Resenha: Damon Albarn – Everyday Robots

Lançamento: 25/04/2014
Gênero: Trip Hop, Eletrônica, Rock Alternativo
Gravadora: Parlophone / XL Recordings
Produtores: Damon Albarn, Brian Eno e Richard Russell.

Damon Albarn é o vocalista da banda Blur, bem como co-fundador e vocalista da famosa banda virtual Gorillaz. Em abril de 2014, ele lançou o álbum “Everyday Robots”, seu primeiro trabalho solo. Descrito por Albarn como o seu “maior registro pessoal”, o álbum foi co-produzido por Richard Russell e conta com 12 faixas. Apresenta contribuições de convidados como o músico e produtor Brian Eno, a cantora Natasha Khan e The Leytonstone City Mission Choir. Depois de corridas de grande sucesso com o Blur, Gorillaz e uma série de outros projetos, aqui está o primeiro disco de Damon Albarn, um esforço íntimo e introspectivo feito por um grande artista de 46 anos de idade. Como ele demonstrou ao longo dos anos, seus gostos musicais se expandiram, e com Russell do seu lado, a produção ficou enganosamente sutil. Ele é um compositor hábil, por isso também há reflexões sobre a solidão e condição humana, sustentadas por fortes ambientes sonoros.

É o seu primeiro trabalho solo em 25 anos de carreira, onde ele conseguiu transformar suas ideais em verdadeiras crônicas de estranheza e melancolia. Damon Albarn já escreveu uma ópera, compôs para trilhas sonoras de filmes e é uma das estrelas mais famosas do britrock moderno. Mantendo suas batidas aleatórias, efeitos elaborados e acrescentando outros elementos, o álbum tem tudo que podíamos esperar de um artista inovador e criativo como Albarn. “Everyday Robots” é um trabalho denso, totalmente interiorizado, flutuante e com um marcante vocal. Um disco pessoal, envolto de toques eletrônicos e metáforas digitais. Não é uma grande surpresa que Albarn resolveu centrar o seu trabalho solo nos efeitos da internet e da tecnologia moderna. Letras chaves exploram, por exemplo, a nossa dependência por máquinas nos dias de hoje.

“Somos robôs diários em controle”, ele canta na faixa “Everyday Robots”. Uma crítica complexa sobre a dependência da sociedade pela tecnologia. Sonoramente, é uma boa faixa, com batidas de hip-hop e cordas esparsas, que exploram uma paranoia de forma íntima e melancólica. “Hostiles” é praticamente uma serenata ou uma canção discreta de amor. Os sintetizadores pulsantes, as cordas suaves de guitarra, a percussão deformada (que parece um cachorro latindo) e os vocais harmônicos, fornecem um cenário totalmente triste e hipnótico. Na letra, há um pouco de ambiguidade na exploração das relações interpessoais em um mundo saturado pela tecnologia. Na majestosa “Lonely Press Play”, por exemplo, ele utiliza os mesmos ideais líricos das duas primeiras faixas: “Quando estou sozinho, aperto o play”. É uma canção franca e confessional, com um som à base de piano jazzístico e uma melodia funky.

Damon Albarn

Até mesmo em faixas como “Mr Tembo”, inspirada por um filhote de elefante e com uma doce melodia calypso, Albarn deposita suas raízes autobiográficas. É a canção mais brincalhona e otimista do álbum, que ainda conta com a adição de dedilhados acústicos e um coral gospel. A quinta faixa, “Parakeet”, é apenas um curto instrumental que faz a ponte para “The Selfish Giant”. Essa última é uma balada de piano clássico, com batidas eletrônicas e melodias mais simples. Conta com a participação vocal de Natasha Khan e fala sobre um relacionamento sufocado pela TV (“É difícil ser um amante quando a TV está ligada / E nada está em seu olho”). Brian Eno acrescenta delicados sintetizadores na ambiciosa “You & Me”, uma faixa de sete minutos, onde Albarn confidencia-nos: “Alguns dias eu olho para a manhã tentando descobrir como eu cheguei aqui”.

As coisas ficam ainda mais pessoais na faixa “Hollow Ponds”, canção que ele optou por usar um tema profundamente emotivo. Uma canção auto-reflexiva em homenagem a um dos seus refúgios de infância. Musicalmente, há uma inteligência que se esconde muito além das revoltas da juventude de Albarn. “Metade da minha estrada era agora uma auto-estrada 1991”, ele murmura com uma grande melancolia. “Seven High”, com cerca de 1 minuto, é o segundo intervalo do álbum. Esse precede “Photographs (You Are Taking Now)”,  faixa que oferece uma nova proposta ao mencionar um tema mais polêmico de Albarn. Uma música lenta, sutil, que coloca o seu foco sobre a tecnologia e seus efeitos sociais negativos, adicionando um pouco mais de introspecção. “Everyday Robots” é um álbum muito consistente e, a faixa “The History of a Cheating Heart”, é mais uma linda canção que flutua sem direção e permanece totalmente estática.

A última faixa, “Heavy Seas of Love”, traz a contribuição de Brian Eno e The Leytonstone City Mission Choir. Um número grandioso, com um piano ilustre e um lamento doloroso, que é tanto melancólico como eufórico. Depois de 20 anos, parece estranho dizer, mas Damon Albarn pode ter colocado o seu passado britpop para dormir. Albarn provou ser um camaleão musical ao longo da última década, imprevisível de um projeto para o outro. E enquanto o Blur e os Gorillaz existem, de momento, este é exatamente o que deveríamos estar esperando de Damon Albarn. “Everyday Robots” é um material elegante e sedutor, vindo de um artista maduro, que continua a nos surpreender a cada lançamento. É sobre crescer e viver no século XXI, por todo o bem ou mal que isso possa significar. Damon Albarn é um astro que se envolve em vários projetos, sempre focado em capturar sua própria visão das coisas. Por isso, sempre foi um artista com uma grande e estridente identidade musical. Enfim, nada mau para um álbum de estreia solo.

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Favorite Tracks: “Everybody Robots”, “Hostiles”, “Lonely Press Play”, “Mr Tembo” e “Heavy Seas of Love”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.