Resenha: Fifth Harmony – Reflection

Lançamento: 30/01/2015
Gênero: Pop, R&B
Gravadora: Epic Records / Syco Music
Produtores: The Family, Joe London, Daylight, Taylor Parks, Jonas Jeberg, Harvey Mason, Jr., Stargate, Ori Kaplan, Dr. Luke, Cirkut, Parker, Tommy Brown, Travis Sayles, J.R. Rotem, T-Collar, Victoria Monet, Julian Bunetta, Chris “Flict” Appari, Deon Sanders, Meghan Trainor e Kid Ink.

O grupo Fifth Harmony tornou-se conhecido depois de participar da segunda temporada do The X Factor americano em julho de 2012. Após terminar em terceiro lugar na competição, atrás de Tate Stevens e Carly Rose Sonenclar, o grupo, formado por Ally Brooke, Normani Kordei, Dinah Jane, Camila Cabello e Lauren Jauregui, assinou um acordo com a Syco Music, de propriedade de Simon Cowell, e Epic Records, gravadora de L.A. Reid. Seu EP de estreia, “Better Together”, foi lançado em 2013 e, no ano seguinte, elas ganharam o prêmio “Artist to Watch” no MTV Video Music Awards. Posteriormente, em fevereiro de 2015, depois de alguns atrasos, o Fifth Harmony lançou o seu primeiro álbum de estúdio, chamado de “Reflection”. Ele estreou no número #5 da Billboard 200, com um total de 80 mil cópias vendidas na primeira semana. Durante as sessões de gravação, o grupo afirmou que o álbum iria sinalizar um som mais maduro, com um conteúdo lírico e produção menos pop do que o EP “Better Together”. O registro conta com contribuições de produção de Julian Bunetta, Stargate, Dr. Luke, além de colaborações com Meghan Trainor e os rappers Kid Ink e Tyga.

Fifth Harmony é uma girlband que rapidamente reuniu milhares de fãs, boa parte pelo fato delas terem sido ato de abertura de alguns outros artistas, como Demi Lovato, Austin Mahone e Cher Lloyd. “Reflection” é uma boa coleção de músicas pop com um grande sabor de R&B contemporâneo e EDM. As cinco garotas aparentemente conseguiram adquirir um certo amadurecimento se comparado ao seu EP de estreia, fazendo deste álbum algo a mais do que uma simples continuação do pop bubblegum encontrado por lá. E para um registro que passou dois anos sendo preparado, até que ele soa bem consistente. Aqui, cada membro do grupo joga, de forma confiante, com seus respectivos pontos fortes. É um álbum que também possui uma borda feminista encarnada, simultaneamente, com uma perspectiva afiada e soberba. Outro ponto positivo, apesar delas não terem um grande alcance vocal, é que as canções foram projetadas para mostrar o melhor da voz de cada uma. No entanto, uma coisa que também é muito perceptível é a homenagem e/ou inspiração que o grupo utilizou para compor o álbum.

Afinal, a maioria das músicas presentes aqui lembram muito outras já lançadas por diferentes artistas (como Ariana Grande, Jason Derulo, Beyoncé, willi.am e Britney Spears). Ao ouvir o disco você com certeza vai perceber essas semelhanças, visto que elas são extremamente percebíveis e/ou visíveis. “Reflection” começa com a faixa “Top Down”, uma canção introduzida por um esparso riff de sintetizador. Um R&B retrô com uma produção que soa como um retrocesso, mas que serviu como um ótimo ato de abertura. Além da melodia cativante, a música ainda inclui batidas titubeantes, saxofone ao fundo e uma performance vocal convincente. O primeiro single do álbum, “BO$$”, é uma faixa de dance-pop, R&B e hip-hop, repleta de referências à cultura popular, e um verdadeiro hino de emponderamento feminino. É provavelmente a canção que mais mostra a força, confiança e vislumbre de personalidade do quinteto. A sua produção também possui um valor muito grande, ela é impulsionada por um estrondoso trompete, uma forte batida e ainda tem um refrão bem catchy. Liricamente, “BO$$” é bem direta e exemplifica o principal tema do “Reflection”.

Fifth Harmony

“Trabalho pelo dinheiro / Pois foi assim que minha mãe me criou / Então idiota, melhor me respeitar, chefe! / Michelle Obama / A bolsa está tão pesada com o dinheiro da Oprah, chefe!”, elas cantam com entusiasmo. Na sequência, temos a faixa “Sledgehammer”, um brilhante e açucarado synthpop que eu, particularmente, considero uma das melhores músicas que o quinteto já lançou até a presente data. Co-escrita por Meghan Trainor, essa canção mid-tempo apresenta versos como: “Se você conseguisse sentir minha pulsação agora / Ele estaria batendo como uma marreta / Se você pudesse sentir meu coração batendo agora / Te acertaria como uma marreta”. É tudo a cerca de fortes sentimentos por alguém que são difíceis de ignorar. “Sledgehammer” definitivamente assume uma vibe pop divertida, muito diferente, por exemplo, da audácia de “Bo$$”. “Worth It“, terceiro single do álbum, apresenta participação do rapper Kid Ink e já é a canção mais bem sucedida do grupo. Originalmente, seria gravada por Kid Ink, que acabou colaborando na canção, mas terminou entrando no álbum das garotas com uma letra e melodia mudada para uma perspectiva feminina.

“Worth It” começa com um cativante saxofone, que tem a mesma pegada de “Talk Dirty” de Jason Derulo, e se inclina além do pop, para o R&B e hip-hop. Uma forte bateria também aparece quando não há presença do sax, enquanto suas profundas harmonias são combinadas com letras pessoalmente positivas. Recordando os acordes de “Bo$$”, as meninas afirmam que elas valem muito a pena. “Me dê isso, eu valho a pena / Querido, eu valho a pena / Eu valho a pena”, Camila Cabello canta no refrão. É outra música bem voltada para o empoderamento feminino, sendo preenchido com muita atitude e uma certa arrogância. A poderosa ponte, muito bem colocada, que leva a música para o refrão é um dos pontos altos da música: “Uh huh see me in the spot like / Ooh I love your style? / Uh huh show me what you got / Now come and make it worth my while”. O eletro-pop “This Is How We Roll”, quinta faixa, foi produzida por Dr. Luke e Cirkut, e é descaradamente muito parecida com “Scream & Shout” de will.i.am e Britney Spears.

Não vou negar que é uma faixa catchy, entretanto, sua batida saltitante e o restante da instrumentação, soa quase idênticas a “Scream & Shout”. Além dessas semelhanças, “This Is How We Roll” ainda soa um pouco datada e pode ser considerada um dos elos mais fracos do registro. A partir daqui começa a ficar ainda mais nítido que a cada faixa o grupo muda de gênero musical. Até o momento, o repertório já passou pelo R&B, hip-hop, pop, dancepop, synthpop e o eletropop. Essa indecisão sonora do álbum começa a parecer uma problemática. Na próxima faixa, “Everlasting Love”, acontece outra grande mudança sonora, com elas passando a explorar novamente uma sonoridade mais urbana. Essa canção é quase uma reminiscência do álbum “Yours Truly” de Ariana Grande, bem como também nos remete a algumas músicas da Mariah Carey. Mas apesar da oscilação de gêneros musicais, eu admito que gostei da performance vocal delas nesta faixa. Sobre uma batida R&B e um piano pesado, o quinteto passa a focar em um romance adolescente (“Você é meu para sempre amor eterno / E eu nunca mesmo esterei desistindo de você”).

As letras podem ser relegadas a alguns clichês, no entanto, sua simplicidade e o refrão cativante minimizam este detalhe. Intitular uma faixa de “Like Mariah” e construí-la em torno de um sample de “Always Be My Baby”, é uma jogada arriscada para qualquer artista. Entretanto, o quinteto do Fifth Harmony, admiravelmente, entrega uma pista envolvente que consegue homenagear Mariah Carey da melhor maneira possível. “Like Mariah” é uma canção de R&B sólida e com uma vibe ensolarada que, graças a autoconfiança do grupo, culminou em um resultado encantador. A música só peca pelas interjeições desnecessárias que não acrescentam em nada do convidado especial, o rapper Tyga. A próxima faixa, “Them Girls Be Like”, é um canção que exala autoconfiança e contém escrita adicional de Tinashe. É uma música divertida, com uma batida simples, mas eficazes, bons vocais e uma vibe inspirada na Beyoncé. Ela apenas sofre pelo seu conteúdo lírico, onde encontramos referências bregas ao Instagram, hashtags e selfies: “Você posta suas fotos sem filtro? / Hashtag “eu acordei assim também”, “Tira uma selfie toda noite? / Tem pelo menos cem curtidas?”.

Fifth Harmony

A faixa-título (“Reflection”), por sua vez, é uma celebração do amor próprio, escrita por Julian Bunetta e emparelhada com a produção sólida e polida de Victoria Monét. É uma música conduzida com uma certa arrogância, mas cheia de personalidade e muito bem trabalhada. Encarnado um espírito modernizado das Destiny’s Child, as garotas tentam refutar a ideia de que as mulheres vestem-se apenas para os homens. E melhor que isso, elas utilizam um tipo de escrita muito adequado, fazendo inicialmente parecer que estão cantando para algum garoto, mas na verdade estão falando delas mesmas: “Oh de onde você é? Deve ser do céu / Você ficaria rico se boa aparência fosse uma profissão / Acho que estou apaixonada, porque você é tão sexy / Cara, eu não estou falando sobre você / Eu estou falando com o meu próprio reflexo”. “Sugar Mama”, penúltima faixa da versão padrão do álbum, é mais uma canção de R&B inspirada em outros grupos femininos, como Destiny’s Child, TLC e Danity Kane.

Meghan Trainor novamente trabalhou aqui como co-escritora, e você pode perceber sua influência na composição da música. Ao longo de uma atraente batida e um piano, elas retratam uma garota frustada que não quer mais apoiar o seu namorado irresponsável (“Será que você vai conseguir um emprego / e fazer algumas das verdes / Você tenta me levar pra sair / Mas você não pode pagar para mim / Eu acho que eu tenho o dinheiro (…) / Mas eu não posso ser sua mãezona / Sua mãezona baby”). “Suga Mama” é uma boa faixa, as vozes do quinteto está no ponto nesta canção, enquanto sua atitude também é admirável. Encerrando o registro temos “We Know”, uma incrível balada que permite o grupo brilhar e exibir ainda mais suas habilidades vocais. A música é ligeiramente acapela, faz uma interpolação com a canção “Dream” do grupo DeBarge e o momento onde Fifth Harmony mostra suas melhores harmonias. Lauren Jauregui é a que mais se destaca nessa música, enquanto a produção é mínima, com apenas um piano e harmonias vocais. O pré-refrão, em particular, é a parte mais impressionante, na mesma qualidade que a melodia é totalmente grudenta.

Enfim, “We Know” serviu como uma vitrine perfeita para mostrar a proeza vocal das garotas, além de ser uma canção madura e elegante. No geral, “Reflection” inegavelmente representa um primeiro passo promissor para o Fifth Harmony. O desempenho vocal das cinco garotas dificilmente vacila, um ponto muito forte que deverá ser mais explorado no futuro. Entretanto, mesmo achando um ótimo disco, não possa deixar de mencionar seus pontos negativos. Porque em boa parte, o registro sofre com uma certa crise de identidade, raramente conseguindo esculpir uma visão sonora coesa e única. Enquanto ele é, certamente, um álbum louvável, divertido e muito confiante, também tem seus contratempos ao longo do caminho. Com exceção daquelas com emponderamento por trás, o conteúdo lírico também não é dos melhores, muitas vezes aparecendo sem inspiração e com letras pobres que acabam interrompendo o fluxo. De qualquer maneira, eu acredito que esses pontos poderão melhorar no próximo projeto delas, visto que terão mais tempo para amadurecer e encontrar o seu som.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.