Resenha: Desatino – Entreguerras

Lançamento: 15/01/2015
Gênero: Rock Alternativo, Hardcore Melódico
Gravadora: Independente / Refil Records
Produtores: Gui Ferraz e Matheus Pinheiro.

Conhece o Desatino? Eles são uma banda de rock alternativo, formada na cidade de Limeira, São Paulo, em 2012. É composta por Gui Ferraz (vocal e guitarra), Lucas Dalfré (guitarra), Felipe Tofoli (baixo e vocal de apoio), Matheus Pinheiro (guitarra e sintetizador) e Thomas Dalfré (bateria). O nome da banda é baseado no verbo “desatinar”, que significa “fazer perder a razão, perturbar, enlouquecer”. O estilo musical deles é o rock alternativo e, ocasionalmente, o hardcore melódico (estilo surgido no início da década de 1980). Entre as principais influências do Desatino temos as bandas 30 Seconds to Mars, Muse e Queens of the Stone Age. “Entreguerras” é o título do seu primeiro álbum de estúdio, lançado dia 15 de janeiro de 2015, através da Refil Records. Foi produzido por Gui Ferraz e Matheus Pinheiro, com mixagem de Chuck Hipolitho, que já trabalhou com Vespas Mandarinas, e Paulo Senoni no estúdio Costella, localizado em Perdizes, Zona Oeste de São Paulo.

O disco sucede o EP “A Saída”, primeiro trabalho da banda lançado em agosto de 2013, que, inclusive, contou com a participação de Teco Martins, do Rancore, na faixa “Sangue Frio”. “Entreguerras” foi gravado em Limeira, interior de São Paulo, cidade de residência da banda, entre março e novembro de 2014, ao passo que a singular arte da capa foi criada pelo artista fotográfico Felipe Khill. O registro conta com um total de 10 faixas, todas produzidas e gravadas de forma independente, e já teve três singles oficiais: “Inverso”, “Olhos Vendados” e “Sete Séculos”, com as duas últimas já possuindo um videoclipe. O álbum é realmente muito coeso e conceitual, focado em letras que transmitem insatisfação, indignação, pessimismo e uma certa vulnerabilidade, além de focar em dramas pessoais. O seu conteúdo lírico de fato conseguiu interligar-se com a arte da capa, que captura sensações como o medo, violência e impetuosidade. A produção musical também foi muito eficaz, com quase todas as músicas entregando grande riffs de guitarra, forte bateria e sintetizadores incisivos.

A primeira faixa, “Iminência”, é uma introdução de 40 segundos, muito enigmática e que já dita o tom sombrio presente no restante do disco. Logo em seguida, temos a energética faixa-título (“Entreguerras”) que já abre com uma carga pesada de guitarra. Aliás, a linha e os riffs de guitarra dessa faixa ficaram realmente incríveis, foi o ponto chave para transformá-la em um dos destaques do álbum. Enquanto isso, a letra possui um ar pessimista, como ouvimos no ótimo refrão, “Descrente / Com tudo tão distante / Os olhos nos dizem que estamos / Mais perto de desmoronar”. Destaque também para o solo de guitarra realizado na última ponte e o vocal de Gui Ferraz, que conseguiu se entregar com precisão ao ceticismo da letra. “Inverso”, faixa três, foi lançada como primeira música de trabalho do álbum em janeiro de 2015. Aqui, a ligeira bateria e os vocais de apoio tiveram um papel fundamental, bem como os bons riffs de guitarra.

Desatino

Liricamente, “Inverso” fala sobre o passado, a busca pela superação e tentativas de esquecer o que não deu certo (“O que eu sei / É o que quero esquecer / Me restou, nada além (…) / Os meus fantasmas eu mesmo criei / O meu passado é o que me retém”). O seu final também ficou bacana, com a bateria se desintegrando e um teclado marcando presença. “Naufrágio”, por sua vez, é a faixa mais longa do registro, com um total de 6 minutos de duração. É introduzida por um sintetizador sinistro, alguns riffs e, posteriormente, conduzida por um teclado ressonante. Na medida que progredide é, sonoramente, cheia de reviravoltas, graças a entrada da forte bateria e a guitarra carregada. Na letra o vocalista faz alguns questionamentos, “Ao final das contas quem é você?”, ao passo que se mostra desiludido com a sociedade, “O pior é perceber centenas iguais a você (…) / Essa nação que não prospera”.

Apropriadamente intitulada, “Interlúdio” é a quinta faixa e prepara o ouvinte para a segunda metade do registro. É uma canção instrumental que começa calma, serena, apenas com a presença da guitarra acústica, grasnado de pássaros e sons praianos. Conforme avança vai ficando sombria, pesada e escura, com efeitos sonoros de helicópteros, aviões, tiros, trovões e ventania. Aparentemente, “Interlúdio” serviu para demonstrar a essência e o clima de guerra presente no título e em boa parte do registro. Em seguida, surge a faixa “Outro Lado” que é, certamente, um dos pontos altos do repertório, uma forte candidata para próximo single da banda.

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A partir dessa música o disco registra uma sequência realmente acima da média. “Outro Lado”, por exemplo, tem uma bateria contundente, riffs espetaculares, efeitos orientais, além de possuir uma sonoridade muito acessível e cativante. A letra é sem rodeios e com um tom de revolta e ausência de prudência, como escutamos no refrão: “Vou ter que escolher um lado meu / Buscando uma revolução / Vou ter que encontrar uma razão / Distante da insensatez”. “Sete Séculos” foi a primeira canção liberada pela banda, seis meses antes do lançamento oficial do álbum. Foi lançada como segundo single e ganhou um videoclipe monocromático, que contou com a direção do próprio grupo. Começando com uma simples guitarra acústica, “Sete Séculos” fornece um ambiente diferente das faixas anteriores, graças à sua vibe mais pacífica.

A presença dos sintetizadores são mais perceptíveis aqui, enquanto os vocais são colocados em primeiro plano. De qualquer maneira, a banda não abandona o lirismo marcante de todo o álbum. “Morri, só para tentar mostrar / Sofri, querendo te salvar / Fracassando mais uma missão”, canta Ferraz logo na primeira estrofe, terminando com um tom de desilusão, “Ah o amor em nós, se foi / Tão difícil de aceitar”. A próxima canção, “Olhos Vendados”, foi lançada como terceiro single e ganhou um videoclipe em 8 de abril, que mostra algumas cenas de shows. Outra música muito maneira, uma excelente escolha para nova música de trabalho, está entre minhas favoritas. O seu riff é muito contagiante e a bateria, rápida e quebrada, praticamente te convida para pular. O hardcore melódico de “Santa” também é bastante agradável, por conta do tempo acelerado, as guitarras distorcidas e os arranjos mais elaborados.

A última faixa é chamada “Vítimas”, uma canção com boas melodias, além de vocais e um ambiente carregado de tristeza. Aqui, o vocalista teve a oportunidade de mostrar suas habilidades para notas mais altas. “Entreguerras” é um disco que consegue se conectar e sintonizar a banda com o ouvinte de forma eficaz. É um material que se mostra capaz de transmitir mensagens e emoções através de suas letras e instrumentação, se destacando tanto liricamente quanto sonoramente. E isso é ainda mais admirável quando percebemos que eles são uma banda relativamente nova, com apenas três anos de formação. Para quem é fã de rock alternativo, provavelmente vai se agradar com facilidade de alguma das 10 canções presentes aqui. Eu, particularmente, como um grande fã de rock, fico feliz de ouvir uma banda fazendo um som de qualidade, visto que o cenário rock brasileiro está, atualmente, cada vez mais carente.

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Favorite Tracks: “Entreguerras”, “Outro Lado” e “Olhos Vendados”.


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São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.