Resenha: Bon Iver – 22, A Million

Lançamento: 30/09/2016
Gênero: Folktrônica, Eletrônica, Indie Folk, Pop Barroco
Gravadora: Jagjaguwar
Produtor: Justin Vernon.

Bon Iver é uma criação do cantor, compositor e multi-instrumentista americano Justin Vernon. Sua banda é atualmente formada por Vernon, Sean Carey, Matthew McCaughan, Michael Lewis e Andrew Fitzpatrick. Há nove anos Justin Vernon isolou-se por quatro meses numa cabana em Dunn County, no Estado americano de Wisconsin, e retornou com o incrível disco “For Emma, Forever Ago” (2008), uma coleção de belas baladas acústicas. Com “22, a Million”, ele retoma as rédeas depois de cinco anos de ausência, o seu último disco havia sido “Bon Iver, Bon Iver” de 2011. Esse álbum auto-intitulado foi muito aclamado pela crítica, uma vez que esticou os limites da música folk e trouxe um tenor expansivo para um gênero tipicamente despojado. É um verdadeiro clássico moderno. Desde então, a banda entrou em um hiato e lutou contra rumores de uma possível separação.

Felizmente, Bon Iver está de volta com um novo projeto de 10 canções, que soa surpreendentemente inovador e fresco. Todo o registro está cheio de efeitos excêntricos e títulos quase impronunciáveis. Mas a partir do momento que você começa a escutá-lo e deixa os sons incomuns te dominarem, você será capaz de reconhecer os talentos musicais de Bon Iver. Todo o álbum leva o ouvinte para uma verdadeira viagem sonora, com melodias relaxantes seguidas por batidas eletrônicas energéticas. Instrumentalmente, “22, A Million” é divergente de seus antecessores, embora nunca desvia-se da forma tonal estabelecida pela banda. Como esperado, as baladas de Bon Iver ganham um tom mais sombrio. “Pode estar quase no fim”, Vernon canta na faixa de abertura “22 (OVER S∞∞N)”. Aqui, quase não escutamos a sua bela voz natural. Ele a distorce com efeitos eletrônicos e canta em falsete, enfatizando ainda mais às mágoas da letra.

Esse profundo tom de lamento é um tanto quanto pesado, porém, igualmente belo. É uma introdução única e emocionante, com loops vocais e uma guitarra elétrica acentuada por metais flutuantes. A faixa seguinte, “10 d E A T h b R E a s T ⚄ ⚄”, é um dos momentos mais emocionantes e percussivos. As letras emergem através do caos, fragmentadas pela poderosa modulação instrumental, enquanto trompas mantém a paisagem sonora. A próxima faixa, “715 – CRΣΣKS”, é um número acapela completamente despojado. Aqui, os vocais de Vernon são multiplicados a fim de criar harmonias robóticas. Liricamente, ela retrata uma paranoia, enquanto o auto-tune é utilizado para eliminar os outros instrumentos e retratar uma sensação de isolamento. “33 “GOD””, “29 #Strafford APTS”, “666 ʇ” e “____45_____”, por outro lado, ilustram a auto-descoberta de Vernon e pagam tributos às suas raízes folclóricas.

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“33 “GOD”” é a canção mais animada do repertório, guiada por uma onda melódica, teclados e percussão. Os rápidos e complexos tambores chegam a causar uma erupção sonora. O teclado relativamente simples sente-se um pouco estranho, mas não prejudica o seu fluxo. “29 #Strafford APTS” retrocede as coisas com a sua guitarra acústica familiar, algo muito reminiscente de “Bon Iver, Bon Iver”. “666 ʇ”, por sua vez, é uma das canções mais convencionais do LP. Ela apresenta apenas um timbre de sintetizador distante, embaixo de uma guitarra delicadamente arrancada do disco “For Emma, Forever Ago”. Em seguida, “21 M♢♢N WATER” surge através de uma intemporalidade atmosférica. Todos os seus componentes são dispersos à medida que a mesma aumenta de intensidade. Os vocais, ritmo meditativo, cordas e saxofone, ficam foram de controle conforme o caos das letras tomam conta.

O álbum flui através de uma variedade de estilos, tons e instrumentação. Enquanto isso, Justin Vernon conecta-se através de seus vocais e letras assombrosas. O uso dominante de um saxofone na música “8 (circle)” e os acordes de piano que carregam “00000 Million”, exemplificam a grande musicalidade dessa banda. “8 (circle)”, em especial, sente-se como o verdadeiro clímax do disco. É uma verdadeira joia e, provavelmente, a peça central do repertório. Os vibrantes vocais, que surgem como um zumbido pensativo, as linhas de sintetizador e a percussão, são muito interessantes. Os saxofones que estão à frente, juntamente com os vocais de Vernon, trabalham lado a lado para criar um clímax verdadeiramente épico. Em apenas 34 minutos, “22, A Million” conta histórias magistrais e inspiradoras, bem como apresenta uma sonoridade excepcionalmente estranha. A produção, muitas vezes desarticulada, oferece momentos deslumbrantes.

Bela textura de instrumentos de metais, piano frequentes e sintetizadores nebulosos permeiam por todo o registro. Os poucos momentos na guitarra acústica e banjo nos lembram do seu som familiar. A mudança de estilo nos últimos oito anos é quase irreconhecível, pois Vernon e companhia expandiram sua paleta sonora e criaram outro vasto e bonito álbum. Os momentos em que Bon Iver compromete-se com a sua nova estética eletrônica, as amostras e modulações definem o tom das músicas. Na produção, Vernon mostrou o quanto é ousado e expressivo, ao fazer belas experimentações eletrônicas. “22, A Million” é uma obra-prima criada por um verdadeiro visionário artístico. Um registro verdadeiramente magistral que mostra um real crescimento do grupo. Escutar esse álbum é uma experiência reconfortante e imersiva, graças a sua rica experimentação sonora.

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Favorite Tracks: “33 “GOD””, “29 #Strafford APTS” e “8 (circle)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.