Resenha: Danny Brown – Atrocity Exhibition

Lançamento: 30/09/2016
Gênero: Hip-Hop Alternativo, Hip-Hop Experimental
Gravadora: Warp
Produtores: Paul White, Petite Noir, Black Milk, Playa Haze, Alchemist e Evian Christ.

Após três anos de pausa, Danny Brown finalmente lançou um novo álbum de estúdio. “Atrocity Exhibition” foi divulgado em 30 de setembro de 2016, através da gravadora inglesa independente Warp. O rapper de Detroit fez um nome para si mesmo em 2011, quando divulgou o inovador “XXX”. Seu último lançamento, “Old” (2013), viu Brown mantendo a perspectiva do disco anterior, porém, explorando algumas canções mais introspectivas. No “Atrocity Exhibition” encontramos o rapper começando de onde ele parou no “XXX”, entregando linhas delirantes que reforçam sua persona de um rockstar drogado. Para um artista que só chamou atenção da mídia aos 30 anos de idade, Danny Brown merecia ainda mais reconhecimento. Ele é um artista que faz as coisas em seus próprios termos. “Atrocity Exhibition” possui produções reminiscentes dos anos 90, com finas melodias no teclado, sintetizadores misteriosos e amostras vocais fantasmagóricas. Há uma grande representação de estilos em exibição por aqui. Cada faixa flui sem problemas, mesmo com algumas mudanças drásticas no estilo. A estética geral do álbum é encantadora, com cada faceta do hip-hop sendo explorada de forma coesa. A maioria das faixas foram produzidas por seu parceiro Paul White, com quem ele trabalhou em muitas das canções do “XXX” e “Old”. Aqui, White toma as rédeas e consegue criar um mundo totalmente coerente para Danny Brown e suas histórias perturbadoras.

Seus dois discos anteriores foram escuros e experimentais, com batidas e letras que vão além do habitual hip-hop. A maioria do repertório desse LP é realmente inspirado no “XXX”, além de apresentar novas formas estilísticas de Danny Brown. Ele já é conhecido por sua entrega única e capacidade de fazer rap sobre qualquer batida. Não dá para negar que “Atrocity Exhibition” é tão desafiador quanto seus álbuns anteriores. “Downward Spiral”, “Ain’t It Funny” e “Dance in the Water” são três exemplos de canções que só poderiam ter sido criadas por Danny Brown. “Downward Spiral”, a faixa de abertura, nos mostra um pouco do seu lado debochado. “Eu estou suando como se estivesse em uma rave / Já estive nesta sala por três dias / Acho que estou ouvindo vozes”, ele diz nas primeiras linhas. Sonoramente, essa faixa é inspirada pelo rock mais do qualquer outra coisa do hip-hop. Isso só prova que Brown consegue manipular e colocar o rap sobre qualquer coisa. “Ain’t It Funny” e “Dance in the Water” se aproximam mais da música dance, com suas empolgantes amostras e acordes menores. As trompas e linha de baixo de “Ain’t It Funny” são particularmente assustadoras e infecciosas. “Me auto medicando é como eu lido”, ele explica em “Rolling Stone”, com Petite Noir. Essa música é uma das minhas preferidos do registro, principalmente pelo baixo viciante e vocais de apoio.

Mesmo com temas mais escuros salpicados ao longo do álbum, a produção lhe dá um pico de grandeza semelhante ao “Yeezus” de Kanye West. O hip-hop alternativo de “Really Doe”, produzido por Black Milk, foi lançado como terceiro single do álbum. Uma das mais faixas mais fantásticas e notáveis do repertório. Entre uma poderosa batida e toques de xilofone, temos ganchos de Kendrick Lamar, Ab-Soul e um verso em potencial do jovem Earl Sweatshirt. Os sintetizadores e tambores bombásticos de “Golddust” são outras ofertas incríveis do álbum. O produtor Paul White, definitivamente, trabalhou de forma mágica para proporcionar momentos como este. “White Lines”, por sua vez, compartilha uma pitada de Cypress Hill nos vocais, ao passo que Brown fornece uma melodia eletrônica exótica e batida dominadora. Enquanto “Pneumonia” contém vocais de fundo de Schoolboy Q, a bela “From the Ground”, com Kelela, traz amostras de “Sleeping Earth” de Lol Creme e Kevin Godley (ex-baterista da banda 10cc). Quanto suas influências, Danny disse à revista Rolling Stone que bandas como System of a Down, Talking Heads e Joy Division ajudaram a moldar o som do álbum. Apesar de não ouvirmos tantas guitarras no álbum, os diferentes tipos de produção e estilos dessas bandas foram realmente incorporados ao seu som.

Seus estridentes gritos de marca registrada combinam mais uma vez com os instrumentais, mesmo em meio à urgentes batidas como as do lead-single “When It Rain”Outra música excepcional que abrange uma vasta gama de estilos não identificados com o mainstream. Com este registro, Danny Brown mostra o quanto divertido pode ser um álbum escandaloso e grosseiro como este. Com este registro, ele aperfeiçoou seu estilo único e criou outro brilhante material. O resultado foi um dos melhores lançamentos de hip-hop do ano até o momento. Em um campo tão saturado como o hip-hop, Brown consegue destacar-se como um artista original e singular. Ele é, certamente, um dos rappers mais divisivos da memória recente e, provavelmente, um dos atuais melhores. Ele desafia as expectativas e vai a lugares que muitos não se atreveriam a ir. Diferente de muitos rappers da atualidade, Brown dá muita importância para a originalidade e composição de suas músicas. No “Atrocity Exhibition” ele aborda certos traumas, além de inúmeras menções ao abuso de drogas como meio de mascarar a dor. Ele fala diretamente sobre a violência que presenciou durante sua infância e muitos outros temas relevantes. Este álbum é a sua obra mais abrangente e apaixonante até à data. “XXX” pode ser considerado sua obra-prima, mas “Atrocity Exhibition” mostra mais do seu gosto eclético pela música e ampla gama de influências. É um registro que chegou para cimentá-lo ainda mais como um grande nome do hip-hop.

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Favorite Tracks: “Rolling Stone (feat. Petite Noir)”, “Really Doe (feat. Kendrick Lamar, Ab-Soul & Earl Sweatshirt)” e “When It Rain”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.