Resenha: Big Sean – Dark Sky Paradise

Lançamento: 24/02/2015
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: GOOD Music / Def Jam Records
Produtores: Sean Anderson, Kanye West, Allen Ritter, Amaire Johnson, Boi-1da, Da Internz, DJ Dahi, DJ Mano, DJ Mustard, Jay John Henry, KeY Wane, L&F, Metro Boomin, Mike Free, Mike WiLL Made It, Lee Stone, Nashiem Myrick, Noah Goldstein, OGWebbie, PARTYNEXTDOOR, Rob Got Beats, T-Minus e Vinylz.

“Dark Sky Paradise” é o terceiro álbum de estúdio do rapper de Detroit Sean Michael Leonard Anderson, conhecido simplesmente por Big Sean. As sessões de gravação do disco ocorreram entre 2013-2014, e foi lançado oficialmente em 24 de fevereiro de 2015 pelas gravadoras GOOD Music e Def Jam Records. O álbum conta com participações de outros artistas, entre eles Kanye West, Drake, Ty Dolla $ign, Chris Brown, Jhené Aiko, Lil Wayne, John Legend e E-40. Sua produção foi feita principalmente por Kanye West, juntamente com produções adicionais de DJ Mustard, Mike WiLL Made It e Vinylz. O registro foi apoiado por cinco singles no total e estreou em #1 na Billboard 200, vendendo mais de 139 mil cópias na primeira semana. Desde a pista “Control” de 2013, com o infame Kendrick Lamar, Big Sean vem mostrando que está progredindo como rapper. Antes, muitos estavam céticos quanto a sua atuação, mas ao longo do tempo ele provou ser produtivo e, certamente, vem ganhando cada vez mais respeito como artista. Artisticamente, “Dark Sky Paradise” é o seu álbum mais charmoso e amplo entre os três que já lançou.

Ele carece de coesão como um todo, mas, em sua base, é um registro criativo que posiciona Big Sean como um rapper incrivelmente versátil, cuja personalidade e estilos se mantém unidos mesmo quando ele se adapta a uma variedade de contextos. Esse álbum também é mais sombrio e angustiado, bem como mais profundo do que seus antecessores. Com jogos de palavras consistentes e uma vibe melancólica, o rapper de Detroit trouxe todos os seus altos e baixos, e os compilou no projeto mais forte e humano de sua carreira. O álbum abre com “Dark Sky (Skyscrapers)”, faixa que define o tom para o restante do repertório. Embora tenha uma batida um pouco insossa, as letras são boas e o som geral é muito tormentoso e ameaçador. Sean não perde tempo e já mostra sua progressão como rapper logo nessa primeira faixa. Aqui, ele reflete sobre o seu trabalho duro e os frutos dos quais lhe são oferecidos. Ainda mergulha em temas como caráter, ambição, romance e detalha como foi sua escalada de Detroit até o mais alto escalão do hip-hop. É uma ótima introdução para o álbum, pois fornece algumas reflexões introspectivas e uma certa profunididade lírica.

A segunda faixa, “Blessings”, foi produzida por Vinylz e lançada como terceiro single em 31 de janeiro de 2015. A versão original contém apenas apoio de Drake, mas ao lançá-la como single, foi acrescentado um verso adicional de Kanye West. Em “Blessings” ouvimos três rappers pesados, sem lutar entre si para ver quem possui o melhor verso. Os três apenas ostentam seus status e importância, interpretando a música em total conformidade. Eles, particularmente, não proporcionaram excelentes versos ou tiveram a intenção de roubar o centro das atenções, pelo contrário, apenas saudaram o sucesso de cada um. Drake, por exemplo, proclama em um gancho: “Caminhando, eu me sinto abençoado”. Dentre outros assuntos, Drake também diz não se importar com o Grammy (“Eu poderia dar dois ataques fodidos no Grammy / Eu só dei fora no Grammy no meu Instagram”), enquanto Big Sean menciona a morte de sua avó (“Minha vó acabou de morrer, sou o homem da casa / Então toda manhã, estou de pé, não posso ficar para baixo”). Na versão single Kanye West chega a falar sobre a nudez do aplicativo Snapchat (“Então, eu fiz um Snapchat com essa merda / Tente ver peitos, tente mostrar o pênis”).

Dito isto, temos eles intimidando a todos por serem devidamente abençoados, algo que corrobora com o conceito sinistro do “Dark Sky Paradise”. A batida, fornecida por Vinylz, é sombria, escura e ainda possui um tom ameaçador. A boa produção também foi fundamental e contribuiu para o produto final que foi esse single. Drake foi o responsável por cuidar do cativante refrão, enquanto Big Sean prova, mais uma vez, que realmente deu um passo para frente em relação aos seus dois primeiros álbuns. A terceira faixa é “All Your Fault”, uma colaboração entre Big Sean e seu mentor, Kanye West. Somente depois de quatro anos, nós podemos ouvir uma nova parceria entre Sean e West. A primeira vez que eles colaboraram foi em “Marvin & Chardonnay”, faixa do seu primeiro álbum de estúdio (“Finally Famous”). “All Your Fault” segue praticamente a mesma fórmula de “Marvin & Chardonnay”, porém, com produção tratada por Travi$ Scott. Ela possui tambores rígidos, um ritmo suave, uma amostra de soul music e, sem dúvida, é um dos destaques do álbum. Aqui, Kanye West oferece um verso energizado e cheio de carisma, na mesma medida que Big Sean surge como um relâmpago e também deixa sua marca.

Big Sean

Há uma boa chance de você já ter ouvido a faixa seguinte, intitulada “I Don’t Fuck with You”. Ela foi o primeiro single do álbum, conta com participação do rapper E-40 e chegou a atingir a posição #11 da Billboard Hot 100. Inicialmente, a canção não tinha sido concebida como primeiro single, no entanto, foi escolhida para ser após a boa recepção que recebeu dos fãs e de artistas como Jay-Z e Kanye West. Fontes indicaram que Sean escreveu a música sobre sua ex-noiva, Naya Rivera, entretanto, ele respondeu dizendo que “não é necessariamente sobre uma pessoa, mas sim um hino”. Segundo o próprio, ele ainda estava namorando com Rivera quando fez a música. Apresentando a famosa produção de DJ Mustard e um gancho grudento, “I Don’t Fuck with You” tem sintetizadores elásticos, uma linha de baixo pesada e uma batida mais soulful. Além disso, ainda possui amostras da canção “Say You Love Me One More Time” (1976) de D.J. Rogers. Nesta faixa, Big Sean direciona boa parte dos seus versos para falsos amigos e ex-namoradas (“E todos os dias eu acordo comemorando essa merda, por quê? / Porque eu apenas me esquivei de uma bala de uma vadia louca”).

Em seguida, temos a faixa “Play No Games”, que apresenta Chris Brown no refrão e Ty Dolla $ign na última ponte. Para sua composição, os produtores utilizaram sample de “Piece of My Love”, hit de 1988 de Guy. A música é agradável, possui uma boa introdução, tem uma vibe ensolarada e uma batida muito contagiante. Em termos líricos faz o registro decair um pouco, Big Sean aproveita para cuspir suas linhas de playboy e soa narcótico graças ao fluxo mais suave. O refrão, cantado por Chris Brown, é muito cativante, ao passo que faz boa utilização do auto-tune. Ty Dolla $ign, por sua vez, colabora acrescentando harmonias de sua autoria durante a ponte. Originalmente, a faixa “Paradise (Extended)” foi lançada como segundo single em outubro de 2014, porém, mais tarde, foi adicionada no álbum em uma versão estendida com um verso extra. Embora a original já era louca e atrativa, Big Sean a deixou ainda melhor quando estendeu sua duração. A sua batida, fornecida por Mike WiLL Made It é incrivelmente viciante, estranha e contundente. Na mesma medida, o fluxo de Sean é nervoso, energético e esmagador. Aqui ele rima sem pausas ou qualquer passo em falso, sobre a obscuridade do seu conteúdo lírico.

Os tambores e os riffs ameaçadores realmente ditam um novo tom para o álbum. Com este novo verso levado em consideração, esta faixa definitivamente é um dos meus favoritos do “Dark Sky Paradise”. Eis que chegamos na metade do LP, a primeira metade é composta, em grande parte, por faixas up-tempo apresentadas com um potencial único, enquanto a segunda metade submerge em uma nuvem de forma mais lenta, escura, sombria e severa. A faixa sete, “Win Some, Lose Some”, possui dois versículos, o primeiro escrito em 2012 e o segundo em 2014. Nesta canção, Sean canta sobre como sua vida mudou desde que se tornou famoso. Ele fala sobre erros que cometeu e menciona coisas que aconteceram em sua vida desde então. Ele parece estar olhando o seu passado em um retrovisor, frustrado e questionando decisões passadas, como seu relacionamento fracassado com Naya Rivera. Por alguma razão, Jhené Aiko não possui créditos nesta faixa, mas seus vocais deram um toque muito agradável e sentimental à ela. A introdução desta canção é muito interessante, os vocais de Aiko foram um cumprimento fundamental.

É um número mais lento, com uma batida suave e vocais de Jhené Aiko flutuando a todo momento. A canção introduz uma boa mudança de ritmo ao álbum, uma faixa semi-nostálgica que mostra Big Sean com um olhar introspectivo em sua vida pessoal. A trilha termina com um áudio do pai de Sean severamente dizendo a seu filho o quanto ele o admira. A seguir, surge a faixa “Stay Down”, outra peça que aborda seus relacionamentos, porém, também servindo como uma ode à lealdade e confiança. Com produção manipulada por Da Internz, aqui Big Sean apresenta outro fluxo adequado à uma boa batida, mas é, particularmente, a faixa mais fraca do álbum. O refrão é totalmente sem inspiração e as letras arrastam o ritmo para baixo. No segundo verso ele tenta ser imprevisível, e retorna com um fluxo mais rápido e quase sem fôlego, entretanto, não é suficiente para ser considerado um destaque. Em seguida, Jhené Aiko retorna com seus vocais na nona faixa “I Know”. Uma canção com grande potencial e melhor que sua antecessora, mas que parece estar faltando alguma coisa. Vocalmente, Big Sean está preguiçoso aqui, enquanto Jhené Aiko deveria ter tido uma presença maior.

Big Sean

Também produzida por DJ Mustard, aqui temos um bassline extremamente poderoso, um clima sedutor e os famosos “heys” em loop. Por incrível que pareça, é uma música que soa um pouco progressiva para alguém com produções, geralmente, estereotipadas como o DJ Mustard. A vibração em conjunto dos dois é tranquila e sensual, mantendo-se em um tom suave e com melodias lentas e profundas. O melhor clímax surge no quarto verso, quando Jhené Aiko subrepõe sua voz à de Big Sean para, assim, criar uma harmonia irresistível. Enquanto isso, “Deep” serve como espaço para Sean arejar seus pensamentos existenciais, juntamente com um verso de alta-frequência de Lil’ Wayne. Aqui, encontramos o rapper de Detroit ficando, novamente, um pouco introspectivo. Esta canção confronta diretamente suas dúvidas pessoais e a dos outros. Ele é paranóico ao pensar em perder tudo, mas ainda é confiante de que está aqui para ficar. Em sua terceira produção no álbum, DJ Mustard combina o final de “I Know” perfeitamente com o início desta faixa. Pode-se dizer que “Deep” é a sombra mais escura e reflexiva do “Dark Sky Paradise”.

Big Sean começa esta canção com seu fluxo normal, ao longo de um típico instrumental ambiente e um fundo obscuro definitivo. Mas, nada nesta canção é particularmente espetacular como o verso de Lil’ Wayne, um dos melhores versos dele em anos. “One Man Can Change the World”, penúltima faixa, foi lançada por Big Sean como quarto single em maio de 2015. Ela possui colaboração do rapper Kanye West, do cantor Jonh Legend e uma produção manipulada por Amarie Johnson. Também apresenta, sem créditos vocais, participação da cantora britânica Natasha Bedingfield. “Espero que a minha avó esteja olhando para baixo sorrindo para mim agora. Porque as lutas que ela passou para se tornar capitã, sendo uma mulher negra, na 2ª Guerra Mundial, uma das 1º oficiais negras do sexo feminino em Detroit, uma professora/orientadora, uma mãe/avó incrível (…) tudo isso são coisas grandes demais para esta música não se tornar um single”, disse Big Sean a respeito da faixa durante uma entrevista. Percebemos que “One Man Can Change the World” tem um enorme significado para o rapper, uma singela homenagem para sua falecida avó, que sempre foi uma grande defensora de sua arte.

“One Man Can Change the World” é uma balada soul que serve como um verdadeiro testemunho do lirismo emotivo de Big Sean. Apesar de abrir com uma linha que fala sobre dinheiro (“Tudo que eu queria eram cem milhões de dólares”), a faixa encontra o rapper no seu estado mais sentimental. Sean sempre costuma falar de sua ambição e como isso pode levá-lo a transformar seus sonhos em realidade, entretanto, aqui ele leva as coisas para um lado completamente diferente. Construída sobre um constante acompanhamento de piano, “One Man Can Change the World” é um incrível tributo que oferece versos como: “Ela me ensinou a dirigir / E ela levantou as crianças / Em seguida, as crianças das crianças, e ela fez o certo / Me ensinou a amar, me ensinou a não chorar / Quando eu morrer, eu espero que você me ensine a voar / Toda a minha vida você foi aquele anjo disfarçado”. Sobre os acordes de piano esparsos, ele relembra as realizações e dificuldades que ele, sua avó e família passaram no passado. Kanye West mantém sua recente tendência para o canto em vez do rap, e junta-se a ele no segundo refrão. Enquanto isso, os vocais suaves e confiantes de John Legend surgem no final e fecham a canção.

“Outro” é um final adequado para este álbum, uma canção com uma batida que se encaixa perfeitamente a Big Sean e a com o som mais feliz de todo o registro. Liricamente, o rapper reflete sobre como ele superou as adversidades e o ódio que já enfrentou. Soulful e funky, esta música se sente como o sol saindo depois de uma tempestade. Para sua criação, DJ Dahi utilizou amostras vocais do hit folk “Didn’t I” de 1973 do cantor Darondo. Foi realmente uma ótima maneira de fechar o álbum, uma faixa muito suave e com uma produção silenciosamente em segundo plano, que permitiu Sean mostrar mais de suas palavras. Este álbum definitivamente não é perfeito, mas é muito agradável e recomendo que você escute, mesmo que não seja um grande fã dos seus dois primeiros lançamentos. Big Sean simplesmente entregou o seu melhor álbum até à data. “Dark Sky Paradise” apresenta o surgimento de um rapper confiante, seguro em sua capacidade e desprovido de qualquer necessidade de provar algo a alguém. Musicalmente, “Dark Sky Paradise” é multi-dimensional sem parecer aleatório, e permanece conceitual quando precisa ser. Embora Big Sean ainda não tenha atingido seu auge com este registro, “Dark Sky Paradise” serviu para deixar todos ansiosos para ver os seus próximos passos.

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Favorite Tracks: “Blessings (feat. Drake)”, “All Your Fault (feat. Kanye West)”, “I Don’t Fuck with You (feat. E-40)”, “Paradise (Extended)” e “One Man Can Change the World (feat. Kanye West & John Legend)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.