “Pendulum” e “Give Up”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.