Resenha: DJ Khaled – Major Key

Lançamento: 29/07/2016
Gênero: Hip-Hop, R&B, Trap
Gravadora: We the Best Music Group / Epic Records
Produtores: DJ Khaled, 808-Ray Ben Billions, Cool & Dre, DJ Nasty & LVM, Dyryk, Edsclusive, Frank Dukes, G Koop, Hollywood JB, Jake One, Jordan Ullman, Kent Jones, Key Wane, Lee on the Beats, Metro Boomin, Nineteen85, Qolorsound, Southside e The Beat Bully.

Com ajuda de alguns dos maiores nomes do hip-hop, DJ Khaled lançou um álbum muito agradável. Ele é um bom exemplo do que a persistência pode trazer. Desde os seus dias como DJ do Terror Squad, ele virou apresentador de rádio, produtor, empresário e presidente de gravadora. Sua vida profissional é realmente muito bem sucedida. Além disso, nos últimos anos, DJ Khaled teve um grande aumento de popularidade nos meios de comunicação, particularmente no Snapchat. Pelo outro lado, ele não faz rap, produz ocasionalmente e suas contribuições vocais são baseadas apenas em frases de efeito no início e final de cada faixa. Apesar disso, seus álbuns costumam ter a participação de muitos rappers e produtores convidados. O seu nono álbum de estúdio, “Major Key”, possui uma longa lista de colaboradores, entre eles Kendrick Lamar, Drake, J. Cole, Jay-Z, Nas, Bryson Tiller, Nicki Minaj, Fat Joe e Fabolous.

A inclusão de tantos colaboradores pode causar confusão no ouvinte, mas já virou rotina na vida artística de DJ Khaled. “Major Key” é um álbum consistente de alguém que, aparentemente, não tem um papel importante na criação do mesmo. Isso é ainda mais nítido, quando nos damos conta que ele contrata vários produtores para fazer a maior parte do trabalho braçal. Enquanto Khaled produziu apenas cinco das quatorze faixas do repertório, é inegável que ele é a pessoa que faz tudo acontecer. Isso se deve, em grande parte, por sua reputação em reunir talentos. Khaled é uma persona ameaçadora ao longo deste álbum, onde vários homens e mulheres nos dizem o quão bem sucedidos eles são. Há algo estranhamente incrível sobre a maneira como ele cativou o cenário hip-hip nos últimos anos. Através dos seus álbuns superlotados, forte presença nas mídias sociais e personalidade carismática, Khaled tornou-se um nome muito familiar.

Em meio a várias letras clichês, alguns convidados usam seu momento para falar sobre assuntos mais sérios, como religião e relações raciais (Nas e Kendrick Lamar, por exemplo). Apesar da maioria das canções do álbum serem sólidas, existem algumas decepções, como “Forgive Me Father” (com Wiz Khalifa, Meghan Trainor e Wale). Os três artistas possuem participações bem fracas, excessivamente confusas e fecham a canção com uma nota amarga. Para ser sincero, podemos classificar essa colaboração com uma das mais bizarras do ano. Tudo aqui soa perdido, tanto que fica difícil saber qual gênero estamos escutando. “Tourist”, faixa que aparece anteriormente, é outro número muito irritante. Travi$ Scott e Lil Wayne utilizam o auto-tune de forma exagerada e não oferecem qualquer tipo de qualidade artística. Quando Khaled utiliza algo tão robótico e sintetizado, parece que não sabe a hora de parar.

DJ Khaled

Apesar dos seus pontos fracos, Khaled conseguiu entregar um material que corresponde as suas melhores canções. “Major Key” é a prova de que ele é muito bom no que faz. De acordo com esse projeto, podemos perceber que ele é um anfitrião da atual cena do hip-hop americano. A faixa de abertura, “I Got the Keys”, é um número trap que apresenta vocais de Jay-Z e Future. De início a canção pode parecer fraca, principalmente pelo gancho repetitivo. No entanto, a ótima batida fornecida por Southside e Jake One compensa o refrão sem graça. A segunda faixa, “For Free”, apresenta vocais de Drake e serviu como pontapé inicial da divulgação do disco. Anteriormente, ambos artistas já haviam trabalhado juntos nas canções “Fed Up”, “I’m On One” e “No New Friends”. É uma canção de hip-hop reminiscente de “I’m On One”, single mais bem sucedido de DJ Khaled. Ela possui uma batida suavemente serpenteada e um baixo saltitante, produzidos por Nineteen85 e Jordan Ullman (do duo Majid Jordan).

Por este motivo, não é surpreendente ver que a batida e os arranjos são tão inquietantes. “For Free” é uma música bem polida, cativante e com forte potencial para as rádios urban contemporary e rhythmic. “Eles não querem que eu tenha um outro hino”, Khaled cospe durante a canção. “Então, eu tenho certeza que eu tenho outro hino / É We the Best, OVO / O verão é nosso”, ele continua, fazendo referência as gravadoras fundadas por ele e Drake. Em um dos seus versos, Drake aproveita para homenagear o “To Pimp a Butterfly”, aclamado álbum de Kendrick Lamar. “E como o seu menino de Compton disse / Você sabe que este pau não é livre!”, ele diz, referindo-se a canção “For Free? (Interlude)” de Lamar. “For Free” é um single muito agradável, principalmente pela boa batida e forte presença de Drake. Não é muito diferente das antigas parcerias entre eles, mas, sem dúvida, é uma das melhores.

Em seguida, Nas chega com status de lenda durante a ótima “Nas Album Done”. É impressionante que, mesmo depois de duas décadas, Nas ainda pode transformar qualquer batida em algo próprio. “Nas Album Done” é uma das melhores faixas, por conta do poderoso fluxo e rimas carismáticas. Nesta faixa, Nas lembra às pessoas que ele ainda é um dos grandes nomes do hip-hop. “Holy Key”, um dos cortes mais fortes do álbum, apresenta Big Sean, Kendrick Lamar e uma extravagante participação de Betty Wright. Nessa canção temos um lirismo tópico, invetivo e uma produção quase minimalista. É um número que foi praticamente adaptado para Kendrick Lamar, em termos de produção e resultado. Além disso, “Holy Key” transforma Big Sean em um ativista político: “Pai nos ajude, a polícia fazendo tiro ao alvo com corpos reais / Mães nas ruas, chorando, de pé sobre um corpo”. De todas os convidados, Sean é único que bate de frente com Kendrick Lamar, graças ao seu verso sólido.

DJ Khaled

Aparentemente, desde o álbum “Dark Sky Paradise” Big Sean está ficando cada vez melhor. “Jermaine’s Interlude” é uma música que dificilmente poderíamos imaginar em um álbum de DJ Khaled. É uma mudança de tom bem-vinda, principalmente por vir logo após a natureza épica de “Holy Key”. O desempenho de J. Cole durante “Jermaine’s Interlude” é muito sincero, pois ele mostra sua luta com a fama e parece estar muito emocionado. É um número que encontra-se a altura do status de J. Cole. Em “Ima Be Alright” temos um discurso hilariante feito por DJ Khaled, além de algumas inflexões de R&B. Nessa pista encontramos um número trap interpretado sob medida por Bryson Tiller e Future. O problema com o álbum, é que ele perde um pouco a qualidade quando estamos nos aproximando da metade. Isso começa com a flácida “Do You Mind”, um mix genérico de alguns gêneros, como hip-hop, rap e R&B.

Letras desinteressantes acompanham o desempenho fraco de Nicki Minaj, August Alsina, Chris Brown, Jeremih, Future e Rick Ross. Aqui, todos os rappers soam extremamente semelhantes e questionáveis. Nem as viciantes teclas de piano e batidas de tambor salvam o desempenho aquém do esperado. Algumas faixas seguintes também passam despercebidas e pouco agregam, como “Pick These Hoes Apart”, com desempenhos aborrecidos de Kodak Black, Jeezy e French Montana, “Fuck Up the Club”, com vocais de Future, Rick Ross, YG e Yo Gotti, e “Work for It”, com a entrega repetitiva de Big Sean, Gucci Mane e 2 Chainz. O trap é um gênero incrivelmente viciante, que proporciona batidas muito competentes. Entretanto, nessas três faixas, é um gênero abordado de forma desgastada e sem qualquer técnica diversificada. Uma boa canção surge em meio a uma sequência desgastante, intitulada “Don’t Ever Play Yourself”.

Isso acontece graças a reunião de alguns nomes conhecidos de Nova York, como Jadakiss, Fabolous, Fat Joe e Busta Rhymes, além do estreante de Tallahassee Kent Jones. Os quatro rappers de Nova York fazem um ótimo serviço, sobre a produção de piano fornecida por Qolorsound e o próprio DJ Khaled. A última faixa, “Progress”, é uma reminiscência de algo da década de 2000. Foi uma decisão sem sentido colocar essa canção para encerrar o registro. Ela é carregada por uma batida up-tempo, um piano brega e sintetizadores ecoando ao fundo. Não chega nem perto de ser tão edificante ou infecciosa como as melhores faixas do álbum. DJ Khaled claramente sabe como chamar atenção, ao colocar grandes nomes da música a frente do seu registro. No entanto, mesmo sendo um bom álbum, depois da sexta faixa “Major Key” torna-se sonolento e padronizado. Em suma, é um projeto composto por algumas grandes músicas e outras completamente sem brilho.

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Favorite Tracks: “I Got the Keys (feat. JAY-Z & Future)”, “For Free (feat. Drake)”, “Nas Album Done (feat. Nas)”, “Holy Key (feat. Big Sean, Kendrick Lamar & Betty Wright)” e “Ima Be Alright (feat. Bryson Tiller & Future)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.