Resenha: Deftones – Gore

Lançamento: 08/04/2016
Gênero: Metal Alternativo, Rock Experimental
Gravadora: Reprise Records
Produtores: Matt Hyde e Deftones.

A banda californiana Deftones foi fundada em 1988 e é, atualmente, composta por Chino Moreno, Stephen Carpenter, Frank Delgado, Abe Cunningham e Sergio Vega. Lançado em 08 de abril de 2016 pela gravadora Reprise Records, “Gore” é o seu oitavo álbum de estúdio. É considerado uma continuação dos discos “Diamonds Eyes” e “Koi no Yokan”, lançados respectivamente em 2010 e 2012. Os três álbuns foram criados após a morte do baixista Chi Cheng. Ele faleceu depois de se envolver em um acidente de trânsito, que o deixou em estado minimamente consciente e o levou à morte em 2013. O álbum foi produzido, especialmente, pelo vocalista Chino Moreno, o guitarrista Stephen Carpenter e o produtor Matt Hyde. Com este novo material, a banda provou que continua evoluindo, mesmo depois de tanto tempo de carreira. Algo que os mantém em constante evolução é a combinação visceral na composição de Moreno e Carpenter. “Gore” é mais ponderado em relação aos seus primeiros discos e o mais estilisticamente variado desde “Saturday Night Wrist”.

Os riffs pesados de Carpenter são, muitas vezes, colocados estrategicamente no lugar certo para proporcionar uma audição incrível. Além disso, algo que obviamente se destaca são os tons ofegantes e melódicos de Moreno. Para este projeto, ambos artistas decidiram escrever em conjunto e em seu próprio ritmo. Este estilo livre de composição e liberdade, aperfeiçoou as coisas ao longo do repertório. São onze canções diversificadas que funcionam com perfeição quando colocadas em conjunto. Aqui, encontramos grandes riffs de guitarra, um baixo profundo executado por Sergio Vega, uma ótima bateria de Abe Cunningham e um trabalho crucial no teclado e gira-discos de Frank Delgado. As pequenas coisas também brilham desta vez, seja as discretas técnicas de percussão de Cunningham ou os licks mais simples da guitarra de Carpenter. A forte sintonia da banda é ouvida a todo momento, a começar pela refrão explosivo e versos intensos da incisiva “Prayers/Triangles”. É uma abertura hipnótica, suave, com passagens distorcidas na guitarra, vocais limpos e onde Chino Moreno alcança o seu registro mais superior.

Em seguida, “Acid Hologram” mantém o clima de êxtase no lugar certo, ao permitir que os vocais ardentes de Moreno trabalhem lado a lado com os grandes licks de metal de Carpenter. Uma transição inteligente permite uma mudança sólida de ritmo, quando a faixa “Doomed Use” entra em ação. Através dela as coisas vão para uma direção mais pesada e agressiva. É uma surpresa agradável, uma vez que o guitarrista Stephen Carpenter apresenta um trabalho estelar na guitarra. O estilo vocal de Moreno, por sua vez, é vigoroso e igualmente agressivo, uma tentativa de igualar-se a intensidade da guitarra de seu parceiro. O baixo de Sergio Vega e a ótima percussão de Cunningham também dão um maior suporte. Alguns riffs estranhamente sincopados e uma batida irregular fazem de “Geometric Headdress” uma das faixas mais incomuns. Foi uma boa estratégia, uma vez que a melodia menos convencional adiciona uma passagem atmosférica e clima consistente. A quinta faixa, “Hearts/Wires”, surge de uma forma mais despojada e mid-tempo, algo que proporciona um dos momentos mais mainstream do álbum. Aqui, a letra e principalmente a melodia estão no ponto.

Deftones

Em outros momentos, a estrutura das canções são imprevisíveis, como acontece na faixa “Pittura Infamante”. Ela se move através de diferentes seções, em vez de alguns versos e refrões. Novamente, Moreno sobe para o seu registro mais superior e, em meio a incrível bateria de Cunningham, consegue destacar-se. Ele tem a rara capacidade de encontrar o espaço e tom perfeito, sem parecer forçado, para canções como esta. Outro momento impressionante do álbum é a faixa “Xenon”. Ela abre através do trabalho intrigante na guitarra e baixo, enquanto um acessível refrão encarrega-se de cativar qualquer ouvinte. A próxima faixa, “(L)MIRL”, que significa “Let’s Meet in Real Life”, apresenta uma das melhores melodias encontradas no álbum. Ela torna-se impressionante, em grande parte, graças a boa composição conseguida através das letras de Moreno. Dessa vez, ele descreve a recuperação de um relacionamento fracassado, utilizando termos suicidas e falando sobre recomeços.

Ele soa quase eufórico quando canta: “Quando acordar / Eu vou acordar de qualquer maneira / Em um novo reino”. É uma faixa reflexiva, melodicamente incrível, escura e temperamental. A faixa-título, “Gore”, também permite alguns dos vocais mais agressivos de Moreno, enquanto soa como se pudesse encaixar-se perfeitamente nos discos “Adrenaline” e “Around the Fur”. Na verdade, ela tem todas as características de um trabalho padrão do Deftones, algo que os fãs dos álbuns mais antigos devem ter gostado. “Phantom Bride”, com Jerry Cantrell da banda Alice in Chains, exala uma natureza explicitamente progressiva. Ela abre com uma charmosa linha de guitarra e uma entrega lírica e vocal profunda. Moreno surpreende ao apresentar linhas melódicas e harmonias brilhantes. Ele lentamente cresce até encontrar-se com riffs de guitarra poderosos e uma certa vibração experimental. Isto leva o ouvinte para a última faixa do álbum, intitulada “Rubicon”. É outro corte potente e, possivelmente, a melhor faixa de encerramento desde o álbum “Around the Fur”.

Em comparação com os últimos discos do Deftones, “Gore” apresenta um perceptível crescimento como banda. Aparentemente, eles atingiram o seu auge criativo neste álbum, apostando em composições afiadas e cargas de experimentação. Além da progressão como banda, eles capturaram a mesma energia e emoção de discos anteriores. Todo o repertório é sólido, com a primeira metade sendo tão forte quanto a segunda. Como acontece com a maioria de seus álbuns, “Gore” não é um material de fácil digestão. Consequentemente, não é o registro mais acessível do Deftones, mas que, certamente, cresce em você após alguns repetidas escutas. Depois de estarem juntos por quase 30 anos, é notável que a banda continua a criar músicas relevantes. Eles conseguem desafiar o metal, mesmo que seja um gênero resistente à mudanças. Eles experimentaram diferentes texturas, mas mantendo um som estilisticamente coerente por toda parte. “Gore” é talvez o material mais coeso e um dos melhores álbuns do Deftones, até a presente data.

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Favorite Tracks: “Prayers/Triangles”, “Xenon”, “(L)MIRL”, “Phantom Bride” (feat. Jerry Cantrell)” e “Rubicon”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.