Resenha: Björk – Vulnicura

Lançamento: 20/01/2015
Gênero: Eletrônica, Música Clássica, Música Ambiente
Gravadora: One Little Indian / Megaforce Records / Sony Music
Produtores: Björk, Arca e The Haxan Cloak.

A islandesa Björk Guðmundsdóttir, conhecida mundialmente apenas por Björk, iniciou sua carreira em 1987 como vocalista da banda de rock alternativo The Sugarcubes. Posteriormente, em 1993, ela seguiu carreira solo e lançou um álbum de estreia enraizado pela música eletrônica, house, jazz e trip hop. O álbum foi amplamente creditado como um dos primeiros a apresentar música eletrônica no pop mainstream. Mais tarde, muitos críticos consistentemente defenderam o trabalho de Björk, elogiando sua abordagem inovadora para o canto, composição, uso pioneiro de batidas eletrônica, videoclipes inovadores e, acima de tudo, sua voz singular. Entre os diversos prêmios que ela já ganhou, encontra-se 4 BRIT Awards, 4 Video Music Awards e 1 MOJO Award. Além disso, já recebeu 13 indicações ao Grammy Award, 1 ao Óscar e 2 ao Globo de Ouro. Seu álbum de 2011, “Biophilia”, foi o primeiro a ser lançado como uma série de aplicativos interativos, sendo que em 2014, esses aplicativos foram os primeiros a serem introduzidos no Museu de Arte Moderna. Uma exposição retrospectiva em larga escala, inclusive, foi dedicada a Björk no Museu, a tornando uma das poucas artistas a receberem esta honra.

Toda essa introdução mostra o quanto a cantora tem uma carreira brilhante e uma grande aclamação universal. Agora, na terceira década de sua carreira solo, Björk tem desenvolvido um estilo musical ainda mais eclético, que incorpora, além dos já mencionados, aspectos de dance, rock, música clássica e música experimental. Seu mais recente trabalho chama-se “Vulnicura” e foi lançado no começo do ano, precisamente em 20 de janeiro. Foi produzido pela própria Björk, em conjunto com Arca e The Haxan Cloak, e expressa os sentimentos dela, no decorrer de 9 faixas, perante o antes e o depois de seu rompimento amoroso com o artista Matthew Barney. Este projeto é o documento de que um término pode definir uma vida, ele serve como uma crônica dos últimos dias do relacionamento de Björk com seu parceiro de 10 anos. Ele apresenta histórias sem pretensões, heróis ou vilões. São contos atados em contradição, auto-dúvidas, incertezas, inseguranças e dor. Estruturalmente, a sua história é contada em três atos, com a cada três canções explorando uma percepção: que tudo acabou, o rompimento e as consequências. O resultado disso tudo foi o álbum mais intímo de Björk até a data e o primeiro onde ela preocupou-se exclusivamente com a sua vida pessoal.

As letras simplistas, mas selvagemente contundentes, parecem ter sido retiradas das páginas dos diários mais íntimos da cantora. Sonoramente, “Vulnicura” é um álbum raro, que consegue suprir todas as expectativas do ouvinte. Ele supõe um retorno ao uso de cordas, algo que Björk experimentou em grande escala em seu primeiros discos, como “Debut” (1993) e “Homogenic” (1997). Concedido o conceito e temas do álbum, o venezuelano Arca lidou oferecendo nuances brilhantes e um engenho extraordinário na produção. Logo, “Vulnicura” é tão obscuro e ameaçador como se poderia esperar de um trabalho de Björk, embora também seja preenchido com momentos delicados dentro de seus tons escuros. É expressivo, honesto e mostra o quão profundo a música é capaz de se degradar em completa depressão e desesperança. O título do álbum, a propósito, é uma abstração que esconde algumas palavras como: vulnerável, vulcânica e cura. A deslumbrante “Stonemilker” abre o álbum com tristes cordas que ressaltam ainda mais a voz de Björk. O seu arranjo traz a sensação de dor, saudade e incerteza, pressagiando os eventos devastadores que acontecem na letra.

Lentas batidas eletrônicas e melodias pungentes também ecoam sob sua execução, enquanto o som percussivo cresce de forma variada. É um de suas mais fortes performances vocais, onde ela realmente assume o comando da música e entrega momentos de uma vulnerabilidade controlada. Grande parte do registro segue este modelo, fazendo um casamento entre um belo e triste som. “Um destino justaposto / Encontre nossas coordenadas em comum”, Björk canta na primeira estrofe e, em seguida, diz: “Eu quero poder sincronizar nossos sentimentos / Mostre respeito emocional”. Essa música vem de uma mulher que sabe que o fim estava próximo, mas ainda não tinha afundado-se na aceitação. Existe um grande indício de que a canção foi escrita numa época em que ela achava que o destino para seu relacionamento estava praticamente traçado. “Stonemilker” documenta o lento colapso que ocorreu na vida da cantora e praticamente mostra o diálogo aberto de dois apaixonados, nove meses antes de se separarem. É sem dúvida a mais angustiante e bela canção que Björk escreveu desde o álbum “Medúlla”, habilmente abrangendo uma linha entre o avant-garde e o pop imensamente acessível.

Björk

“Talvez ele saia dessa / Talvez ele não saia / De alguma forma eu não estou muito preocupada de qualquer jeito”, ela questiona logo em seguida na faixa “Liongsong”. Essa canção, que lembra algo da era “Homogenic”, aborda o seu relacionamento cinco meses antes do fim. Frustrada e desconfortavelmente complacente com o comportamento do seu parceiro, ela exige algum tipo de clareza. Ela diz estar cansada de “domar um animal” e se pergunta o que pode ser feito para provocar qualquer tipo de sentimento nele. A escrita de Björk mantém-se forte, peculiar e comovente, enquanto o seu inglês idiossincrático continua a encantar. Sonoramente, “Liongsong” começa tão baixa que fica parecendo que Björk está cantando acapela. Mas, em seguida, cordas metálicas aparecem e descem conforme a percussão eletrônica fica mais alta e frenética. “History of Touches” pode ser considerada a música mais assustadora e brutal do álbum, porque fala sobre a última fez que fizeram amor e tiveram uma noite juntos. É a mais curta e densa canção do “Vulnicura”, onde Björk faz questão de falar sobre cada momento que ela passou tocando o corpo do seu parceiro, uma intimidade sem limites expressada em três minutos. Sua escrita sobre a vida erótica é sensual, incrivelmente honesta e ela ainda faz uso de palavrões (“Cada toque / Que nos tocamos / Cada foda que tivemos juntos / Está em um maravilhoso lapso de tempo / Conosco aqui, neste momento”).

A produção eletrônica desta faixa é sutil e não ofusca seu instrumento icônico ou as regras que o rodeiam. Muitas vezes angulares, as batidas pulsantes não estão ausentes por completo, mas foram em grande parte substituídas por acordes de atmosféricos sintetizadores. Ao longo das três primeiras faixas do registro, Björk mostrou como o seu relacionamento dissolveu em torno dela. O tema comum entre essas primeiras canções são baseados em diferentes retratos de tristeza e vazio. “Black Lake”, por sua vez, é a peça central e gloriosamente deprimente do álbum, documentando a viagem de Björk através da depressão e raiva ao longo de 10 minutos. “Vulnicura” lida com a dissolução de um relacionamento e é aqui nesta faixa onde a cicatriz fica mais visível. Essa é a tentativa da cantora em documentar, explicar e compreender a turbulência rencente da sua vida pessoal. “A família sempre foi nossa missão mútua e sagrada / A qual você abandonou / Você não tem nada a oferecer / Seu coração é vazio / Eu estou afogada em mágoas / Nenhuma esperança, em vista, de recuperação / Dor e horrores eternos”, essas são as palavras de uma mulher desolada e de luto pela morte de uma parte significativa de sua vida.

A excessiva duração dessa música fazem a sua audição parecer estranha e intensa, ao passo que sentimentos a dor de Björk. Na primeira seção encontramos a cantora acompanhada simplesmente por cordas, enquanto sua voz está bem exposta e clara. O quarteto de cordas tocam lentamente, na qualidade que ela começa falando vulneravelmente sobre sofrimento. Conforme a música progride a percussão silenciosa é introduzida e, então, algo estranho acontece: a música desaparece por um breve segundo, um pequeno momento de calma em meio à devastação que está em franco crescimento. Quando a canção retorna a percussão eletrônica fica mais clara, próxima e intensa. Como a intensidade musical cresceu, o mesmo acontece com o imaginário que Björk utiliza. As coisas ainda chegam a crescentes emoções, juntamente com as batidas tornando-se mais ferozes. Pela primeira vez no álbum Björk está em sincronia total com a música, ambos trabalham em conjunto para comunicar a mesma mensagem. A forma e o arranjo da música brilhantemente captam o fluxo e refluxo dos sentimentos mais extremos da cantora na sequência de uma separação.

Mas apesar de sua solenidade, “Black Lake” termina surpreendentemente com um momento de otimismo, com Björk comparando-se a um foguete voltando para casa (“Eu sou um foguete reluzente brilhando / Voltando para casa”). A segunda metade do álbum é mais escura, em termos de harmonia, som e humor, e também mais questionador e desafiante. A tristeza comovente e romântica das faixas anteriores dão lugar a marcantes mundos sonoros e melodias ondulantes incomuns. “Family”, primeira delas, foi co-escrita por Arca e é a única faixa produzida por The Haxan Cloak (que também ajudou na mixagem do álbum). Ela começa com um zumbido ameaçador e Björk lamentando a morte de sua unidade familiar (“Existe um lugar onde eu possa prestar condolências / Pela morte da minha família?”). Essa canção faz uso dos arranjos de cordas mais radicais do registro, utilizando violoncelo em uma forma não muito convencional. Sua melodia é um pouco opaca e evasiva, mas não deixa de ser uma exploração brilhante e imaginativa. No final, depois do interlúdio com o solo de violoncelo, Björk pede ajuda, chora e lamenta por sua filha ser vítima do fim do seu relacionamento: “E nós podemos ouvi-lo / E nós podemos ser curados por ele / Ele vai nos aliviar da dor (…) / Deus, salve a todos nós”.

Esta sensação de desconforto continua na faixa “Notget”, uma canção que combina traços de órgãos brilhantes e cordas arqueadas, algo emparelhado pelo trabalho do venezuelano Arca na produção. Os afiados sintetizadores, ocasionalmente, encontrados no álbum de estreia de Arca, “Xen”, aparecem aqui e ampliam ainda mais a desorientação lírica da canção. Enquanto Björk já disse acreditar que uma vez foi ateu, aparentemente, mudou todos os seus pensamentos e sentimentos sobre o assunto ao longo dos anos. Pois enquanto o “Biophilia” insinuou uma visão mais panteísta para com a natureza, “Notget” ecoa um conceito budista relativo aos entraves em nossos caminhos. Aqui, ela canta: “Se eu lastimar por nós dois / Estarei proibindo minha alma de crescer / Não remova a minha dor / Ela é a minha chance de curar”. “Notget” não adota a questão de quando Björk vai curar-se, em vez disso é o momento onde finalmente ela adota algum tipo de serenidade interior e está tentando adquirir paz através de sua dor. Ela parece sugerir que o primeiro passo para a resolução depois de uma separação é a necessidade de não arrepender-se de todo o relacionamento.

Björk

Sonoramente, essa canção pode ser considerada a mais desconcertante do álbum, pois entrega vocais confrontados com dissonantes acordes de órgãos e sons eletrônicos não convencionais. Em seguida, temos a faixa “Atom Dance”, que poderia até ser uma canção do disco “Vespertine”, cheia de conectividade cósmica e profundidade espacial. Claro, a diferença está em seu foco, pois ela não aponta para uma paisagem ou horizonte, mas sim para dentro do ser humano. A canção abre com Björk cantando acapela, mas logo transforma-se em uma valsa e introduz uma melodia dedilhada com algumas batidas. Conforme a música evolui, um interlúdio com sintetizadores também, abruptadamente, introduzem mágicos violinos. Aqui, a cantora colabora mais uma vez com Anthony Hegarty, vocalista convidado que apareceu em um papel mais dominante na faixa “The Dull Flame of Desire” do álbum “Volta”. Em “Atom Dance” ele usa sua refinada presença de forma mais discreta e relegado a segundo plano. O elegante e revigorado instrumental ajuda a proporcionar uma sensação de otimismo para as letras. “Aprendendo através do amor a abrir tudo”, Björk canta, “Deixe essa ferida feia relaxar”.

Ela realmente mostra que enfrentou sua própria dor e a usou como um meio de curar-se. A dor que ela sente é só dela, de ninguém mais. Ela cura e, na cura, espalha o seu amor. Björk chegou mais longe do que nunca. Em alguns aspectos “Atom Dance”, com o seu apelo para entrar na dor e dançar, é o verdadeiro manifesto do “Vulnicura”. É como se a música estivesse nos pedindo para encontrar consolo nas emoções universais da vida (“Ninguém é um amante sozinho / A maioria dos corações teme sua própria casa”). Se “Black Lake” é a peça central e emocional do registro, “Atom Dance” é o seu apogeu mais otimista. “Mouth Mantra”, penúltima faixa, é a única que parece não sem encaixar com o restante do disco. Não é uma das faixas imediatadas, mas não é necessariamente ruim e cresce em você conforme ouvida mais vezes. Enquanto seu arranjo de cordas tem uma ameaça silenciosa, as batidas são muito mais intrusivas e contundentes, utilizando algo que quase parece com efeitos de videogame. As suas harmonias vocais são tipicamente agradáveis e apresentam uma Björk mais conflituosa. Também pode ser considerado o momento mais violento do registro, já que mostra a cantora lutando com seu próprios esforços artísticos e contra algo que impede-a de realmente libertar-se da dor.

Versos como: “Minha garganta estava desorientada / Minha boca estava costurada / Proibida de fazer barulho / Eu não era ouvida / Remova este impedimento / Minha garganta parece presa”, parecem mostrar ela enfrentando as dificuldades e uma forte angústia. O álbum termina com “Quicksand”, uma faixa em grande parte eletrônica e de percussão emocionalmente rápida. Aqui temos uma boa combinação, que funcionou bem, de frenéticas batidas com um canto mais melódico. Nota-se nessa canção as tendências de longa data de Björk em justapor notas sustentadas em rápidas melodias e batidas eletrônicas, quase como se o ritmo da música estivesse em desacordo com tudo. Na letra a cantora concentra-se em uma ascensão, levantando-se para as nuvens, luz e para o futuro (“Somos os irmãos do sol / Entremos nesse raio de luz / Toda vez que você desiste / Você leva embora nosso futuro”). Depois de prosseguir cada vez mais alta, a música termina abruptadamente, embora não antes de reiterar a natureza universal de desgosto do álbum. Cordas clássicas, batidas e toques eletrônicos definem sonoramente o “Vulnicura”. Os austeros duelos de estilos musicais invocam uma rara complexidade e intimidade, que parecem representar emoções mistas de medo, raiva, depressão e tristeza.

Ele sente-se, no geral, como se fosse um dos discos mais bem sucedidos da cantora, onde ela encontrou principalmente estratégias sonoras que combinam perfeitamente com os conceitos e temas. Enquanto um álbum sobre romance ou ruptura amorosa não seja o mais original dos conceitos, a grande habilidade de Björk eleva o material e o torna acessível e universal. É também um trabalho sobre os vínculos familiares e o quão frágeis eles podem vir a ser. Este é um álbum em que pode encontrar-se consolo, cura, empatia e compreensão. Björk é uma grande artista, mas também é um ser humano. Na medida que o “Vulnicura” é um registro profundamente pessoal, a sua honestidade, beleza selvagem e angústia pura, oferecem uma sensação de alívio catártico para quem o ouve. Oferecendo suas histórias de maneiras honestas, lhe permite comunicar a sua dor nas formas mais objetivas. Como Björk nos fala sobre o amor que ela perdeu, podemos sentir o isolamento que sente-se através dos espaços vazios em suas 9 canções. “Vulnicura” é realmente atraente e que capta uma essência emocional excepcionalmente bem. Portanto, é um álbum terrivelmente lindo de se ouvir e marca um retorno corajoso para uma cantora tão célebre.

86

Favorite Tracks: “Stonemilker”, “Lionsong”, “Black Lake”, “Notget” e “Atom Dance (feat. Antony)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.