Resenha: Bob Dylan – Shadows in the Night

Lançamento: 03/02/2015
Gênero: Pop Tradicional, Folk
Gravadora: Columbia Records
Produtores: Jack Frost.

Bob Dylan é sem dúvida um dos cantores e compositores mais influentes da música e da cultura popular. Suas primeiras canções como, por exemplo, “Blowin’ in the Wind” e “The Times They Are a-Changin” acabaram tornando-se hinos para os direitos civis americanos e movimentos anti-guerra. Deixando sua base inicial no revival da música folk americana, a canção de seis minutos, “Like a Rolling Stone”, também alterou consideravelmente a música popular em 1965. Suas gravações em meados dos anos 1960, apoiadas por músicos de rock, alcançou o topo das paradas musicais dos Estados Unidos. Suas letras incorporam diversas influências políticas, sociais, filosóficas e literárias. Inicialmente inspirado pelas performances de Little Richard e as composições de Woody Guthrie, Robert Johnson e Hank Williams, Bob Dylan ampliou e personalizou gêneros musicais. Entre eles, Dylan explorou principalmente o folk, blues, country, gospel, rock and roll, rockabilly e o jazz. Suas realizações como artista e performer têm sido centrais para a sua carreira, mas sua maior contribuição ainda é considerada a sua composição. Para efeito de curiosidade, desde 1994 ele já publicou seis livros de desenhos e pinturas, com exibição nas principais galerias de arte.

Como músico, Dylan já vendeu mais 100 de milhões de discos, fazendo dele um dos artistas mais vendidos de todos os tempos. Durante sua carreira também recebeu inúmeros prêmios, incluindo 10 Grammy Awards e 1 Globo de Ouro. O júri do Prêmio Pulitzer em 2008 também concedeu-lhe uma citação especial por “seu profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcada por composições líricas de poder poético extraordinário”. “Shadow in the Night” é o seu trigésimo sexto álbum de estúdio, lançado pela Columbia Records em 3 de fevereiro de 2015. O álbum consiste em 10 covers de padrões pop tradicional que ficaram famosos por Frank Sinatra, escolhidos pelo próprio Bob Dylan. Essas 10 baladas foram gravadas por Sinatra no final dos anos 1950 e início dos anos 1960. As músicas foram selecionadas a partir de um período da carreira que ele estava gravando álbuns temáticos que exploravam as emoções e mágoas da separação. Apesar de ter sido gravado no estúdio da Capitol Records, em Los Angeles, onde Sinatra registrou alguns dos melhores momentos de sua carreira, Dylan trouxe as composições para o seu universo sonoro e fez tudo à sua maneira.

Ele trocou a orquestra para colocar os arranjos propostos por sua banda, na qual a guitarra chorosa de Donny Herron paira acima dos outros instrumentos. A sua voz pode não ter a mesma elegância de Sinatra, mas aqui está muito mais afinada do que em seus trabalhos anteriores. O disco começa com a reinterpretação de “I’m a Fool to Want You”, canção escrita por Frank Sinatra, Joel Herron e Jack Wolf em 1951. Uma música que vem de alguém desolado, que cruzou linhas cruciais da dor e está em um lugar escuro. A versão de Dylan fica em total sintonia com a rejeição sofrida na letra, enquanto sua eletricidade emocional decorre da sua entrega vocal e da poesia sonora dos arranjos que o cercam. Em seguida, “The Night We Called It a Day” abre com algumas linhas que se assemelham a introdução de Sinatra, flutuando sobre riffs suaves e trombones. A voz de Dylan, que atualmente está com 73 anos, carrega as cicatrizes da idade, mas ele usa isto totalmente a seu favor, como podemos ouvir nesta faixa. Um jazz com um olhar extremamente nostálgico e melodias melodramáticas, onde Dylan relembra o passado, memórias e consequências do amor.

Bob Dylan

Sem dúvidas, olhar para trás docemente sobre um dolorido amor, é um dos poucos benefícios do envelhecimento. Cada desempenho em “Shadows in the Night” expressa um nível de maturidade vocal. Os humores que Dylan cria com seus vocais são tão vivos, que surpreende qualquer um. Quando ele canta “Stay with Me”, por exemplo, você pode perceber o quanto ele possui uma versatilidade nostálgica. A versão de Bob para esta canção é uma revelação em particular, até porque a gravação de Sinatra não havia atingido tantas pessoas anteriormente. Particularmente, acho que Sinatra não conseguiu elevar esta música como Dylan fez aqui. Sua versão tem um pano de fundo gospel que destaca ainda mais o desgosto presente em sua letra. “Autumn Leaves”, quarta faixa, foi uma das primeiras canções que mais me agradaram ao ouvir todo o álbum. A sua bela introdução na guitarra evoca um imagem de ventos batendo nas árvores e uma estranha melancolia. Dylan canta essa música a partir de um lugar que conhece muito bem, a perda no centro do lirismo. É uma canção devastadoramente triste, mas com uma beleza acolhedora. É o tipo de música que pode testar qualquer qualidade do cantor e, claramente, ele não decepcionou.

O seu sotaque atmosférico junta-se de uma maneira incompreensível com a vulnerabilidade da letra. Logo, sua versão é rica, relaxada e, particularmente, a melhor que já ouvi. Em outro grande número do álbum, “Why Try to Change Me Now”, Dylan canta: “Então, deixe as pessoas se perguntam, deixe-os rir, deixe que eles desaprovam”. E, então, faz uma pergunta crucial: “Você não se lembra de que eu sempre era o seu palhaço? / Por que tentar me mudar agora?”. Bob lida essa canção com muito leveza, a música mais graciosa que poderemos encontrar no registro. Não há nenhuma nitidez aqui, entretanto, o vocal é demasiado gentil. Ele não chega a adquirir o tipo de escuridão que Sinatra fez em sua versão de 1959, mas a linha de encerramento certamente possui um nota requintada de tristeza e resignação. Mesmo em sua forma mais otimista, o registro ainda mantém-se em grande tristeza como ouvimos no suave clímax de “Some Enchanted Evening”. A voz de Dylan oscila e até mesmo pisa fora do tom, mas isso só reforça os sentimentos contidos na letra. O seu canto nesta música acaba por ser nada menos que sublime, arrancando todas as nuances possíveis das palavras.

Bob Dylan

“Quem pode explicar, quem pode lhe dizer por quê? / Tolos dar-lhe razões, homens sábios nunca tentam / Algumas noites encantadas, quando você encontrar o seu verdadeiro amor”, ele canta despretensiosamente, porque ainda celebra o mistério do amor, mesmo depois de tantos anos. É incrível ouvir Dylan cantando com tanto calor e sensibilidade, esta música escrita por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein em 1949. O álbum mantém um tom elegíaco por toda parte, com Bob Dylan equilibrando a auto-consciência das músicas com um ar pesado de tristeza, melancolia e uma sonoridade com suaves dedilhados de guitarra acústica. “Full Moon and Empty Arms” faz jus a tudo isso, canção esta que foi escrita em 1945 por Buddy Kaye e Ted Mossman. Dylan fez algo semelhante a “Stay with Me”, pois pegou uma música que não era muito conhecida na voz de Frank Sinatra e deu à ela uma grande, profunda e emotiva paisagem sonora. Gravada por inúmero artistas, “Where Are You?” é uma canção popular composta por Jimmy McHugh, com letra de Harold Adamson. Foi escrita originalmente para o filme “Top of the Town” de 1937 e realizada pela primeira vez por Gertrude Niesen. Esta canção é a primeira no álbum que pode realmente ser considerada mais despreocupada, embora a letra também seja dramática.

Seu conteúdo é honesto e cheio de franqueza, enquanto Dylan ainda oferece algumas nuances diferentes da versão de Sinatra. Em seguida, temos a canção “What’ll I Do”, clássico de 1923 de Irving Berlin, que pode arrancar lágrimas de qualquer um. Uma música ressonante, bonita, honesta e comovente, contemplada por todos os dons especiais de Bob Dylan. Há relatos de que Frank Sinatra lançou a música em um período de angústia em seu relacionamento com Ava Gardner. “What’ll I Do”, de alguma forma, compreende qualquer tragédia do amor, e a reinterpretação de Bob Dylan em 2015 acaba por flutuar entre a beleza pura e a perda totalmente insuportável. A última faixa do registro é “That Lucky Old Sun”, popular canção de 1949 escrita de Haven Gillepsie. Sua letra constrata o sofrimento intenso da vida do cantor com o esquecimento do mundo natural. Ela já experimentou a aclamação popular em muitas vozes além da de Frank Sinatra. E aqui, no “Shadows in the Night”, recebe outra revisão digna através da voz pálida de Bob Dylan. Ele a canta lindamente, com sua voz de 73 anos entregando um lamento certeiro e de qualidade. Seu vocal é oscilante e desgastado, mas o fraseado e a entonação são inigualáveis, tornando convincente cada sílaba presente na música.

 A arte por trás do “Shadows in the Night” é realmente muito afiada, o que serve como lembre que as composições de Dylan são apenas uma metade da história por trás de todo o seu talento. Porque neste registro encontramos vocais majestosos vindos de um barítino contido que consegue amplificar qualquer tristeza, saudade ou anseio por trás de uma música. Dylan foi acompanhado por uma combinação acústica ideal, cujo instrumentais colocam em destaque o menor alcance de sua voz, além de mostrar seu fraseado e expressões. Não há nenhum sarcasmo, cinismo ou ironia neste disco, ele é totalmente refrescante e sem quaisquer efeitos vocais. “Shadows in the Night”, sob alcunha de Jack Frost, foi totalmente adequado a voz de Dylan e é, claramente, um ato de amor e honra em homenagem à memória de Frank Sinatra. Musicalmente falando, todas as 10 músicas presentes aqui não são nada menos do que fabulosas. A banda atual de Dylan é talvez a melhor que ele já teve, a maneira como eles resumiram a complexidade dos arranjos orquestrais das versões originais, para atender o cantor, é espantosa. Portanto, é provável que o “Shadows in the Night” daqui para frente sempre seja lembrado como um dos melhores álbuns de Bob Dylan.

77

Favorite Tracks: “The Night We Called It a Day”, “Stay with Me”, “Autumn Leaves”, “Why Try to Change Me Now”, “Some Enchanted Evening” e “What’ll I Do”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.