Resenha: Clean Bandit – New Eyes

Lançamento: 30/05/2014
Gênero: House, Eletrônica, Dance, Synthpop, Clássica
Gravadora: Atlantic Records
Produtores: Jack Patterson e Grace Chatto.

Clean Bandit é um grupo eletrônico fundado em Cambridge, Inglaterra, composto por Jack Patterson, Luke Patterson, Grace Chatto e Milan Neil Amin-Smith. Em 2014, com o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio, “New Eyes”, o quarteto conseguiu um grande sucesso mundial: a canção “Rather Be”. O disco foge um pouco do som mais comercial, trabalhando com uma sonoridade house, cheio de batidas energéticas e elementos de música clássica. O registro trouxe diversas parcerias, tornando-se mais atrativo graças a essa diversidade vocal. Definir claramente o gênero do disco é um pouco difícil, pois além de elementos de música clássica, o repertório incorpora pop, dance-pop, house, synthpop, eletrônica, techno e funky. É definitivamente uma fusão de vários gêneros musicais. Algumas faixas presentes aqui conseguem seduzir com facilidade e, no geral, o “New Eyes” é muito divertido. Sem dúvida, o que mais gerou atenção para o grupo foi a instrumentação cheia de violinos e pianos. No decorrer de treze faixas, “New Eyes” oferece um som original, com uma nova visão sobre o próprio gênero, misturando instrumentos de corda com música eletrônica.

O quarteto do Clean Bandit possui formação clássica pela Universidade de Cambridge, mas como o gênero clássico não foi suficiente para eles, resolveram incorporar o house e a música eletrônica como base para o seu som. Mas apesar disso, a forte influência de música clássica ainda continua vidrada por toda parte na estrutura do disco. O simples pensamento de qualquer tentativa de combinar esses gêneros já seria um desafio à coesão do “New Eyes”, mas a força do álbum acabou por estar na variedade vibrante de todas suas músicas. Cada canção acabou soando diferente uma da outra, o que criou um par de alguns insumos estilísticos interessantes. Por outro lado, a probabilidade deles soarem um desastre, com essa atitude, também era alta. Por sorte, o grupo soube equilibrar tudo isso muito bem. Ou seja, as melhores canções do álbum são aquelas com um bom equilíbrio entre o apoio predominantemente eletrônico e as camadas clássicas. “Então você acha que música eletrônica é chata? / Você acha? É estúpida? / Você acha que é repetitivo?” – pergunta uma voz sarcástica na introdução de “Mozart’s House”, um número bem construído que abre o álbum.

O estilo de Love Ssega com a batida pulsante foi um ótimo exemplo do estilo diferente da banda de Cambridge. É um número muito excêntrico e uma introdução sólida para o estilo do grupo. Em seguida, temos “Extraordinary”, uma das faixas mais memoráveis do registro. Ela traz acordes de piano e vocais simples, além de uma transição eufórica para o incrível refrão. Essa canção utilizou violinos e elementos de música clássica de forma bem eficiente. No vocal, temos Sharna Bass, de apenas 16 anos, interpretando a canção ao lado do violoncelo de Grace Chatto. “Dust Clears” tem bons momentos, principalmente quando a voz do cantor e compositor sueco, Noonie Bao, aparece estranhamente cortada sobre a batida. A voz dele conseguiu dar uma sensação mais sombria à música, além de ser mais discreta que as duas primeiras faixas. O smash hit “Rather Be” é de longe a melhor faixa do repertório. Contém ótimos elementos de música clássica em cima de batidas dance, e a boa participação da cantora Jess Glynne. Logo no início, o inesquecível violino já prepara o caminho para um dos melhores refrões do ano.

“Rather Be” é simplesmente incrível, um verdadeiro hino de amor à longa distância apresentado sob doces vocais. É sem dúvidas um dos melhores singles lançados em 2014, por isso não é à toa o sucesso que conquistou no mundo inteiro. Em seguida, temos a faixa “A+E”, uma mid-tempo lançada como primeiro single que, apesar de possuir uma boa abertura à base de cordas, é uma música bem esquecível. Apresenta Kandaka Moore e Nikki Cislyn nos vocais e veste a mesma vibração clássica de todo o álbum. “Come Over”, com os vocais dancehall de Stylo G, é divertida e cresce em torno de uma batida reggae. Dito isso, vemos mais uma mudança de ritmo no álbum, graças as harmonias caribenhas que soam como uma canção de Sean Paul ou Shaggy. “Cologne” segue o fluxo do álbum mantendo o ritmo acelerado e fornecendo um bom refrão. É uma música bem elegante que apresenta os vocais de Nikki Cislyn e Javeon. Love Ssega retorna na faixa “Telephone Banking”, canção que possui uma letra banal e repetitiva. Ela até poderia ser hilária, porém, as letras realmente não convenceram: “Hey Graça, adivinhem, é legal / Você está ensinando no Japão e eu estou vivendo em uma escola”.

Essa lida com o tema reconhecidamente único de desgosto, não provocado por infidelidade ou amor não correspondido, mas sim pela fatídica decisão de fazer um curso. Sonoramente, é apresentada com um rap baseado numa conversa, amostras clássicas e uma vibe irritante. “Up Again”, por sua vez, é uma ótima música que destaca-se principalmente pelo belo vocal de Rae Morris. Caracterizada por um ritmo mais lento, esta canção está entre as minhas favoritas do álbum. “Heart on Fire”, com vocais de Elisabeth Troy, é outro ótimo número que, além de conter boas influências urbanas, transmite uma forte nostalgia por lembrar o final dos anos 90 e início dos anos 2000. Em contrapartida, as três últimas músicas são as mais descartáveis do álbum. Começando pela faixa-título, “New Eyes”, que mesmo se beneficiando de algumas rimas, é corajosamente irritante e muito datada. É conduzida por Lizzo, que tentou entregar um rap alegre misturado com auto-tune que absolutamente não funcionou. Em seguida, temos a faixa “Birch”, apresentada por Eliza Shaddad, que fornece vocais exuberante e tristes, combinados com uma nota sombria e cordas obscuras.

Apesar da longa duração, consegue passar totalmente despercebida pelo fato de não oferecer nada de atraente. Para encerrar, “Outro Movement III” aparece com o mesmo contraste eletrônico/clássico predominante em todo o álbum, mas, dessa vez, com um instrumental que lembra jogos de vídeo-game. Clean Bandit faz um som muito interessante e certamente fizeram do “New Eyes” um bom álbum, entretanto, não posso deixar de mencionar que mesmo assim a banda me decepcionou. Porque particularmente fiquei esperando outras músicas do mesmo nível de “Rather Be”. Acho que é por isso que é tão frustrante saber que o álbum, como um todo, é tão esquecível. A inclusão de elementos clássicos são agradáveis, mas o exagero e encharcamento nas produções tornaram as faixas um pouco cansativas. Por isso, é prematuro dizer se eles são uma grande revelação musical, especialmente pelo “New Eyes” ser descontroladamente inconsistente. De qualquer maneira, também estou ciente que o material apresentou um punhado de bons momentos, que sugerem que eles são capazes de fazer um álbum muito mais interessante do que este.

Favorite Tracks: “Extraordinary (feat. Sharna Bass)”, “Rather Be (feat. Jess Glynne)” e “Up Again (feat. Rae Morris)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.