Resenha: Blood Orange – Freetown Sound

Lançamento: 28/06/2016
Gênero: R&B Alternativo, Synthpop, Funky
Gravadora: Domino Recording
Produtor: Devonté Hynes.

Dev Hynes tem esculpido uma carreira interessante, desde que lançou álbuns aclamados pela crítica e uma série de créditos de produção, para artistas como Kylie Minogue, FKA twigs, Solange Knowles, Sky Ferreira e Carly Rae Jepsen. Como esperado, seu mais recente esforço sob o nome Blood Orange, “Freetown Sound”, é tão esmagador quanto o seu disco anterior. Até hoje, Hynes já lançou dois álbuns de estúdio como Lightspeed Champion e mais três como Blood Orange. Ele é um artista britânico que iniciou sua carreira tocando guitarra para a banda Test Icicles, que lançou apenas um álbum completo em 2005. Com Lightspeed Champion em um hiato, Dev decidiu concentrar-se em um novo projeto de R&B e música eletrônica como Blood Orange. “Freetown Sound” oferece um som R&B, funky, soul e synthpop, que reflete sobre a própria jornada de Dev Hynes.

Com participações de Carly Rae Jepsen, Nelly Furtado e Ta-Nehisi Coates, o álbum não esconde sua ambição. Dev não afastou-se de suas influências musicais, pois desliza sobre uma combinação maravilhosa de batidas de R&B com jazz, pop barroco, soul eletrônico, piano, saxofone e outros instrumentos de metais. “Freetown Sound”, que segue os discos “Coastal Grooves” e “Cupid Deluxe”, baseia-se em tudo que Hynes fez como artista, resultando na demonstração mais expansiva de sua carreira. Seu título é derivado do local de nascimento do pai de Hynes, a capital de Serra Leoa. Tematicamente, é um disco profundamente pessoal e assumidamente político, pois toca em questões raciais, religião, sexo e sexismo no decorrer de 17 faixas. É uma colagem complexa de vozes e idéias, com referências aos movimentos musicais e políticos de períodos históricos específicos.

É um disco inteligente e cuidadosamente construído que oferece algumas críticas sobre o atual estado do mundo. Sonoramente, o álbum realmente faz uma mistura gloriosa de gospel, jazz moderno, anos 80s e afro-beat. A primeira canção do álbum, “By Ourselves”, utiliza amostras com moderação, mas de forma altamente eficaz. Aqui, encontramos uma amostra do poema de Ashlee Haze, chamado “For Colored Girls”. O poema elogia Missy Elliott por ter sido um modelo positivo para as garotas negras e mulheres com corpo que não alinham-se ao padrão comum de beleza. O disco tem muitos colaboradores, a maioria deles do sexo feminino. Ava Raiin, Empress Of, Debbie Harry, BEA1991, Nelly Furtado, Kelsey Lu, Carly Rae Jepsen e Zuri Marley emprestam seus vocais. “By Ourselves” tem influências gospel, com alguns elementos de jazz espalhados no meio.

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Hynes utiliza cordas estendidas, bem como um pequeno coro para dar um grande efeito. É uma canção com base feminista, que concentra-se na celebração das mulheres negras. Na bela “Augustine”, ele faz comparações com a conversão do Santo Agostinho ao Cristianismo. Ele resolve falar sobre a permeação do Cristianismo ao longo de nossas vidas, bem como a sua própria experiência de mudar-se para Nova York. “Augustine” é a primeira faixa em que ouvimos o som oitentista de assinatura do Blood Orange. As letras são um pouco excêntricas e melancólicas, mas o arranjo é realmente muito bom. Embora não seja sonoramente a música mais interessante, ela mostra a progressão como compositor de Hynes. Em “Chance” ouvimos alguns dos elementos jazz já apreciados em “By Ourselves”. Ele emparelha arejadas pads com sintetizadores, para criar um arranjo bem relaxado.

“Chance” é uma canção que incide sobre a identidade de Hynes, em um mundo onde sua cultura está sendo apropriada. O estilo up-tempo percussivo e saltitante de “Best to You” destaca-se como um dos momentos mais pop. Sua suave mistura de vocalistas femininos e masculinos é colocada ao lado de uma batida muito melódica. Os seus arejados sintetizadores e progressões dos anos 80 também estão presentes. Interlúdios como “With Him” levam o álbum para o território jazz, mas não por muito tempo, enquanto baladas como “Better Numb” amarra o conjunto do pacote. “E.V.P.”, por sua vez, é um número funky com uma poderosa linha de baixo, coberta por uma série de vocais, sintetizadores pesados e riffs de guitarra. Entretanto, como tem muitas faixas, o álbum dá espaço para algumas fillers“Love Ya”, por exemplo, é uma música lenta que encontra Blood Orange pedindo consentimento para uma amante.

Blood Orange

Seu solo de saxofone interminável é desconcertante e não chega a lugar algum. A letra de “But You” é um pouco brega, mas utiliza uma estrutura de quatro acordes muito interessante. Enquanto isso, piano, baixo, congas e guitarra elétrica acentuam ainda mais o som descontraído. “Desirée” segue por uma vibração semelhante a “But You”, uma vez que Blood Orange aparece sozinho. Mais uma vez, somos introduzidos aos anos 80 sob alguns pianos elétricos. É uma canção mais do mesmo, embora isso não seja uma coisa necessariamente ruim. Outra música poderosa, intitulada “Hands Up”, está cheia de sintetizadores arrastados, uma suave sonoridade oitentista e refrões viciantes. É uma canção tão suave que você quase esquece a seriedade das letras. “Hands Up” pode ser a música mais acessível do “Freetown Sound”, uma pista divertida e um dos pontos altos do repertório.

Outra canção visivelmente brilhante é “Hadron Collider” com Nelly Furtado. A cantora começa a música por si mesma, enquanto Hynes junta-se a ela em alguns versos. A produção é uma mistura agradável de graves up-tempo e tons sombrios de teclas de piano. A natureza melancólica inicial soa estranhamente semelhante a Lana Del Rey. Há uma boa quantidade de sua estética oitentista, que ajuda a cria algo excelente para a música. “Squash Squash” lida com uma amante que escolheu outra pessoa e, enquanto a melodia é celestial, a produção como um todo possui um enorme potencial. Mais tarde, Hynes coloca um sintetizador impressionante para fora durante “Better Than Me”. É um número onde Blood Orange prospera e mostra o porquê é, atualmente, considerado um produtor de alto perfil.

O talento de Dev Hynes é inquestionável. Ele escreveu e produziu o álbum inteiramente sozinho e o resultado foi melhor do que o esperado. Ele brinca com esferas políticas, sociais e artísticas com grande facilidade e sem perder o foco. “Freetown Sound” é um álbum político, mas é muito mais do que isso. Além de oferecer uma boa fusão de R&B, jazz e pop, com influências que vão desde Michael Jackson a Prince, Hynes apresenta uma celebração da cultura negra e outras infinidades de questões sociais. Blood Orange claramente foi meticuloso ao criar este projeto. Mais uma vez, ele nos fez criar um grande amor pela música da década de 80. “Freetown Sound” é um disco eclético criado pelo mesmo homem por trás de peças maravilhosas como “Everything Is Embarrassing” (Sky Ferreira), “All That” (Carly Rae Jepsen), “Losing You” (Solange Kwnoles) e “Want Your Feeling” (Jessie Ware).

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Favorite Tracks: “Chance”, “Best to You”, “But You”, “Hadron Collider” e “Juicy 1-4”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.