Resenha: Carly Rae Jepsen – E•MO•TION

Lançamento: 24/07/2015
Gênero: Pop, Dance-Pop, Synthpop
Gravadora: School Boy Records / Interscope Records
Produtores: Scott “Scooter” Braun, Justin Bieber, Mattman & Robin, Shellback, Christopher J Baran, Ben Romans, Peter Svensson, Jeff Halatrax, Ariel Rechtshaid, Dev Hynes, Stint, Zachary Gray, Rostam Batmanglij, Daniel Nigro, Greg Kurstin, The High Street, Carl Falk, Rami Yacoub, Greg Wells, LULOU, Wouter Janssen e Kyle Shearer.

“E•MO•TION” é o título do terceiro álbum de estúdio da cantora canadense Carly Rae Jepsen. Lançado três anos depois do seu hit “Call Me Maybe”, o disco trouxe um repertório com 12 faixas e foi muito bem recebido pelos críticos em geral. Muitos, inclusive, o citaram como um dos melhores álbuns de 2015. E, realmente, o “E•MO•TION” é um registro muito bom e com uma qualidade indiscutível. Ele praticamente evoca os anos 80 com suas ondas de sintetizadores e produção brilhante. Suas letras são diretas e simples, com temas universais suficientes para que qualquer ouvinte seja capaz de se identificar. Aqui, vemos a cantora se afastando um pouco do pop-chiclete e desafiando-se através de um pop mais maduro e um trabalho mais sofisticado. Por trás da produção das faixas temos nomes interessantes como Dev Hynes e Rostam Batmanglij, da banda Vampire Weekend. Sonoramente, “E•MO•TION” ainda traz melodias arrebatadoras e, embora não seja inovador, é um conjunto de grandes canções que impressionam com seus toques oitentistas. O disco abre com “Run Away with Me”, uma das melhores canções de 2015, que poderia muito bem ter se tornado um hino do verão no hemisfério norte. É uma brilhante canção dance-pop, que abre imediatamente com um explosivo saxofone. Sua produção eufórica ficou a cargo do sueco Karl John Shcuster, mais conhecido por Shellback (Britney Spears, Taylor Swift, P!nk), e Mattman & Robin (Tove Lo), que foram buscar inspiração na década de 80 para a sua criação. Ela realmente tem uma tendência oitentista, além de uma vibe retrô e uma nostalgia maravilhosa que lembra “Teenage Dream” de Katy Perry.

Em contraste com as letras pop-chiclete de “Call Me Maybe”, “Run Away with Me” tem um lirismo que faz uma transição para um som mais “adulto”. “Querido, me leve até aquela sensação / Vou ser sua pecadora em segredo / Quando as luzes se apagarem / Fuja comigo”, ela canta no contagiante e adorável refrão. Em outros momentos, como na atmosférica ponte, ela ainda sussurra sedutoramente: “No fim de semana, podemos transformar o mundo em ouro”. E, assim como “Teenage Dream”, “Run Away with Me” tem todas as peças de uma canção pop perfeita e de grande hit mundial, no entanto, infelizmente, a música não conseguiu o reconhecimento popular que merecia. Jepsen conhece seus limites vocais e dado seu devido alcance, entrega uma melodia inegavelmente cativante e inteligente de diversas maneiras. Desde a produção memorável, o enlouquecedor riff de sax, o refrão extremamente cativante, as batidas dance-pop, o ritmo otimista, o carisma de Jepsen, enfim, tudo aqui está entrelaçado através de uma oferta sólida e de qualidade. Para a faixa-título, “Emotion”, Jepsen e sua equipe resolveram apostar no apoio de um riff de guitarra elétrica contagiante, um instrumento que faz o trabalho pesado em toda canção. Embora funciona no contexto do álbum, a faixa-título traz uma produção eletropop que lembra muito algumas faixas do disco “Kiss”. Tanto a estrutura semelhante, quanto a progressão, é açucarada e cativante. Não tem uma letra perfeita, mas o refrão é grudento e, no geral, a canção é impecavelmente bem trabalhada. A terceira faixa do repertório é “I Really Like You”, o primeiro single do álbum.

Foi escrita por Jepsen, J Kash e Peter Svensson, com produção sendo feito por Svensson e Halatrax. É uma música dancepop e synthpop, que incorpora elementos da música new wave dos anos 1980. Uma canção de amor inofensivo e meio sem sentido, com uma letra extremamente repetitiva, onde a cantora fala a palavra “really” cerca de 60 vezes ao longo de três minutos e meio. A atmosfera eufórica da música ajuda a vender essa sensação de estar apaixonada e admitir abertamente seus sentimentos. Ela serve como um retrocesso para os velhos tempos do pop bubblegum. “I really, really, really, really, really, really like you”, ela canta no doce refrão. Embora pareça ser uma música que tenta recriar o sucesso de “Call Me Maybe”, o seu refrão não possui um gancho melódico e nem as cordas sincopadas e viciantes da mesma, por isso prende essa lacuna com a repetição de palavras. Sua letra é mais voltada para os pré-adolescentes apaixonados, no entanto, a produção consegue passar um ar de qualidade. Após três boas faixas, é difícil não achar que “Gimme Love” foi uma pequena queda de qualidade na sequência do álbum. Embora tenha um bom hook, é uma canção muito simples, com um ritmo e som quase robóticos. É uma balada sensual e açucarada, onde Carly Rae Jepsen implora por amor, quase gemendo, ao longo de um riff de guitarra solitário. “Me dê amor, me dê amor, me dê amor, me dê amor / Me dê, por favor / Porque eu quero o que eu quero, garoto você, é o que preciso”, ela implora constantemente. Sonoramente, é uma mudança bem-vinda e há um pouco de influência mínima de deep house. Entretanto, não chega a impressionar como as melhores faixas do álbum.

Talvez a faixa mais surpreendente do album seja “All That”, uma verdadeira e sincera homenagem aos anos 80. É uma pista tão deliciosamente pegajosa que é difícil acreditar que não é uma balada de Cindy Lauper ou do Prince, por exemplo. É uma canção lenta, com letras simples e sem qualquer complexidade estrutural. No entanto, funciona perfeitamente bem, enquanto tem êxito e exala algo bastante genuíno. É encantadora e inesperada, mesmo sendo uma balada tradicional dentro de um disco pop predominantemente inspirado pelos anos 1980. O refrão, “Mostre se você me quer / Se eu sou tudo isso para você / Eu serei / Eu serei sua amiga”, soa estranhamente sedutor e eficaz. Enquanto o tom baixo e o conteúdo lírico criam um clima um pouco sombrio e desolador, a progressão lenta e o maravilhoso sintetizador, imediatamente, constroem algo realmente espetacular. Co-escrita por Sia Furler, produzida por Greg Kurstin e um tanto quanto inspirada por La Roux, “Boy Problems” é a sexta faixa do álbum. Embora não seja ruim, para um registro como este, não é uma canção boa o suficiente. É uma música que soa tímida e um pouco infantil, com linhas como: “Acho que terminei com meu namorado hoje / E eu realmente não me importo / Eu tenho problemas piores”. Sua melodia é cativante, enquanto a vibração despreocupada e funky podem chamar atenção. Mas, no geral, seus sintetizadores beiram o irritante, a execução é básica e o conteúdo lírico não é dos melhores. Também co-escrita por Sia, a cintilante “Making the Most of the Night” é uma história maravilhosamente sombria. Carly Rae Jepsen sabe quais são seus pontos fortes, por isso, ofereceu outro grande número pop.

Essa é a faixa mais impulsionada eletronicamente dentro do álbum, ao passo que ainda possui um tom surpreendentemente escuro. Aqui, os versos são entregues com uma determinação feroz, enquanto o refrão é bastante chamativo. Não é tão poderosa ou cativante quando “Run Away with Me”, mas tem seu charme próprio e é muito bem produzida. “Making the Most of the Night” tem toda a energia frenética de uma faixa synthpop do auge dos anos 1980. É pesada e dominada pela percussão, enquanto o desempenho energético dá uma nova camada de emoção para o álbum. O terceiro single do disco, “Your Type”, por sua vez, é uma canção mid-tempo de synthpop e eletropop, também influenciada pela música dos anos 1980. Uma balada onde encontramos Jepsen expressando seu interesse em buscar um relacionamento romântico com alguém, apesar de crer que não faz o tipo da determinada pessoa. Logo, liricamente, a faixa explora o conceito de um amor obsessivo não correspondido. “Desculpe, desculpe, eu te amo / (…) Sinto sua falta, estou sendo sincera, tentei não sentir / Mas não consigo te tirar da minha cabeça”, ela declara em um dos versos. As letras são muito relacionáveis para qualquer pessoa, pois é sobre alguém que ama uma pessoa que a vê apenas como amigo(a). O resultado é uma faixa eletropop apaixonante com um refrão feliz, embora liricamente melancólico. Muito parecida com o restante das faixas do “E•MO•TION”, é uma música nostálgica e bastante influenciada pela sonoridade oitentista. Sua melodia também é grande, assim como toda a produção. Apesar de Carly Rae Jepsen não ter um dos vocais mais fortes da indústria, aqui, sua voz, está incrivelmente envolvente.

O pré-refrão, o refrão, a angustiada frase “eu arranjarei tempo pra você”, as batidas estridentes e os sintetizadores de estratificação, soam incríveis. O pop-bubblegum é predominantemente destaque, mais uma vez, na faixa “Let’s Get Lost”. O começo desta soa um pouco assombroso, mas, depois de um tempo, ela fica alegre e transforma-se em algo completamente diferente. É o tipo de música que fica se repetindo facilmente em sua cabeça por horas. O saxofone jogado durante a ponte também é encantador, e mostra uma pequena e salpicada influência jazz. Em seguida, há uma atrevida mudança de ritmo no álbum quando a faixa “LA Hallucinations” surge. É uma faixa dance-punk ousada sobre a perda de um amor por conta da fama (“Nós dissemos que sempre seríamos os mesmos / Mas nós nos perdemos no jogo, porque de repente”). Com uma leve batida inclinada para o hip-hop, Jepsen tenta mostrar como a fama tende a mudar as pessoas. Embora não seja uma das melhores faixas do álbum, vale a pena ouvir pelos pontos de originalidade, mudança de som e produção efervescente. “Warm Blood”, penúltima faixa, é verdadeiramente profunda, alucinante e obscura, quase ao ponto de ser psicodélica. Definitivamente um destaque. É algo muito interessante para o álbum, uma canção eletrônica com uma produção tingida de disco. Aqui, pulsantes linhas de baixo se fundem com tons brilhantes de sintetizador, para criar algo influenciado pela música eletrônica underground. Os graves profundos e a performance vocal distorcida de Carly Rae Jepsen mostra o quanto ela pode ser uma cantora versátil.

Liricamente, é uma confissão honesta sobre um relacionamento, onde ela desencadeia uma montanha-russa de emoções (“E eu não posso controlar mais isso / O jeito que você está me fazendo sentir / E você tem me feito / Girar em círculos em volta do seu sangue quente”). Fechando a edição padrão do álbum temos “When I Needed You”, outra pista gratificante que contém todo o sentimento do “E•MO•TION”: pop honesto com letras agridoces e uma vibe oitentista. Como qualquer outra canção deste disco, é habilmente construída e possui bons versos. Emparelhada com uma boa percussão e uma pitada de sintetizadores, a faixa exibe um tema de independência, onde ouvimos uma Carly Rae Jepsen bastante confiante. No geral, “E•MO•TION” é um álbum incrível. Ele mostra que a música pop pode ser impecavelmente trabalhada sem sentir-se fabricada. Um álbum insanamente polido, catchy, pop e de grande qualidade. É, facilmente, uma das ofertas mais interessantes, complexas e agradáveis de 2015. Depois de chegar ao auge em 2012, Carly Rae Jepsen pareceu determinada em trazer um pacote completo em seu terceiro álbum de estúdio. O trabalho duro e sua reinvenção são perceptíveis aos ouvidos do ouvinte. Quando ouvimos suas músicas, imediatamente, somos transportados para a década de 1980, graças aos seus sintetizadores pulsantes, tambores contundentes e sensuais performances vocais. Nada aqui é ultrapassado, desatualizado ou soa forçado. Jepsen e sua talentosa equipe de produtores, conseguiram fazer um registro coeso e, igualmente, encantador. Eu gostaria de dizer que este disco, realmente, superou minhas expectativas. Enquanto isso não é o melhor álbum de 2015, é bom reiterar que, com certeza, é um dos melhores.

77

Favorite Tracks: “Run Away with Me”, “All That” e “Warm Blood”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.