Resenha: D’Angelo and the Vanguard – Black Messiah

Lançamento: 15/12/2014
Gênero: Funky, Soul, R&B, Jazz, Rock
Gravadora: RCA Records
Produtores: D’Angelo, Alan Leeds e Kevin Liles.

Michael Eugene Archer, mais conhecido por seu nome artístico D’Angelo, é um cantor, produtor e multi-instrumentista de R&B e neo-soul. Em dezembro de 2014, ele lançou o seu terceiro álbum de estúdio, intitulado “Black Messiah”, pela gravadora RCA Records. É o seu primeiro álbum creditado como D’Angelo and the Vanguard e o responsável por colocar fim a um hiato de 14 anos sem material inédito. O disco estreou em #5 nas paradas da Billboard, ao vender mais de 117 mil cópias em sua primeira semana. O seu último álbum foi o aclamado “Voodoo” de 2000 que, posteriormente, foi precedido por uma série de problemas em sua vida pessoal e profissional. Após o suicídio de um amigo íntimo, em abril de 2001, ele começou a desenvolver problemas com a bebida. Por causa do alcoolismo, os planos para futuros novos trabalhos foram cancelados. Em 2005, a sua atual namorada na época, o deixou e a maior parte de sua família não manteve contato com ele. Depois de um acidente de carro e uma prisão por acusações de porte de maconha, D’Angelo deixou a gravadora Virgin Records e entrou em uma clínica de reabilitação em Antígua.

Felizmente, ele é um cara forte, extremamente talentoso e conseguiu dar a volta por cima. Sua voz, produção, a fé às suas raízes e seu som são inigualáveis. Depois de ter sobrevivido a tantas batalhas, ele nos trouxe o disco “Black Messiah”. Um material que vagueia entre a guerra, a opressão, a mudança, o amor, a lealdade e tantas outras preocupações. É um trabalho cheio de energia, um verdadeiro protesto contra o racismo e a violência. D’Angelo descreve o título do álbum como “Algo sobre o mundo. Uma ideia da qual todos nós podemos ser aspirantes. Todos nós devemos aspirar a ser um Messias Negro. É sobre as pessoas que se elevam em Ferguson, no Egito e em todos os locais onde a comunidade decide fazer a mudança acontecer”. “Black Messiah” é formado por doze faixas que atingiram um ponto de conexão ideal entre o soul, funky, R&B e jazz. Há uma consciência temática e sonora atrás desse registro que consegue soar extremamente fresca. Isto faz com que seja muito mais do que um simples álbum de retorno, de um artista declarado como um gênio a cerca de 15 anos atrás.

DAngelo

As influências, os instrumentos e os efeitos são reveladores, enquanto todos os arranjos soam perfeitos aos nossos ouvidos. Igualmente animador que a mistura de elementos, é a precisão de sua trama e a consciência social por trás. A faixa de abertura, “Ain’t That Easy”, por exemplo, consegue manifestar arrogância, medo e honestidade ao mesmo tempo. Em uma primeira instância, parece que ele está cantando apenas para uma mulher, mas, realmente, é para todos os seus fãs e admiradores, especialmente aqueles que esperaram tanto para ouvir um novo álbum. É uma canção que abre com um riff lento e, mais tarde, construída em torno de um ritmo entrelaçado e solos de guitarra. “1000 Deaths”, segunda faixa, aborda o medo de desaparecer para sempre: “Estão eles vão enviar-me sobre o monte”. É um número que abre com um sermão sobre o “messias negro revolucionário”, uma amostragem do documentário “O Assassinato de Fred Hampton”, e aborda os horrores da guerra. Aqui, o protesto e a frustração são eminentes, sustentadas por um solo de guitarra sinistro e alucinante.

A música seguinte, “The Charade”, é uma das mais encantadoras e a mais politicamente aberta. D’Angelo reflete sobre o legado do Movimento pelos Direitos Civis, onde o elegante instrumental, com sua agradável linha de guitarra, e os vocais, conseguem revelar o tom de protesto da letra. “Sugah Daddy” foi escrita com a ajuda de Q-Tip, e é um bom exemplo da capacidade de D’Angelo para inovar sem jamais se afastar sonoramente ou tematicamente de suas influências. A interação da letra com o riff de piano acústico e as harmonias em camadas, ficaram incríveis. “Really Love”, primeiro single do álbum, possui guitarras espanholas, uma orquestra de cordas e o mais sincero e amável falsete de D’Angelo até a presente data. A beleza desse número não está somente no bom equilíbrio entre o político e o pessoal, mas também nas harmonias e melodias bem confeccionadas. “Back To the Future” (Parte 1 e 2) procuram consolo em memórias do passado, porque o presente é desanimador. Um funky furtivo que encontra D’Angelo saudoso por como as coisas eram.

DAngelo

“Till It’s Done (Tutu)” faz uma corrida de perguntas, através de um belo falsete, sobre o estado sócio-econômico e ambiental do mundo. O disco encontra um pouco de paz em “Prayer”, faixa onde o astro aconselha todos a manter a fé. É a canção mais linda do repertório, conduzida por uma sequência de bateria e apoiada por sinos esparsos, que logo dão espaço para alguns dos mais afiados trabalhos de guitarra do álbum. Tanto a sua melodia como o próprio lirismo de balada soul-gospel, seriam dignos de uma canção do grande Sam Cooke. O relacionamento promissor de “Betray My Heart” vem logo depois, porém, o amor sai verdadeiramente na faixa “The Door”. Essa última é extremamente intimista, canção que traz assobios cativantes e uma doce melodia. “Another Life” fecha o registo com uma grande positividade e um piano surpreendentemente alegre. Curtis Mayfield, Stevie Wonder e Prince são alguns exemplos de músicos de R&B e soul que usaram a música muito além de suas fronteiras. Consequentemente, também podemos adicionar D’Angelo à essa lista.

“Black Messiah” é um projeto ambicioso e aventureiro, que resume a promessa de D’Angelo como um grande artista. De certa forma, também é algo diferente para ele, pois o som é mais pesado e mais corajoso em algumas partes, como também mais simples e doce em outras. A genialidade desse disco também está no aperfeiçoamento da complexidade sonora do antecessor em sua abordagem temática. Vocalmente, o “Black Messiah” é um pouco carente, mas, sonoramente, é totalmente realizado e convincente. Cada som, instrumento, letra e harmonia estão no lugar que deveriam estar, isso graças ao perfeccionismo de D’Angelo. Ele é um artista de grande originalidade, um gênio delicado, impulsivo e sempre desafiante com que diz respeito à sua música. Ele pode ter demorado mais de uma década para mostrar o rosto novamente, no entanto, apareceu na hora certa. “Black Messiah” é um álbum incrível e um complemento essencial para sua discografia. Sim, 14 anos é muito tempo para esperar um novo álbum do nosso cantor favorito, mas quando o produto final é tão bom, o tempo de espera é recompensado.

90

Favorite Tracks: “Ain’t That Easy”, “Really Love”, “Prayer”, “The Door” e “Another Life”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.