Resenha: Blake Shelton – If I’m Honest

Lançamento: 20/05/2016
Gênero: Country
Gravadora: Warner Bros. Nashville
Produtor: Scott Hendricks.

“If I’m Honest”, o décimo álbum de estúdio de Blake Shelton, é descrito por ele como o mais pessoal até a presente data. Lançado em 20 de maio de 2016, o disco foi totalmente produzido por Scott Hendricks. Além de ser jurado de um dos mais famosos reality shows do mundo, o The Voice, ele é, atualmente, um dos maiores nomes da música country americana. Com esse novo registro ele tenta apelar para todos os fãs do gênero, uma vez que apresenta uma mistura de baladas e músicas up-tempos. De certa forma, é um álbum mais pessoal, pois Shelton toca em seu divórcio com Miranda Lambert e seu novo relacionamento com Gwen Stefani. Desde Johnny Cash e June Carter Cash até Tim McGraw e Faith Hill, a música country sempre teve seus casais. Blake Shelton e Miranda Lambert foram o casal mais recente a assumir essa perspectiva, entretanto, ano passado, eles se divorciaram. A separação abalou o gênero country, consequentemente, o cantor aborda o divórcio nesse álbum. Com base nisso, você realmente espera ouvir um disco autobiográfico sobre um rompimento amoroso. Enquanto o repertório tenta explorar o desgosto da separação e uma eventual nova paixão, as canções ficam muito aquém e, por vezes, são puro enchimento. “If I’m Honest” possui vários escritores para um álbum descrito como autobiográfico, o que significa que ele não é tão pessoal assim. A produção é agradável, pois apresenta uma variedade de sons típicos do country, enquanto sua entrega vocal é uma vantagem. Durante as 15 faixas, Blake Shelton esforça-se para trazer um realismo e crueza que nunca demonstrou em seus álbuns anteriores.

No entanto, não há nada aqui que você nunca tenha ouvido nos seus últimos trabalhos. Ou seja, você sabe exatamente o que vai ouvir logo após apertar o primeiro play. A faixa de abertura, “Straight Outta Cold Beer”, é uma típica canção de bro-country, sobre estradas, pick-ups, fogueiras e cerveja gelada. Seria muito estranho se não houvesse pelo menos uma música nesse estilo em um álbum do Blake Shelton. Quem não curte bro-country, provavelmente, deve ter detestado essa música. E, convenhamos, Shelton é certamente melhor quando está cantando alguma balada mid-tempo. E, de alguma forma, essa canção é ainda pior do que o título sugere. Algumas citações aqui não inspiram muito confiança logo no início do álbum, especialmente para um material que promete uma vasta honestidade. Em seguida, “She’s Got a Way with Words” emprega algumas combinações líricas inteligentes, a fim de atingir uma ex. É uma canção controversa e um jogo perspicaz de palavras, com uma grande dose de raiva, vingança e sarcasmo. Apesar de não ter sido escrita por Blake Shelton, sua letra é um verdadeiro reflexo do seu último relacionamento. Liricamente a faixa realmente exprime uma raiva interna, entretanto, seu ritmo e instrumentação são bem suaves. “She’s Got a Way with Words” não é a única canção sobre separação do álbum, tanto que a próxima faixa, “Bet You Still Think About Me”, aborda o mesmo tema. Ela possui uma natureza mais amarga e com menos hostilidade que a faixa anterior. É, particularmente, uma balada pungente e contém, talvez, a performance mais emocional do álbum. No refrão, a voz de Blake está bem comovente e melancólica, e em grande equilíbrio com o ritmo mais lento.

Aqui, o cantor está lamentando um amor perdido e descreve uma relação que acabou porque ambos queriam coisas diferentes. A quarta faixa, “Every Time I Hear That Song”, é um pouco mais pop do que o típico som apresentado por Blake Shelton. Ela mostra um lado musicalmente diferente para ele, embora não seja nada inovador ou surpreendente. Liricamente, a canção oferece sentimentos semelhantes às faixa anteriores, porém, com uma produção mais pesada. É um número particularmente cativante, principalmente por causa do refrão. “Came Here to Forget”, primeiro single do álbum, é uma declaração de Blake Shelton sobre o seu divórcio com Miranda Lambert. Essa canção poderia ser a sua mais pessoal e íntima, até a presente data. Entretanto, como não foi escrita por ele, essa suposição vai por água abaixo. Musicalmente, é uma típica balada de country e pop, que exala algumas influências de R&B em sua composição. O título é adequado e, no geral, a faixa é construída sobre um refrão sólido. Entretanto, não é uma canção tão original, visto que faz uso de muitos clichês líricos e uma produção estereotipada. Os vocais de Blake Shelton estão bons, mas, por outro lado, a música não soa tão emocional quanto deveria ser. No contexto geral, a faixa fala sobre as emoções sentidas pelo cantor após sua separação. A letra é semelhante a de várias outras canções do gênero, enquanto encontramos um personagem fazendo uma reflexão de sua vida. No principal gancho, o cantor consegue ser bem direto: “Não consigo me lembrar por isso que viemos aqui para esquecer”.

Mas, em outros momentos, a letra se perde e carece de profundidade. Musicalmente, é uma canção apoiada por uma guitarra, loops de bateria, sintetizadores, belas harmonizações e um som mais progressivo que o habitual. A melodia é forte, mas não é algo suficiente para segurar a atenção do ouvinte por muito tempo. Nesse ponto, o álbum começa a ficar entendiante por causa do repetitivo tema. Porém, a sexta faixa, “Every Goodbye”, marca uma mudança radical no tom do disco. É uma música mais alegre, up-tempo, radio-friendly e com uma abordagem mais otimista. Seguindo pela tracklist, essa faixa apresenta um tom muito mais esperançoso que “Came Here to Forget”. Não me surpreenderia se ela fosse lançada como single, pois é positiva e bastante relacionável. Ela fala sobre conhecer um novo alguém que passou por situações parecidas. Sonoramente, possui uma abordagem modernizada, com guitarras, bateria e teclado. Depois de algumas faixas sobre a ruptura de um relacionamento, eis que “It Ain’t Easy” oferece uma mudança refrescante. Inspirada por seu namoro com Gwen Stefani, essa canção mostra como sua vida está ao lado de uma nova mulher. Agora, o seu único pensamento é passar todos os momentos ao lado dela. “Não, eu não vou mentir / Com esse olhar em seus olhos / E seus braços em volta de mim / Garota, acredite / Não é fácil mais / Não, não é fácil, caminhar para fora de sua porta”, ele canta no refrão. “It Ain’t Easy” possui a melhor instrumentação do álbum, por causa do bom uso da guitarra e trompa. “A Guy with a Girl”, “One Night Girl” e “You Can’t Make This Up” são canções com abordagens extremamente parecidas.

Todas preenchem a cota de clássicas canções de Blake Shelton, a cerca de estar ao lado de uma garota que todo mundo está afim. Ele fala sobre as experiências de estar com alguém que, simplesmente, passa pelas mesmas experiências que ele. Essas três músicas são, particularmente, destinadas ao seu público feminino. Elas são interessantes de se ouvir, porque são otimistas e possuem refrões fortes. Porém, ele joga completamente pelo lado seguro e soa forçado liricamente. Elas têm um conteúdo lírico fraco, com bajulações clichês, superficiais e carentes de reflexão. Sonoramente, as três decepcionam, porque são incrivelmente parecidas com qualquer coisa que ele já fez antes. O dueto inevitável com Gwen Stefani acontece durante a canção “Go Ahead and Break My Heart”. Esse dueto prova que ambos atendem bem a voz do outro, conforme o foco permanece na entrega vocal. Essa faixa é um número country-pop up-tempo com grande potencial mainstream. A cativante linha de guitarra consegue dar um grande impulso para as vozes de Shelton e Stefani entrelaçaram entre si. Os tons mais baixos de Stefani são executados com uma profundidade emocional que, muitas vezes, Shelton não possui. Gwen Stefani é claramente uma das maiores inspirações para esse disco, consequentemente, desgosto amoroso não é o único tema do álbum. Liricamente, sua natureza autobiográfica consegue soar honesta, à medida que eles falam sobre seu relacionamento: “Se você realmente precisa de um novo começo / Por que você não vá em frente / E parta o meu coração?”. A décima faixa é “Friends”, música tema do filme “Angry Birds”, do qual Blake atua como dublador.

É o tipo de música country-pop extremamente irritante que danifica qualquer qualidade desse gênero. É uma canção boba, com um “boing” predominantemente chato por toda parte. Ela faz uma mudança no ritmo dramático do repertório, no entanto, é uma canção bem descartável. Em sua composição encontramos uma harpa, violino e um banjo alegre fazendo todo o trabalho. É justo chamar “Doing It to Country Songs” de uma música country, entretanto, ela pode ser rejeitada pelos fãs mais tradicionais do gênero. É uma faixa muito mais coesa com o passado humorístico de Blake Shelton. Aqui, temos a presença do quarteto The Oak Ridge Boys, que empresta suas agradáveis harmonias para a música. Não é um número tão chamativo, mas contém alguns interessantes riffs de guitarra e fortes barítonos vocais. “Green” é uma das poucas canções que apontam para o começo da carreira de Blake Shelton, mas não encare isso como um grande elogio. É um número que exalta a vida de um fazendeiro, com uma bela casa, uma mulher do seu lado e um trator John Deere em seu celeiro. “Eu tenho uma fazenda de cem acres / Eu tenho um John Deere no meu celeiro / Eu tenho um jardim no meu quintal / Cheio de milho, ervilhas e feijões”, ele canta entusiasmado. É uma canção up-tempo com alguns instrumentos tradicionais, como violino e banjo. Apesar de alguns clichês óbvios na letra, ele possui um refrão bem forte, grave e tradicional. O álbum se encerra com um número bastante sólido e maduro, intitulado “Savior’s Shadow”.

É apenas uma das três músicas do qual Blake Sheltona ajudou a co-escrever. É uma canção country fortemente influenciada pelo gospel, escrito ao lado do casal Jon Randall e Jessi Alexander. A faixa é a respeito do amor e fé de Blake Shelton por Jesus: “Embora o diabo tente me quebrar / Meu doce Jesus não vai me abandonar / Quando estou na sombra do meu Salvador / Onde eu deveria estar”. É, definitivamente, a pista mais emocional da carreira dele, tanto que foi escrita a partir de um sonho. Aqui, apenas uma guitarra acústica, pedal steel e um violino são utilizados em prol da música. O resultado foi um número requintado, elegante e uma ótima vitrine para o alcance vocal de Shelton. “If I’m Honest” contém 15 faixas e uma mistura de músicas up-tempo agitadas com baladas sensíveis. Liricamente, o astro tentou capitalizar tudo que aconteceu na sua vida nos últimos meses. O título é centrado na honestidade, por causa disso, muitos esperavam mais do álbum. Shelton ofereceu performances vocais agradáveis, porém, faltou um conteúdo mais emocional e convincente. Há uma abundância de faixas para serem escolhidas como singles, uma vez que a maioria é radio-friendly. É bom ver Shelton tentando compartilhar um lado mais vulnerável de si mesmo. Portanto, podemos dar alguma crédito a ele por se preocupar em fazer um registro mais pessoal. Entretanto, o fato dele mal escrever as letras, faz tudo isso soar menos natural. Ele teve a oportunidade de fazer verdadeiras declarações aqui, porém, preferiu jogar pelo lado seguro e não sair da zona de conforto. “If I’m Honest”, infelizmente, não é tão honesto quanto poderia ter sido.

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Favorite Tracks: “She’s Got a Way With Words”, “Bet You Still Think About Me”, “It Ain’t Easy”, “Go Ahead and Break My Heart (feat. Gwen Stefani)” e “Savior’s Shadow”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.