Resenha: Charlie Puth – Nine Track Mind

Lançamento: 29/01/2016
Gênero: Pop, R&B
Gravadora: Atlantic Records
Produtores: Charlie Puth, DJ Frank E, Matt Prime, Red Triangle, Breyan Isaac, Johnatho “J.R.” Rotem, Infamous, Geoffro Cause, Johan “Carolina Liar” Carlsson e Jesse Shatkin.

Charlie Puth começou a ganhar popularidade após por postar covers no YouTube. Em 2015, ele assinou com a gravadora Atlantic Records e tornou-se um nome familiar, graças ao enorme sucesso de “See You Again”. A canção é uma parceria com o rapper Wiz Khalifa, incluída na trilha sonora de Velozes & Furiosos 7 como uma homenagem ao falecido Paul Walker. O sucesso foi tão grande que a faixa permaneceu 12 semanas em #1 lugar na Billboard Hot 100 dos Estados Unidos. Foi esta canção que impulsionou a carreira do cantor e o ajudou a lançar o seu primeiro álbum. Intitulado “Nine Track Mind”, o disco foi lançado em 29 de janeiro de 2016 e traz um repertório com 12 faixas. O lançamento de seu álbum de estreia mostra a extensão do seu talento estabelecido com base em uma popularidade recém conquistada. Produzido por Puth, com ajuda de alguns outros colaboradores, o álbum oferece um som pop e R&B com alguns acenos para o hip-hop, soul e música doo-wop. Ao ouvir seus singles, você pode perceber que Charlie Puth pode facilmente agradar o público. Ele tem uma boa base musical, é pianista, compositor, produtor e co-escreveu todas as faixas do disco.

Mas, por outro lado, “Nine Track Mind” não faz jus ao seu possível potencial. Canções de amor, com uma fórmula repetitiva, letras clichês e temas básicos, estão por toda parte. Não é um registro terrível, pois seus melhores momentos são concedidos através de músicas extremamente cativantes. Suas melodias são um dos seus maiores suportes, pois são cheias de uma substância emocional. Eu, particularmente, gosto dos seus singles, bem como da faixa “See You Again”, entretanto, não dá para negar que o disco deixa muito a desejar. Uma das faixas mais atraentes é, consequentemente, o segundo single “One Call Away”. Uma suave canção pop-soul, com influências gospel, que fala sobre as coisas que você faz para as pessoas que ama. As letras são otimistas e doces, e fornecem uma mensagem esperançosa bastante relacionável. “Estou a uma ligação de distância / Eu estarei lá para salvar o dia / O Super Homem não é páreo para mim / Estou a uma ligação de distância”, ele canta no verso de abertura. No geral, “One Call Away” consegue mostrar o crescimento e maturidade de Puth como cantor e compositor, bem como a sua capacidade de encontrar um som único.

Uma balada pop estereotipada, mas com letras transitáveis e uma instrumentação simples que agrada com facilidade. Um dos maiores talentos dele é a sua versatilidade, pois é igualmente confortável em muito estilos. Essa música, em particular, tem uma certa semelhança com os primeiros trabalhos de John Mayer, especialmente nos sentimentos docemente apresentados e a linguagem de seu lirismo. “One Call Away” é single e faixa de abertura do álbum por uma boa razão: possui uma melodia pop-soul instantaneamente cativante, um teclado grudento e uma mensagem romântica que nunca sai de moda. Ao fundo, você também pode ouvir uma inspiração jazz a partir das teclas dramáticas e a maneira como ele controla seus vocais em falsete. A segunda faixa, “Dangerously”, é uma balada de piano em ritmo mais acelerado que fala sobre um romance obsessivo. É uma canção que tenta caracterizar e unir todas as qualidades de Charlie Puth como artista. O cantor descreve, através das letras, como um perigoso romance chegou ao seu fim. “Eu amei você perigosamente / Mais do que o ar que eu respiro”, ele canta no refrão.

Charlie Puth

O piano é bastante grudento e conduz a música junto de alguns batidas de tambor. Charlie Puth consegue fornecer bons vocais, belos falsetes e doces harmonias, especialmente durante o refrão. Não deixa de ser uma música bem catchy, mas, por outro lado, não possui nada de extraordinário. “Marvin Gaye”, primeiro single do álbum em parceria com Meghan Trainor, é uma referência ao icônico cantor de soul de mesmo nome. Possui uma letra que se esforça para tentar captar um romance com alguém especial, que esteja no mesmo estado de espírito de muitas das canções de Gaye. No refrão, por exemplo, Puth canta: “Vamos dar uma de Marvin Gaye e deixar rolar / Você tem a cura que eu quero / Assim como eles dizem na música / Até o amanhecer, dê uma de Marvin Gaye e deixe rolar”. “Marvin Gaye” usa uma abordagem inocente para falar sobre sexo, mas prosperando em várias insinuações. “Temos esta cama para nós mesmos / Não temos que dividir com ninguém / Não guarde seus segredos / É kama sutra só ler e fazer”, Charlie canta no primeiro verso. Musicalmente, é uma faixa pop e soul, apoiada por um piano e um gancho principal simples e memorável.

Sua melodia é bastante cativante e o ritmo encantador. Na mesma qualidade, as vozes de Puth e Trainor se misturaram muito bem. A estrutura da música também é bacana, sendo fundamentada pela mesma construção utilizada em músicas pop dos anos 1950. É, sem dúvida, o maior destaque do registro ao lado de “One Call Away”. As baladas, em alguns momentos, conseguem exalar um sentimento soulful agradável. Um bom exemplo disso, é a faixa “Losing My Mind”, quarta do repertório. Ela possui belas harmonias, do início ao fim, vocais relaxantes, uma sensação retrô e uma percussão bem inusitada. Liricamente, a música descreve a luta para não enlouquecer, baseada no fato de Puth não conseguir ter uma nova ideia para escrever uma canção. Ele tentou transmitir essa ideia na faixa, cantando sobre estar se perdendo dentro de sua própria mente. “Tanta coisa para fazer e não há tempo suficiente / Não há tempo suficiente, oh eu tenho / Muito a perder, eu estou perdendo minha mente”, ele canta no refrão. A ideia por trás da letra é um pouco superficial, mas, sonoramente, “Losing My Mind” não deixa de ser atraente.

A quinta faixa, “We Don’t Talk Anymore”, é uma colaboração com a cantora Selena Gomez. É uma canção pop e dance que, provavelmente, se daria bem se lançada como single. Assim como a parceria com Meghan Trainor em “Marvin Gaye”, a escolha de Selena Gomez para esta faixa foi uma decisão inteligente. O seu delicado vocal foi um bom complemento para a natureza íntima e suave da voz de Charlie Puth. A guitarra acústica, a sensação oriental e as batidas dance, por sua vez, foram um acabamento adequado para a música. Liricamente, ouvimos ambos cantando a respeito do fim de um relacionamento. A letra é relacionável e encaixe-se bem na perspectiva de um casal: “Nós não nos falamos mais / Como costumávamos / Não nos amamos mais / Para quê foi tudo aquilo? / Oh, não nos falamos mais / Como costumávamos”. A próxima faixa, “My Gospel”, é saltitante, harmoniosa, possui um tambor incisivo, hand-claps, doces vocais e bons falsetes. Entretanto, sua suposta natureza divertida é executada através de uma produção aparentemente inacabada e uma estrutura desarticulada. Durante alguns versos, o cantor chega a quase fazer um rap, mas, sua voz soa extremamente anasalada e não agrada.

Nem a melodia exageradamente açucarada foi capaz de segurar a produção desengonçada. Enquanto isso, na letra Puth demonstra novamente um amor obsessivo por uma garota: “Eu não tenho medo de parecer maluco / Porque eu sou louco por você / Não há nada que eu não faria / Apenas para fazer você me amar, me amar, me amar / Jogo fora o meu orgulho por você / Apenas para fazer você me amar”. Apesar do bom jogo de palavras, eu não consegui entender qual a sua ligação com o título da música. “Up All Night”, sétima faixa, é outra canção baseada em uma mistura de retrocesso com toques contemporâneos. Inicialmente, seus primeiros acordes de piano nos remete rapidamente a “Let It Be” dos Beatles. Entretanto, essa sensação é bem passageira, dado que a música toma outro rumo. Seus versos são bem articulados e sedutores, em grande parte por causa do forte apoio do piano. Percebe-se que durante o refrão, o cantor também enfatiza fortemente o título da música, na tentativa de atingir notas mais altas. Ele consegue se sair bem, mas isto fica muito nítido e soa um pouco exagerado.

Charlie Puth (2)

O lirismo, assim como a maioria do repertório, é bastante comum e simplista. Mais uma vez, Puth canta sobre um amor obstinado e não correspondido. Produzida por DJ Frank E, a faixa “Left Right Left” traz uma produção mais elaborada, porém, com uma melodia que lembra “Fuck You” de Cee Lo Green. Logo na primeira audição, a faixa soa como uma versão retrabalhada de “Fuck You”, principalmente nos versos iniciais e durante o refrão. A música começa apenas com o piano e felizmente oferece alguns riffs de guitarra cativante e um refrão atraente. Além da semelhança com a música de Cee Lo Green, também apresenta uma vibe doo-wop. Liricamente, “Left Right Left” adiciona um pouco mais de variedade no repertório, ao falar sobre como a vida pode ser difícil em determinados momentos. “Eu disse que os tempos estão mudando / Me diga como eu posso continuar? / Toda vez que me viro, há uma parede / Mas eu estou subindo diariamente, até ver o topo / E me levanto após cada queda”, ele canta no segundo verso. “Then There’s You” é uma balada mid-tempo, com doces versos sobre a beleza de uma determinada garota que o cantor conheceu.

“Não há palavras para expressar / Quando você está usando esse vestido desta forma / Não há palavras para expressar / Me deixe olhar em seus olhos e dizer / Há beleza e então há você”, ele canta aqui. É uma das canções mais contemporâneas do repertório, uma verdadeira combinação adocicada de pop e R&B. Em seguida, as coisas ficam mais sérias durante “Suffer”, faixa que também está presente no EP “Some Type of Love”. Uma canção que compartilha um estilo vocal reminiscente de Justin Timberlake, Robin Thicke e The Weeknd. Aqui, o cantor usa a parte mais superior do seu alcance vocal, incluindo alguns salientes falsetes. É um número que mescla todos os estilos musicais constantemente trabalhados por Charlie Puth, e encontra um meio termo entre o soul old-school e R&B contemporâneo. Caracterizada por teclas de piano, estalar de dedos, harmonias vocais e uma guitarra, “Suffer” aborda, liricamente, o desolador fim de um relacionamento. “As You Are”, penúltima faixa, é uma colaboração com Shy Carter, artista conhecido principalmente por seus trabalhos como produtor e compositor. É um número simples sobre os altos e baixos de um relacionamento amoroso.

Shy Carter contribui com um rap divertido que, apesar de não ir muito longe da natureza vintage da música, acaba dando uma borda diferente para a mesma. “As You Are” possui uma melodia alegre, boas harmonias, versos simples e uma interpretação vocal sem grandes esforços. Charlie performa a música com facilidade e só atinge notas mais altas durante o refrão. “Some Type of Love”, faixa de encerramento da versão padrão do álbum, baseia-se nos vocais e consegue encantar. A forte harmonização do início define rapidamente o tom para toda a música. Charlie pisa ainda mais no território soul, com auxílio dos ótimos backing vocals e de um refrão sedutor. A seção rítmica da música chama atenção, assim como os elementos gospel nos remete a alguns trabalhos do cantor Sam Smith. Enquanto isso, a letra fala sobre o amor de uma forma bem inocente. Tudo somado, “Nine Track Mind” é um álbum com alguns números agradáveis e uma forte veia comercial. É um disco previsível, com poucos momentos memoráveis, uma produção simplista e um lirismo bem vago. Charlie Puth possui uma boa voz e é um artista muito talentoso. Por este motivo, eu esperava ouvir um álbum de estreia melhor escrito e mais variado.

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Favorite Tracks: “One Call Away”, “Dangerously”, “Marvin Gaye (feat. Meghan Trainor)”, “We Don’t Talk Anymore (feat. Selena Gomez)” e “Some Type of Love”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.