Resenha: David Bowie – Blackstar

Lançamento: 08/01/2016
Gênero: Art Rock, Jazz
Gravadora: ISO Records / RCA Records / Columbia Records / Sony Music
Produtores: David Bowie e Tony Visconti.

“Blackstar”, o vigésimo quinto álbum de estúdio de David Bowie, foi lançado em 08 de janeiro de 2016, no dia do seu 69º aniversário e dois antes de sua morte por câncer. O álbum foi um singelo presente de despedida do astro para seus fãs. Um disco digno do seu status de lenda, realizado em conjunto com o produtor de longa data Tony Visconti. Mesmo após um retorno surpresa com “The Next Day” em 2013, seu primeiro álbum em uma década, David Bowie foi capaz de lançar mais um incrível projeto antes do seu triste falecimento. “Blackstar” é um disco maravilhoso e ressonante, onde cada canção parece ser uma obra-prima individual. É um registro de um homem ousado, ambicioso, criativo e extremamente talentoso, que tornou-se uma verdadeira lenda da música. A faixa-título, “Blackstar”, de quase dez minutos, foi lançada como primeiro single e abre o álbum. É uma música bastante convincente e, provavelmente, a mais ambiciosa do repertório. Aqui, Bowie leva o ouvinte para uma autêntica e majestosa exploração de rock, jazz, soul e música eletrônica. Seu tom é obscuro, arcaico, estranho e enigmático, assim como exala uma beleza genuína.

Sua letra é introspectiva e, aparentemente, fala sobre religião. “Algo aconteceu no dia que ele morreu / O espírito subiu um metro e afastou-se / Outra pessoa pegou seu lugar e gritou bravamente / (sou uma estrela negra, sou uma estrela negra”, ele canta em um dos versos. Bowie é sinônimo de letras sombrias, portanto, liricamente, “Blackstar” incorpora todos os traços do cantor. Inicialmente, ele guia a música através de um canto quase fúnebre, ao mesmo tempo que uma bateria, uma linha de teclado, acordes orientais e um solene saxofone giram em torno dele. Em sua metade, a canção incorpora um tom mais suave, assim como a voz de Bowie assume um papel mais celestial. “Blackstar” é uma música de muitas facetas e emocionante em vários sentidos. É brilhante em sua própria modernidade e experimental ao mesmo tempo. Independente da ideia por trás dessa canção, é impressionante a forma como ela introduz as próximas seis faixas. Originalmente lançada em 10 de novembro de 2014, “‘Tis a Pity She Was a Whore” é hipnótica e outra música sensacional. O saxofone tem um destaque ainda maior aqui, assim como a perfeita batida de tambor e a linha de sintetizador.

O vocal de David Bowie soa dramático, singular e imprevisível, igualmente a décadas passadas. Essa versão está um pouco diferente da demo liberada há dois anos, pois perdeu o senso de urgência e foi adicionada inflexões de jazz à ela. O seu ritmo é contagiante e as letras são poderosas, ameaçadoras e cheias de ousadia. “Cara, ela me deu um soco como um cara / Prenda suas loucas mãos, eu chorei / É uma pena que ela era uma prostituta”, ele canta inicialmente. O seu falsete e as harmonias de apoio são brilhantes e elevam a música para um outro patamar. Na sequência, Bowie surpreende a todos com “Lazarus”, canção escrita para o musical de mesmo nome encenado em Nova York. Liricamente, essa faixa parece um prenúncio da morte do cantor, algo extremamente intrigante e triste. Acabou tornando-se uma das faixas mais autobiográficas de sua carreira, dado o seu conteúdo lírico. Um saxofone expressivo está em abundância nesta música, juntamente com uma assustadora linha de guitarra e contundentes tambores. A primeira metade da música é incrível e profunda, uma mistura extraordinariamente atraente de rock e jazz. Posteriormente, ainda temos uma mudança de tom, um vocal mais positivo e um poderoso final.

David Bowie

“Veja aqui, eu estou no céu / Eu tenho cicatrizes que não podem ser vistas”, ele canta na primeira linha. É algo tão artístico e autobiográfico, que torna essa música em algo maravilhoso por conta própria. “Sue (Or In a Season of Crime)”, outra faixa regravada, aparece aqui em uma nova versão. Ao incorporar um baixo agitado, ela ficou acelerada e ainda mais envolvente. É uma versão mais áspera, escura e pesada, que fornece um ritmo e percussão igualmente incrível e desequilibrada. A voz de Bowie transmite uma sensação de ameaça, enquanto faz um apelo para uma personagem-título aparentemente desconhecida (“Sue, eu consegui o emprego / Nós vamos comprar a casa / Você precisa descansar / Mas agora nós vamos fazer isso”). É uma música fascinante e outro bom exemplo da criatividade artística e misteriosa do astro. O disco “To Pimp a Butterfly” do rapper Kendrick Lamar foi mencionado por Tony Visconti como uma influência para o “Blackstar”. E isso é claramente notado na faixa “Girl Loves Me”, uma canção que pisa no território rap. A sua letra é um pouco incompreensível e de difícil interpretação, mas isso é algo comum nas músicas de David Bowie.

Uma linha em especial, “Onde diabos segunda-feira foi?”, é repetida várias vezes e adiciona uma textura obsessiva à música. É uma faixa de rock experimental, que contém arranjos de jazz e uma estrutura cinematográfica. Musicalmente, é uma canção notável, guiada por uma batida saltitante e uma linha de baixo muito bem definida. A balada “Dollar Days” é direta, emotiva, convincente e excepcionalmente relaxante. É um número muito lindo que abre com um melancólico piano e, em seguida, é apoiado pelo onipresente saxofone. Riffs de uma suave guitarra e cordas adicionais complementam a sua composição geral. “Eu estou morrendo também / Empurre suas costas contra o grão / E engane todos eles novamente e novamente / Eu estou tentando também”, ele canta no refrão, que mais parece uma continuação de “Lazarus”. Ela possui uma abordagem clássica dos acordes de Bowie, assim como mostra um pouco da sua criatividade para a música experimental. O final da música ainda surpreende por fechar com um rápido tamborilar de bateria. A faixa de encerramento, “I Can’t Give Everything Away”, é assumidamente a coisa mais próxima, sonoramente, de alguns dos maiores sucesso de David Bowie na década de 1980.

Continuando na mesma vibe da faixa anterior, essa canção expõe algumas emoções relativas ao cantor. É outra música brilhante, baseada em uma batida complexa, vocais que oscilam, alegres teclados, sintetizadores, riffs de guitarra, saxofone e uma inusitada gaita. Pode-se dizer que é a única música estilisticamente feliz do álbum. Além disso, ela oferece uma nostalgia oitentista maravilhosa e serve como uma apropriada faixa de encerramento. O título da canção, repetido diversos vezes, transmite um tom apaixonante, enquanto os vocais de Bowie soam joviais e sedutores. O astro teve uma carreira de quase 50 anos e, mesmo após tanto tempo, suas ideias continuaram imortais. “Blackstar” foi o seu último álbum e acabou servindo como uma espécie de adeus para David Bowie. É um material de um artista revigorado em sua própria criatividade, que apresenta uma fascinante sonoridade no decorrer de sete faixas. Todas canções, sem exceções, possuem uma enorme carga de profundidade, assim como os melhores trabalhos do cantor. “Blackstar” se destaca como um registro de alto nível de um artista verdadeiramente talentoso, influente, criativo e genioso. É um álbum que pode ser considerado quase uma obra-prima, independente de ser o presente de despedida de David Bowie para os amantes da música.

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São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.