Resenha: Chance the Rapper – Coloring Book

Lançamento: 12/05/2016
Gênero: Hip-Hop, Rap, Gospel
Gravadora: Independent Artist
Produtores: Brasstracks, Kanye West, The Social Experiment, Lido, CBMIX, Stix, Rascal, Kaytranada e GARREN.

Chancelor Bennett, conhecido por Chance the Rapper é um artista de hip-hop de Chicago, Illinois. Em 2013, ele começou a ganhar reconhecimento após o lançamento de sua segunda mixtape, “Acid Rap”. Além de sua carreira solo, ele também é membro do grupo Save Money e vocalista da banda The Social Experiment. “Acid Rap” apresentou uma musicalidade e visão artística que, geralmente, artistas levam anos para aperfeiçoar. Essa mixtape foi bastante aclamada pela crítica, conseguiu muitos fãs e chamou atenção de muitos executivos de gravadoras. Chance the Rapper é bastante inflexível e contra a qualquer tipo de contrato com gravadoras, pois preza muito a sua liberdade artística. O simples fato dele conseguir um grande nível de relevância e popularidade sem qualquer apoio, é realmente digno de aplausos. Ele é muito bom no que faz, por isso conseguiu chegar tão longe. A definição de um artista independente é um impasse, mas, no entanto, Chance the Rapper controla tudo que ele cria, distribui e promove.

“Coloring Book”, sua terceira mixtape, foi lançada em 12 de maio de 2016. É um verdadeiro trunfo e quase uma obra-prima do hip-hop. A principal diferença entre “Acid Rap” e Coloring Book” são os convidados, algo já esperado tendo em vista sua constante ascensão. O line-up da mixtape é repleto de nomes conhecidos, como Kanye West, Future, Justin Bieber, Young Thug, Lil Wayne e 2 Chainz. Além de Chance the Rapper ostentar a sua independência artística, “Coloring Book” celebra seus triunfos pessoais. Aqui, encontramos referências amorosas à sua mãe e filha, guiadas por maravilhosos tons gospel. É um LP maduro, positivo, cheio de surpresas e uma ilustração sonora do seu poético lado espiritual. As canções são construídas em torno de sua fé em Deus e é uma das melhores coleções de hip-hop/gospel da memória recente. Elas expressam suas lutas, conquistas, desejos, paixões e arrependimentos.

Sua participação em “Ultralight Beam”, do mais recente álbum de Kanye West, parece ter sido uma grande influência para a mixtape. É uma das melhores canções do “The Life of Pablo”, em grande parte, devido ao excelente verso, fluxo incrível e destreza lírica de Chance the Rapper. “Ultralight Beam” parece ter sido um prelúdio para o poder iminente do “Coloring Book”. A faixa de abertura, “All We Got”, começa com um solo de Donnie Trumpet, membro da banda The Social Experiment. É uma grande e equilibrada canção, que apresenta Kanye West e Chicago Children’s Choir. Pesados trompetes, batidas sintetizadas e o uso de auto-tune foi uma escolha interessante para utilizar nesta pista. A sua segunda metade é mais soulful e faz uso de progressões de acordes gospel. No segundo single da mixtape, “No Problem”, Chance funciona surpreendentemente bem ao lado de rappers tradicionais como Lil Wayne e 2 Chainz. Ambos fornecem bons versos e trabalham dentro da paisagem sonora gospel imposta por Chance.

Chance the Rapper

A amostragem desta canção é sensacional, porém, com agudos vocais executados em segundo plano. Kanye West, provavelmente, foi a maior influência para esta faixa. Liricamente, é uma mensagem direcionada para todos rótulos que já tentaram comercializar a arte de Chance. A terceira faixa da mixtape, “Summer Friends”, mostra o quão sólido musicalmente Chance the Rapper é. Essa canção caracteriza Jeremih e apresenta as diferentes perspectivas musicais de ambos artistas. Aqui temos amostras vocais, uma vibração gelada, letras pessoais e violinos contribuindo para a composição geral. O lirismo vívido de Chance the Rapper e o ambiente construído por Jeremih soam bem coerentes e naturalistas. “D.R.A.M. Sings Special” é um lindo interlúdio que oferece uma doce mensagem e unifica algumas narrativas pessoais. Em “Blessings” Chance the Rapper está em seu momento mais expressivo. Ele mostra toda a sua fé em um número com um enorme espiritualismo.

Mais uma vez, ele redefine suas crenças em uma mixtape. Ao lado de instrumentos de metais e um refrão por Jamila Woods, Chance entrega algumas grandes linhas aqui. A próxima música, “Same Drugs”, é uma síntese da simplicidade, onde o rapper bate em cima de um singelo piano. É quase uma reminiscência de “Runaway” do Kanye West, porém, com uma textura muito mais simples. Esta balada usa drogas como metáfora, para ilustrar diferentes fases da vida de Chance. Ele relata relacionamentos do passado e a forma como as pessoas crescem separados uma da outra. Ele expressa isso de uma maneira sutil e com uma grande carga de nostalgia. “Não se esqueça dos pensamentos felizes / Tudo que você precisa é de pensamentos felizes”, ele diz aqui. É uma canção muito bonita, com elementos gospel empregados habilmente por toda parte. Como vocalista, Chance the Rapper costuma ser imprevisível e igualmente envolvente. Seu timbre e dinâmica costumam ser afiados, conforme ele altera sua entrega vocal num piscar de olhos.

Durante a faixa “Mixtape” sua fluidez é colocada frente a frente com Young Thug, outro talentoso artista de hip-hop. Embora os estilos naturais de Chance, Thug e Lil Yachty sejam diferentes, eles compartilham amores em comum. Apesar de não encaixar-se tão bem no âmbito dos temas do álbum, “Mixtape” é uma canção trap com uma batida incrivelmente viciante. “Angels”, primeiro single desse projeto lançado há alguns meses, possui uma grande instrumentação, um ótimo refrão, bons improvisos e um vídeo criativo. A produção hip-hop e neo-soul está no ponto e Chance the Rapper cativa de todas as formas possíveis. Saba pouco contribui com a canção, mas esse pouco eleva as coisas. Esta faixa sente-se como uma perfeita mistura de todos os sons que Chance apresentou nos últimos anos. Além da semelhança com algumas faixas do “Acid Rap”, também contém uma boa dinâmica, elementos trap e backing vocals gospel. Na descontraída “Juke Jam” temos a presença de Justin Bieber e Towkio. É uma faixa mais lenta, com alguns acordes de guitarra a conduzindo.

Chance the Rapper

Suas letras giram em torno de uma paixão do passado, que Chance conheceu em Chicago. Apesar de melodramático, Justin Bieber consegue fornecer alguns bons vocais. As letras de “All Night” não possuem nada de interessante, é uma faixa feita especialmente para dançar. É uma música divertida que concentra-se menos no conteúdo e mais na forma como é construída. A entrega vocal mais despreocupada de Chance the Rapper foi um complemento interessante. É uma canção otimista e cativante que funcionou surpreendentemente bem. “How Great”, por sua vez, abre com um coro maravilhoso e é cheia de referências e simbolismos religiosos. É uma canção que serve como exemplo perfeito de como misturar gospel com hip-hop. Quando você acha que o canto está ficando repetitivo, Chance e Jay Electronica surgem com fluxos incríveis. A primeira metade eleva a grandeza de Deus e, em seguida, fortes tambores acompanham os diferentes pontos de vista de Chance e Jay. As nuances e interpretações dos dois rappers são realmente poderosas.

Future soa bastante energético na faixa “Smoke Break”, mesmo quando avalia as ambiguidades dos seus problemas de relacionamentos. A batida desta faixa é um verdadeiro deleite, assim como os órgãos, o bassline, as cordas e os tambores trap. A letra vacila de forma semelhante a “Mixtape”, pois é muito escassa, porém, a melodia flui de forma fenomenal. “Smoke Break” é um bom exemplo da rara capacidade de Chance the Rapper em homenagear os estilos dos seus convidados, sem perder sua autenticidade. A penúltima faixa é intitulada “Finish Line / Drown” e apresenta uma série de artistas, que inclui T-Pain, Kirk Franklin, Eryn Allen Kane e Noname. É uma música encantadora com um som abrangente, vocais de apoio gospel, versos felizes e batidas abertamente religiosas. A sua segunda metade ainda fornece um lindo refrão e uma inesperada e surpreendente instrumentação jazzy. Na última canção do registro, “Blessings (Reprise)“, Chance the Rapper expressa mais de sua fé, ao lado de outra série de artistas convidados, entre eles Ty Dolla $ing.

Essa música possui alguns grandes versos, além de um grande coro gospel. Chance the Rapper é um dos melhores artistas independentes da atualidade. A única razão pelo qual ele chegou tão longe, sem o apoio de gravadoras, é porque ele tem excelentes dons musicais. Com “Coloring Book”, ele amadureceu sem mostrar sinais de abandonar sua energia contagiante. Essa mixtape é, sem dúvida, um dos melhores projetos do ano. O fato de ser apenas uma mixtape lhe dá ainda mais credibilidade. Através de sua liberdade artística, ele expressou sua admiração por amigos, explorou sua fé cristã, seu amor por Chicago e suas crenças pessoais. Seu rap é ainda mais complexo quando ele faz referências bíblicas. A fé é realmente o maior motor presente neste registro, à medida que ele sabe como equilibra-la com temas de apelo universal. Resumidamente, “Coloring Book” é sua arte em forma de mixtape.

90

Favorite Tracks: “No Problem (feat. Lil Wayne & 2 Chainz)”, “Same Drugs”, “Same Drugs”, “How Great (feat. Jay Electronica & My Cousin Nicole)” e “Finish Line / Drown (feat. T-Pain, Kirk Franklin, Eryn Allen Kane & Noname)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.