Resenha: De La Soul – and the Anonymous Nobody…

Lançamento: 26/08/2016
Gênero: Hip-Hop
Gravadora: A.O.I. / Kobalt Label Services
Produtores: De La Soul, The Anonymous Nobodies, Dave Palmer, Davey Chegwidden, Jordan Katz, Ethan Phillips, Joshua Matthew Lopez, Kaveh Rastegar, Money Mark, Pete Rock e Supa Dave West.

Vinte e cinco anos depois de lançar o clássico “De La Soul is Dead”, o trio novaiorquino de hip-hop está de volta com o disco “and the Anonymous Nobody…”. Esse é o primeiro álbum do grupo De La Soul em 11 anos, e conta com participações de artistas como Damon Albarn, Little Dragon, David Byrne, Snoop Dogg, Usher e 2 Chainz. Para quem não conhece, De La Soul foi formado em Nova York no ano de 1987 por Posdnuos, Dave e Maseo. Eles são conhecidos por sua abordagem eclética, letras peculiares e contribuições para a evolução do jazz no rap e subgêneros como o hip-hop alternativo. O seu divertido jogo de palavras, abordagem inovadora e esquetes brincalhonas, foi o resultado para transformar o LP “3 Feet High and Rising” em uma obra-prima do hip-hop.

Semelhante a grupos como A Tribe Called Quest e Jungle Brothers, o trio ajudou a criar novos caminhos dentro do gênero, combinando-o com jazz, funky e sons energéticos. “and the Anonymous Nobody…” nasceu quando a campanha para o álbum foi bem-sucedida e arrecadou US$ 600.000. Foi uma alegria para todos quando o trio anunciou que estavam trabalhando em um novo álbum. Os fãs que financiaram esse disco desafiaram De La Soul a fazer um álbum digno de um grupo old-school. Com esse novo disco, o trio de Long Island proporcionou um retorno suave e meditativo. É incrível o quão bem funcionou o repertório como um todo. Liricamente, Posdnuos e Dave continuam muito bons, e são capazes de demonstrar sua habilidades dentro de vários estilos musicais. De faixa para faixa, o álbum flui sem maiores esforços. Este registro é uma coleção que mostra que suas rimas ainda podem inspirar repetidas escutas.

De La Soul

Eles falam sobre aproveitar o dia, promiscuidade, juventude e a geração atual. Seu som é caracterizado por influências jazz e loops funky. Lançado quase 30 anos depois do seu sucesso inicial, “and the Anonymous Nobody…” é uma reflexão de suas carreiras. Embora os membros estão aproximando-se dos 50 anos, o registro mantém o seu espírito eclético de assinatura. Na verdade, o disco é tão amplo em questões de estilos, que quase torna-se incoerente. Mesmo ao lado de convidados especiais, como Jill Scott em “Genesis”, De La Soul nunca é ofuscado no álbum. A produção está no ponto e os substanciais vocais estão condizentes com a marca do De La Soul. Metais preparam a faixa “Royalty Capes”, enquanto uma variação eletro-funky eleva “Pain” (com Snoop Dogg) e fortes linhas de guitarras desenham a faixa “Lord Intended” (com Justin Hawkins).

Como qualquer outro álbum tão amplo sonoramente, “and the Anonymours Nobody…” possui seus momentos de fraqueza. “Property of Spitkicker.com” é completamente sem vida graças à pesada edição nos vocais. “You Go Dave (A Goldblatt Presentation)”, com David Goldblatt, tenta criticar a música pop atual, mas só consegue interromper o fluxo do repertório. Por outro lado, com grandes participações especiais é difícil o ouvinte não se prender. “Memory of… (Us)”, com Estelle e Pete Rock, por exemplo, vai direto ao ponto com seu mágico R&B. Da mesma forma, Little Dragon auxilia positivamente na estranheza intrigante de “Drawn”. De La Soul e Damon Albarn relembram os dias de glória de sua colaboração no passado, através da penúltima faixa “Here in After”. Essas três canções são ponto altos e, facilmente, um dos maiores destaques do registro. Faixas como “CBGB’s” possui um som demasiado experimental para o hip-hop.

Igualmente a “Lord Intended”, ela é carregada por guitarras e aventura-se por produções típicas de caras como Rick Rubin. Os tambores, baixo e amostras vocais são muito bem filtrados pelo rap de Pos e Dave. “Snoopies”, com David Byrne, soa mais como algo que o Weezer faria do que um número de hip-hop. Mesmo com essa transição de diferentes estilos musicais, a transição entre as canções acontece sem grandes esforços. Em “Greyhounds”, com Usher, vemos o trio apresentando um número inesperadamente R&B. É uma canção muito contemplativa, onde Pos e Dave falam sobre jovens sonhadores que foram destruídos pela infusão de drogas em Nova York. Sobre esparsos teclados e uma forte bateria, Pos canta: “Estrada de destino desconhecido / Ela e toda a sua ovelha vai ter sua lã na canção / Agora o lobo vai dar um empurrão / Agora vê-la saltar com os dois pés”.

De La Soul

Canções como “Sexy Bitch” e “Trainwreck”, entretanto, amenizam o peso emocional estipulado por “Greyhounds”. Essas duas faixas falam sobre sexo e acabam manchando um pouco o fluxo do álbum. A produção de “Whoodeeni”, com 2 Chainz, é ampla e muito bem executada. É uma homenagem à velha escola do hip-hop e um outro ponto alto do álbum. Uma crepitação groovy do rap gangsta com um refrão de inspiração funky. Em alguns momentos, 2 Chainz rouba a cena: “Quando estou na cabine eu sou MJ com a língua de fora / Quando estou na cabine eu sou Kanye com uma arma”. Faixas de encerramento como “Nosed Up” e “Exodus” exibem uma produção criativa e um jogo de palavras bem-humorado de marca registrada do trio. É muito reconfortante ouvir um disco de inéditas do grupo De La Soul, depois de tantos anos.

“and the Anonymous Nobody…” não soa parecido com qualquer outro disco deles, mas soa completamente De La Soul. É definitivamente um disco diferente de tudo que está no mercado atualmente. Ele incorpora todo o espírito e profundidade que os fãs de longa data estão acostumado a ouvir. Liricamente, “and the Anonymous Nobody…” está, talvez, entre os melhores álbuns do trio. Posdnuos e Dave cresceram como MCs e continuam a ser tão hábeis como sempre foram. Embora o registro corresponda a experimentação do “3 Feet High and Rising”, ele claramente não é tão impressionante quanto. Entretanto, “and the Anonymous Nobody…” encaixa-se confortavelmente no hip-hop experimental e alternativo que eles estão acostumados a produzir.

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Favorite Tracks: “Royalty Capes”, “Pain (feat. Snoop Dogg)”, “Memory of… (Us) [feat. Estelle & Pete Rock]”, “CBGB’s”, “Lord Intended (feat. Justin Hawkins)”, “Greyhounds (feat. Usher)”, “Whoodeeni (feat. 2 Chainz)” e “Here in After (feat. Damon Albarn)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.