Resenha: Courtney Barnett & Kurt Vile – Lotta Sea Lice

Lançamento: 13/10/2017
Gênero: Indie Rock
Gravadora: Matador Records
Produtores: Courtney Barnett e Kurt Vile.

Recentemente, a cantora e guitarrista australiana Courtney Barnett colaborou com o cantor americano e multi-instrumentista Kurt Vile para um álbum intitulado “Lotta Sea Lice”. Lançado em 13 de outubro de 2017, é um LP cheio de músicas descontínuas que misturam os estilos de Barnett e Vile, a fim de criar uma mistura complexa de indie, blues, rock e country. Com apenas nove faixas, o disco parece um pouco repetitivo às vezes, com a mesma vibração em quase todas as músicas, entretanto, possui algumas letras e musicalidade incrivelmente inteligentes. Esse dois improváveis colaboradores encontraram-se quando a banda de Barnett apoiou Vile em sua turnê australiana. Apesar de viverem em diferentes continentes, eles conseguiram juntar-se em Melbourne para gravar o “Lotta Sea Lice”. Sobre as nove músicas, as guitarras do duo surgem sem esforço através de suas vozes distintas e complementam-se perfeitamente. Embora o tom geral do registro seja relaxado, o par incorpora regularmente notas surpreendentemente estranhas, fortes melodias e boas linhas vocais. Para dois dos compositores mais idiossincráticos da atualidade, “Lotta Sea Lice” conseguiu um resultado surpreendentemente positivo. Barnett e Vile realizaram algo em que muitos outros músicos falham, pois perceberam os pontos fortes um do outro e deixaram-se brilhar em cada uma das sete músicas originais. A admiração mútua de ambos artistas por sua composição é parte da magia que você ouvirá em músicas como “Over Everything” e “Continental Breakfast”.

Uma colaboração que parece boa no papel e se saiu ainda melhor na prática, Courtney Barnett e Kurt Vile conseguiram trazer o melhor de cada uma para este disco. “Lotta Sea Lice” é encharcado por uma grande autenticidade e evitou ao máximo os clichês do rock and roll. As músicas são tocadas por ambos artistas, e foram gravadas em oito dias durante um período de quinze meses. Era importante que ambos músicos estivessem juntos no mesmo estúdio, então, quando o horário permitia, eles sempre gravavam em conjunto. Anteriormente, Courtney Barnett lançou apenas um álbum de estúdio extremamente bem-sucedido, chamado “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit” (2015). Kurt Vile, por outro lado, já possui uma carreira mais longa. Conhecido por ser um dos membros fundadores da The War on Drugs, ele passou a atuar como solista e já lançou seis álbuns de estúdio desde 2008. Musicalmente, “Lotta Sea Lice” varia entre a música folk e o indie-rock. Tudo aqui funciona bem, desde as fortes letras até as consistentes performances vocais. Ao ouvir esta conversa entre dois amigos, você provavelmente vai querer saber mais sobre eles. O primeiro single, “Over Everything”, é uma das melhores faixas que eu já ouvi este ano. Uma pequena fatia de indie-rock e um excelente exemplo da forte musicalidade de Vile e Barnett. Aqui, ambos artistas comunicam-se por solos em vez de simples palavras. Dito isto, a influência de Kurt Vile é muito mais aparente.

“Over Everything” é uma canção atipicamente otimista e uma verdadeira joia de lo-fi e rock-alternativo. “Quando estou sozinho sozinho por mim mesmo / E lá e outro único ao redor / Eu quero cavar no meu violão, dobrar um riff de blues que trava / Acima de tudo”, Vile canta. Esta música realmente define o álbum. Ela mostra o quão bem Vile e Barnett trabalham juntos. É uma canção com uma sensação alegre e animadora, e letras que exemplificam a criatividade de composição de ambos artistas. Aqui, você pode claramente ouvir as duas guitarras sendo jogadas uma contra a outra, uma vez que Vile e Barnett usam diferentes padrões e riffs, antes de compartilharem um maravilhoso solo dentro do instrumental. Em outras palavras, esta música adapta-se perfeitamente à dupla. A terceira faixa, “Fear Is Like a Forest”, aumenta a energia iniciada em “Over Everything”. Além de ser salpicada por encantadoras harmonias, possui uma guitarra reminiscente da banda Crazy Horse. As vozes da dupla trabalham surpreendentemente bem em conjunto e sincronizam-se com grande atitude e qualidade. Como bons amigos, cada artista resolveu fazer um cover de uma canção já conhecida do outro. Enquanto Kurt Vile interpreta “Outta the Woodwork” de Barnett, ela fez uma surpreendente performance de “Peepin’ Tom”. “Outta the Woodwork” possui uma vibração completamente diferente de “Over Everything”, por exemplo. Contém uma sensação mais lenta, ondulante e escura, com letras que falam sobre uma pessoa que só pensa em si mesma.

O cover de Kurt Vile definitivamente possui diferentes qualidades quando comparado com a versão original de Courtney Barnett. Existem guitarras mais pesadas e menos harmonias vocais. O refrão mostra Vile e Barnett cantando a mesma nota, que acaba lhe dando uma textura mais obscura e dramática. Outra canção muito interessante é “Continental Breakfast”, onde o duo relaciona uma amizade de longa distância com um café da manhã. Aliás, esta não é a única faixa do álbum baseada em alimentos, pois ainda temos uma canção lo-fi cheia de harmonias chamada “Blue Cheese”. “Continental Breakfast” arranca por cima de um violão acústico e mostra Kurt Vile explorando a melodia com grande perfeição. Barnett sustenta o segundo verso com a mesma clareza, acolhendo ligeiras mudanças de afinação e retrabalhando a harmonização. A última faixa no álbum, intitulada “Untogether”, é triste e bem direta: “Você não pode salvar o que não é desejável”. É uma música melancólica que explora o melhor da voz de ambos cantores. No refrão, Barnett canta em seu registro mais alto, algo que não ouvimos com tanta frequência. Desta vez, ambos músicos cantam as mesmas linhas em toda a canção, em vez de alternar entre os versos e pontes. “Untogether” é uma música realmente emocional e honesta que resume a sincronização e musicalidade poderosa de Courtney Barnett e Kurt Vile. Portanto, pode ser considerada a conclusão perfeita para o “Lotta Sea Lice”. No geral, o álbum realmente define o compromisso de Barnett e Vile com a sua arte. Geralmente, colaborações não funcionam, mas neste caso deu muito certo. “Lotta Sea Lice” é um disco brilhante. Atualmente, eles estão em turnê, portanto, podemos esperar que este seja o início de uma longa relação musical.

Favorite Tracks: “Over Everything”, “Continental Breakfast” e “Untogether”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.