Resenha: Bloc Party – Hymns

Lançamento: 29/01/2016
Gênero: Dance, Indie Rock
Gravadora: Infectious Records
Produtores: Tim Bran e Roy Kerr.

Em 2005, um grupo de quatro jovens britânicos lançou um dos melhores álbuns de estreia da década de 2000, intitulado “Silent Alarm”. Desde então, Kele Okereke e companhia mostraram uma adaptação instável, que não atingiu o mesmo nível de eficiência do disco citado. Após quatro álbuns lançados, algumas mudanças sonoras aconteceram e eles demonstraram uma evolução como pessoas e músicos. No entanto, consequentemente, ao ouvir a banda atualmente é difícil de acreditar que seja a mesma de 10 anos atrás. Tecnicamente, Bloc Party realmente não é o mesmo de antigamente, pois apenas dois membros da formação original ainda permanecem na banda. Atualmente, o grupo é formado por Kele Okereke, Russell Lissack, Justin Harris e Louise Bartle. O conservador “Hymms” é o seu primeiro álbum de estúdio desde 2012, sucessor do disco “Four”. É um projeto que, de longe, marcou a maior mudança sonora no repertório da banda, pois é mais focado no dance alternativo e música eletrônica. Porém, é um dance que exala uma certa falta de originalidade e criatividade.

Embora seja uma direção artística um pouco diferente para a banda, não é uma abordagem diferenciada do gênero. Da mesma forma, não é um registro potente, principalmente por causa das escolhas de instrumentais fracos e irritantes. Até existem alguns momentos agradáveis, onde as melodias destacam-se, entretanto, de um modo geral, é um disco irregular e artificial. O primeiro single do álbum, “The Love Within”, abre o repertório. Inicialmente, é uma faixa que apresenta um som simplista que arrasta-se através de uma guitarra e um monótomo tambor. As crescentes ondas do instrumental criam um ambiente bem apropriado para os vocais de Kele Okereke. Entretanto, após o primeiro minuto, a música atinge um clímax e, de repente, apresenta drop nada agradável. A canção passa a ser dominada por um sintetizador dissonante que, rapidamente, transforma-se em algo irritante de se ouvir. A combinação do baixo e da bateria também é algo sem inspiração nenhuma. O único fator positivo de “The Love Within” é o cativante refrão, que acaba sendo o ponto alto de toda a música.

Aqui, a melodia soa extremamente agradável, enquanto os sons gerais apresentam uma boa progressão. No entanto, embora seja muito bom, o refrão não consegue salvar a composição geral desconcertante e estrutura confusa da música. A relação espiritual do vocalista Okereke continua a ser um temas mais explorados no quinto álbum do Bloc Party. A segunda faixa, “Only He Can Heal Me”, por exemplo, possui uma natureza religiosa bastante evidente. “E deixe-me esperar até / Meu salvador chega em casa / Pois só ele pode me curar / Me ajude a superá-lo / Pois só ele pode me curar com seu toque”, Okereke canta. Essa é uma das músicas mais fortes e suaves do álbum. Sua instrumentação é mais sutil, possui uma forte performance vocal e alguns riffs de guitarra de assinatura da banda. A música começa com o piano sombrio ao fundo, enquanto alguns vocais gregorianos e batidas eletrônicas o acompanham. A melodia principal é cativante, assim como o poderoso refrão. Um ambiente refrigerado e um solo de guitarra completam a estrutura dessa estranha e bela canção.

Bloc Party (2)

“So Real”, terceira faixa, é um número dance onde o vocalista canaliza um vocal mais melancólico. A pista oferece um território de uma balada mid-tempo minimalista, enquanto a letra fala sobre um amor perdido. “O que eu deveria fazer / Quando a única coisa boa sobre mim era você?”, Kele canta tristemente. A música apresenta delicados acordes de piano, uma vibe gelada, órgão, baixo e alguns riffs metálicos de guitarra. Ela possui uma melodia relaxante, algumas boas harmonias e também oferece um alinhado solo de guitarra. O segundo single lançado do “Hymns” foi a faixa “The Good News”. Uma canção de indie-rock simplista, com algumas influências de blues, que exala uma energia poderosa. Mais uma vez, Bloc Party oferece um conceito religioso nesse álbum, pois “The Good News” foca em falar sobre fé. “Está certo / Você só precisa de fé / À procura de respostas / No lugar errado (…) / Oh Senhor, eu estou tentando manter minha mente / Nas boas notícias que estão no meu coração”, Kele canta. Nesta canção, percebemos que os vocais dele estão muito mais soulful do que de costume. Enquanto “The Good News” é uma faixa de indie-rock simples, é talvez a mais próxima do som antigo da banda.

Musicalmente, a canção apresenta um ritmo constante, através de uma boa percussão, um riff de guitarra, órgãos de apoio e acordes de piano. É uma música decente, onde o desempenho vocal de Kele é a coisa que mais destaca-se. A próxima faixa é “Fortress”, uma balada ambiente apresentada sob um poderoso falsete. Aqui, Okereke praticamente flutua com seu falsete em uma atmosfera sintética e minimalista. Bem diferente da faixa anterior, essa canção apresenta percussões eletrônicas, um baixo sintetizado e um ambiente mais superficial. É uma balada eletrônica lenta, arejada, pulsante e emocional. Diferente de outras faixas, liricamente “Fortress” oferece um conceito mais sexual. “Different Drugs”, por sua vez, pode ser considerado um dos destaques do álbum. A baterista Louise Bartle mostra todo o seu impacto nesta canção, ao acrescentar uma grande quantidade de profundidade à seção rítmica. A sua batida hipnótica e um reluzente sintetizador é o maior suporte para os vocais de Okereke. Russell Lissack também auxilia com sua guitarra, mas em uma performance mais discreta. A pulsante bateria e a forma como o sintetizador foi utilizado, criou um efeito constante e surpreendentemente bom.

Bloc Party

A sétima faixa, “Into the Earth”, é mais um número indie-rock entregue à base de guitarras e contundentes tambores. É uma peça melancólica, com letras mórbidas e uma escala musical mais ampla. É uma canção escura que, graças ao trabalho de guitarra de Lissack, consegue ser razoavelmente agradável. Por outro lado, a letra é muito fraca e desajeitada, e a melodia é um tanto quanto dispersa. O refrão é decente, mas, em termos de narrativa, a escrita desta música é muito estranha. A faixa seguinte, “My True Name”, é uma verdadeira canção indie-rock que consegue destacar-se das demais. É uma balada bem produzida, melódica e agradável que concentra-se em um tema amoroso. O ambiente assustador, os tambores e a guitarra são os seus principais motores. Os riffs iniciais também são bem convidativos, entretanto, o refrão poderia ser mais grandioso ou explosivo. “Virtue”, faixa lançada como terceiro single, começa com um sintetizador familiar e pode ser considerada uma das poucas canções up-tempo do disco. Em alguns momentos, a faixa parece querer replicar a composição de “The Love Within”.

Entretanto, felizmente, o seu sintetizador é usado com um pouco mais de moderação. Em sua criação, Bloc Party utiliza a linha de sintetizador de forma pulsante sobre fortes tambores. Além disso, a canção também oferece uma linha de baixo energética de grande potencial. “Virtue” se move em direção a um território eletrônico pertinente, graças a combinação da batida dançante, o baixo e o sintetizador explosivo. Os efeitos sonoros e vocais em falsete de Kele Okereke também ajudam na entrega de um refrão rítmico bastante aguçado. Após a agitação da faixa anterior, “Exes” apresenta um som melancólico bastante pessoal. É outra balada baseada em acordes de guitarra, com uma composição sólida, suave e escura. Liricamente, é uma canção sobre desejar a felicidade de outra pessoa, da qual você havia deixado triste. As belas harmonias vocais ao fundo, por sua vez, tentam dar uma nova textura à melodia e aos falsetes de Kele Okereke. A última faixa, “Living Lux”, pode ser classificada como o elo mais fraco de todo o registro. É uma canção eletrônica ambiciosa que não faz jus ao seu potencial. A música provoca um acúmulo de energia que, no final de tudo, não chega a lugar algum.

Ela não se instala em algum ritmo e acaba sendo um desperdício de produção. Na falta de uma boa batida, a canção concentra-se em oferecer um sintetizador monótomo, estático e sem graça. O resultado final é uma música estagnada, sem qualquer gancho ou ponte cativante. Bloc Party, obviamente, quis tentar algo novo com o “Hymns”, um disco bem morno se comparado com lançamentos anteriores. Aqui, claramente, a banda tentou utilizar elementos musicais mais simples. Entretanto, a simplicidade só funciona quando há uma substância de qualidade. No geral, o álbum possui faixas muito opostas entre si, resultando na ausência de um bom fluxo e coesão. Grande parte do repertório é reflexivo ou introspectivo, mas, por outro lado, sofre pela fraca produção e falta de direção. Bloc Party criou um grande pedestal quando lançou o disco “Silent Alarm”, assim como o hino indie-rock “Helicopter”. Portanto, o público esperava que a banda fosse replicar essa qualidade em trabalhos futuros. Em suma, “Hymns” acaba se tornando uma decepção para aqueles que esperavam ouvir algo no nível da crueza e energia do “Silent Alarm”.

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Favorite Tracks: “Only He Can Heal Me”, “The Good News”, “Different Drugs”, “My True Name” e “Virtue”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.