Resenha: Beyoncé – Lemonade

Lançamento: 23/04/2016
Gênero: Pop, R&B, Hip-Hop, Soul, Blues, Rock
Gravadora: Parkwood Entertainment / Columbia Records
Produtores: Beyoncé Knowles, Kevin Garrett, Diplo, Ezra Koenig, Jack White, Wynter Gordon, Kevin Cossom, MeLo-X, Danny Boy Styles, Ben Billions, Boots, Mike Dean, Vincent Berry II, James Blake, Jonathan Coffer, Just Blaze e Mike Will Made It.

Beyoncé Knowles começou a criar o seu reinado em 1998 como integrante do grupo Destiny’s Child. Após sair em carreira solo, com o disco “Dangerously in Love”, a cantora começou a cimentar o seu status de estrela pop. Álbuns como “B’Day” e “I Am… Sasha Fierece” venderam milhões de cópias e produziram diversos hits. O lançamento surpresa do seu auto-intitulado álbum em 2013, por sua vez, abriu caminho para outros artistas utilizarem uma técnica de marketing parecida. “Lemonade”, seu sexto álbum de estúdio, é outro importante passo artístico na direção certa. Enquanto o disco auto-intitulado foi um grande salto em sua carreira, é o “Lemonade” que concretiza tudo isso. Lançado em 23 de abril de 2016, o disco é acompanhado por curtas-metragens, concebidos para ilustrar os conceitos por trás da produção de cada faixa. Enquanto seu antecessor apresentou um videoclipe para cada música, “Lemonade” foi acompanhado pelo lançamento de um filme exibido pela HBO.

É um álbum visual em sua forma mais pura e original, conforme música e vídeo caminham lado a lado. Inicialmente, o projeto foi disponibilizado para streaming on-line através do Tidal, onde Beyoncé atua como co-proprietária. Comercialmente, o disco estreou em #1 na Billboard, ao vender mais de 485 mil cópias na primeira semana. O anúncio do álbum começou no Super Bowl deste ano, quando Beyoncé divulgou a canção “Formation”. Quando “Lemonade” finalmente foi apresentado ao público, tivemos a chance de notar o quanto Beyoncé estava mais pessoal, crua, íntima e agressiva em suas letras. Aqui, ela fala sobre suas raízes, cultura negra, racismo, feminismo, fé, identidade e infidelidade. O álbum conta com a participação de músicos como Jack White, James Blake, Kendrick Lamar e The Weeknd. Em sua essência, “Lemonade” é um álbum pop, mas que também incorpora diversos outros gêneros musicais, tais como R&B, hip-hop, soul, funky, blues, rock, country, gospel e trap.

A diversidade visual do filme corresponde a variedade de estilos do álbum, que vai desde baladas à potentes batidas. Sua atmosfera é mais obscura, ousada e melhor trabalhada que a dos seus álbuns anteriores. Resumidamente, “Lemonade” é o crescimento de uma mente criativa e o aperfeiçoamento artístico de uma das maiores estrelas pop da atualidade. A partir do momento que “Pray You Catch Me” abre o álbum, você imediatamente percebe que o som de Beyoncé sofreu algumas mudanças. “Dá pra sentir o gosto da desonestidade / Está na sua respiração, enquanto você passa de modo descuidado”, essas são as primeiras palavras de Beyoncé no “Lemonade”. É a introdução adequada para o som mais cru e sofisticado que forma o álbum. Nesta faixa, a americana fala sobre desonestidade e se comporta de forma bastante vulnerável. É uma canção bastante simplista, que marca um tema comumente explorado no álbum.

As palavras de Beyoncé são acompanhadas por um instrumental suave, arranjos delicados, acordes de piano, camadas vocais exuberantes e cordas encantadoras. Uma batida sútil, cordas orquestrais e harmonias vocais distorcidas, também são jogadas na mistura, conforme a música progride. Os vocais frágeis e sussurrados de Beyoncé aparecem sobrepostos, antes da faixa se transformar em uma forte balada. A melodia é escura, sentimental e uma mistura de simplicidade e pura emoção. No geral, o álbum segue por uma sonoridade expressiva, em vez de focar em algo mainstream. No entanto, a segunda faixa, “Hold Up”, sem dúvida teria potencial para single. Em vez de um, a canção utiliza três amostras em sua composição. Ela contém sample de “Can’t Get Used to Losing You” (Andy Williams) e faz interpolação com “Maps” (Yeah Yeah Yeahs) e “Turn My Swag On” (Soulja Boy Tellem). Essas amostras foram muito bem trabalhadas e estabelecidas por Diplo, Beyoncé e Ezra Koenig.

É um número de reggae fusion e dancehall, onde a cantora sugere uma possível infedelidade do seu marido, o rapper Jay-Z. “Algo não parece certo / Pois não está certo / Especialmente quando chega depois da meia-noite / Sinto o cheiro do seu segredo (…) / Olhando a sua lista de chamadas / Não quero perder orgulho, mas vou acabar com a vadia”, ela canta corajosamente, enquanto aborda a infidelidade do marido. O ritmo e tom congelado de “Hold Up” é maravilhoso, principalmente, por causa da batida tingida de reggae. A melodia, batida, as buzinas e a produção descontraída de Diplo, criam um bom equilíbrio com as letras sobre traição. A primeira colaboração no “Lemonade” acontece na faixa “Don’t Hurt Yourself”, ao lado de Jack White. Essa canção leva a cantora para fora de sua zona de conforto, a fim de oferecer um poderoso blues-rock. Ela possui sample de “When the Levee Breaks” do Led Zepellin, além de um dos vocais mais crus de Beyoncé até a presente data.

Aqui, Knowles continua o conceito explorado em “Hold Up”, após lidar novamente com adultério. Com uma entrega agressiva, até mais que “Ring the Alarm”, ela canta: “Quem diabos você acha que eu sou? / Você não está casado com uma vadia qualquer, garoto”. Com ajuda de fortes tambores e da guitarra distorcida de Jack White, Beyoncé mostra toda a sua raiva e frustração. É uma clara mensagem para Jay-Z, conforme ela canta nas últimas linhas: “Uh, este é o seu aviso final / Você sabe que te dei vida / Se você tentar essa merda de novo / Você vai perder a sua esposa”. O poder desta canção é fenomenal, cheia de energia e vigor. Produzida por Beyoncé, MeLo-X e Wynter Gordon, “Sorry” foi lançada como single em 03 de maio de 2016. É uma das faixas mais descontraídas e cativantes do álbum. Mais uma vez, a letra da canção faz referências a uma possível traição do rapper Jay-Z. A cantora faz questão de expressar o quanto lamenta pela suposta infidelidade, enquanto menciona os erros dele.

Beyoncé

Assim que foi divulgada, “Sorry” foi incansavelmente citada nas redes sociais, principalmente por causa da linha: “É melhor ele ligar para a Becky com o cabelo bom”. Todos começaram a se perguntar: quem seria Becky (gíria para mulher branca)? Suposições a parte, nesta música ouvimos uma Beyoncé cansada das desculpas do seu marido. Durante o refrão, a ouvimos deixar claro que não está nem um pouco arrependida: “Desculpe, eu não estou arrependida / Eu não estou pensando em você”. Ela está com uma raiva reprimida, mas livre de qualquer preocupação referente a sua vida amorosa. Musicalmente, “Sorry” é uma das melhores e mais radio-friendly canções do álbum. Ela incorpora batidas saltitantes, inspiração caribenha e techno, um refrão sedutor e uma atraente melodia. É uma canção eletropop conduzida por tambores mid-tempo e uma produção global que merece aplausos. A estrutura da canção é muito interessante, uma vez que apresenta uma quebra da melodia principal próxima do seu final.

O seu conteúdo lírico é aberto a interpretações, mas também possui uma natureza reveladora, emoções cruas e uma entrega ligeiramente emotiva. A quinta faixa, “6 Inch”, é de longe uma das minhas canções favoritas do “Lemonade”. Além das letras serem poderosas, a faixa inclui uma amostra de “Walk On By” do cantor de soul Isaac Hayes. É uma música sinistra marcada pela presença apropriada de The Weeknd, uma vez que soa como uma canção do próprio. A sua atmosfera lembra os hits de The Weeknd, no entanto, a narrativa é tudo sobre Beyoncé. Não é algo tão íntimo ou pessoal como as outras faixas, entretanto, é brilhantemente bem executada. Aqui, Queen B está usando uma metáfora para simbolizar sua riqueza e poder. “Saltos de 15 centímetros / Ela chegou na balada sem se importar com ninguém”, letras como essas amplificam a emancipação feminina e poder das mulheres. Bey mostra que não precisa de um homem para ser uma mulher esforçada, poderosa e independente.

“Ela vai dar o seu melhor / Esperta demais para desejar bens materiais / Ela se esforça dia e noite / Ela trabalha duro de segunda à sexta / Trabalha de sexta à domingo”, ela canta fortemente. “6 Inch” é uma música de R&B alternativo glamourosa e sexy, além de conter uma vibração confiante, evocativa e erótica. É uma das canções mais sólidas do álbum, fortemente guiada por um baixo pulsante e uma batida estrondosa. Ela contém a mesma sensualidade do seu disco auto-intitulado e, provavelmente, uma das melhores pontes criadas por Beyoncé. “Daddy Lessons” é exatamente sobre as lições que Beyoncé aprendeu com o seu pai, enquanto crescia no Texas. A cantora fala do relacionamento de ambos e reflete sobre as diferentes coisas que ele a ensinou sobre a vida. “A garotinha do papai / E papai me fez um soldado / Papai me fez dançar / E papai segurou a minha mão”, ela canta. Beyoncé relembra a relação complexa que teve com seu pai Matthew Knowles, que também já foi seu empresário.

Essa faixa é uma verdadeira surpresa, pois mostra Beyoncé se reinventando e canalizando sua rica herança sulista. “Daddy Lessons” é uma canção country, com uma vibração bluesy, e até mesmo influência de bluegrass. Ela prova o quanto é versátil e surpreende ao explorar tão bem a música country. A produção é incrível, a começar pelo som brilhante dos instrumentos de metais. O dedilhado acústico da guitarra e alguns handclpas completam a bela interpretação de Beyoncé. Depois de apresentar letras dolorosas sobre traição, a cantora se vê curada pelo amor em “Love Drought”. Essa canção introduz a segunda metade do álbum e a leva em direção ao perdão. “Dez vezes de nove, sei que você está mentindo / Mas nove vezes de dez, sei que você está tentando / Então, estou tentando ser justa”, ela canta. Totalmente vulnerável, Bey fala sobre o seu relacionamento de forma desastrosa, mas tentando olhar para o lado bom de tudo isso.

“Pois você, você e eu poderíamos mover uma montanha / Você, você, você e eu poderíamos acabar com uma guerra”, ela murmura no refrão. Liricamente, essa faixa exibe uma maturidade notável e uma grande profundidade. “Love Drought” é mais uma pista de R&B alternativo, com uma performance vocal convincente e emocional. A produção, que ficou a cargo de Mike Dean, é muito sutil, discreta e encontra sua perfeição nos detalhes. É guiada por toques suaves, teclados cintilantes e uma percussão mais crua. A melodia é impulsionada por um sintetizador atmosférico e uma harmonização efervescente. A próxima faixa, “Sandcastles”, é a balada de piano que poderíamos esperar desse álbum. Em seu conteúdo lírico, a cantora examina as mentiras do seu marido e diserta sobre seu relacionamento instável. É uma canção crua e extremamente pessoal, onde Beyoncé usa um castelo de areia como metáfora para falar de sua vida amorosa.

“Construímos castelos de areia que foram levados pela água / Eu te fiz chorar quando fui embora / E mesmo que tenha prometido que não podia ficar, baby / Não é toda promessa que funciona assim”, ela canta dolorosamente. Essa música apresenta alguns dos vocais mais poderosos e emocionais de Beyoncé. No clímax da canção, a sua voz está ainda mais honesta, dolorosa e vulnerável. Ela mal se esforça para conseguir atingir notas perfeitas, carregadas de raiva, mágoa e angústia. “Sandcastles” é uma balada verdadeiramente comovente e apoiada simplesmente por um suave piano. A abordagem minimalista, despojada e letra reflexiva de Beyoncé realmente chamam atenção. As camadas vocais, por sua vez, ajudam a reforçar algo que já é impressionante. “Forward”, colaboração de Beyoncé com James Blake, dura apenas 79 segundos e funciona como um interlúdio. É algo muito pouco para ser considerado um verdadeiro dueto entre dois cantores talentosos.

Beyoncé

Seu conteúdo lírico parece uma continuação de “Sandcastles”, com linhas como: “Volte a dormir em seu lugar favorito ao meu lado / Para frente, para frente”. Mesmo que seja uma breve parceria, “Forward” mostra duas belas vozes juntas e não deixa de ser bem-vinda ao álbum. Os vocais de James Blake e o singelo piano dão uma sensação sombria e emocional para a canção. Seu vocal consegue capturar a incerteza das letras, da mesma forma que faz um belo par com Beyoncé. Seguindo adiante, temos “Freedom”, uma das faixas mais poderosas do repertório. É um hino afro-americano, onde Beyoncé aborda o estado atual do racismo no mundo. Ao lado de “Formation”, é a faixa mais politicamente carregada do registro. O rapper Kendrick Lamar auxilia nesta canção com um verso excepcional. É apropriado ele aparecer nesta música, considerando que a desigualdade social e a cultura negra tornou-se um grande conceito dentro de seus álbuns.

O verso dele dá um novo ritmo, encaixa-se de forma coesa e acrescenta uma camada dramática à música. “Sete declarações falsas sobre o meu caráter / Seis holofotes brilhando em minha direção / A polícia me perguntando o que tenho em meus bolsos”, ele recita ferozmente. “Freedom” é um hino para todos os negros e um verdadeiro protesto eufórico e atemporal. Ela faz um conexão com o movimento ativista Black Lives Matter e aborda a desigualdade de forma bem cativante. “Quebro as correntes sozinha / Não vou deixar minha liberdade queimar no inferno / Ei! Vou continuar correndo / Pois um vencedor nunca desiste de si mesmo”, Queen B proclama no refrão. A produção é outro ponto notável aqui. É uma fusão de hip-hop, blues, rock e soul, com um toque psicodélico e amostras de “Let Me Try” (Kaleidoscope). As potentes batidas, fornecidas pelo veterano Just Blaze, lhe dão um toque de modernidade e serve como uma bela plataforma para a interpretação de Beyoncé e Lamar.

“Freedom” termina simbolicamente com um verso recitado pela avó de Jay-Z, Hattie White. Sua fala, aparentemente, foi a inspiração para o título do álbum (“Eu tive meus altos e baixos / Mas eu sempre encontro a força interior para me ajudar / Me serviram limões, mas eu fiz uma limonada”). Letras que falam sobre amor, perdão e confiança, são o cenário perfeito para a radiante “All Night“. É talvez a primeira canção de amor verdadeiro no “Lemonade”, onde Beyoncé exalta sua intensa paixão por seu marido. É um número profundo, que lida com a dor do passado, mas com a esperança de um belo futuro. “Nosso amor era mais forte do que seu orgulho / Além de sua escuridão, sou sua luz / Se você se aprofundar, pode tocar minha mente”, ela canta. Liricamente, serve como uma conclusão perfeita para as narrativas e temas do álbum. “All Night” é uma balada mid-tempo, com uma produção complexa fornecida por Diplo e a própria Beyoncé.

É um hino tingido de reggae e com amostras de “SpottieOttieDopaliscious” do Outkast. Dedilhados de guitarra ecoam em sua base, enquanto trompas e cordas adicionais fornecem um pano de fundo. Além de um refrão crescente, é uma música que apresenta um dos vocais mais arejados de Beyoncé. A hesitação das letras e sua voz angelical torna tudo isso ainda mais tocante e glorioso. A última faixa do disco é “Formation”, canção apresentada pela primeira vez durante o intervalo do Super Bowl 50. Pode-se dizer que é a sua música mais politicamente carregada até a presente data. Aqui, Beyoncé aborda temas raciais, fala sobre suas raízes e rumores de sua conexão com os Illuminati. “Vocês, haters, passam vergonha com esse papo de Illuminati”, ela canta na linha de abertura. Mais tarde, ela fala sobre suas origens: “Meu pai é de Alabama, minha mãe de Louisiana / Você mistura esse negro com essa crioula / E faz uma Texana”.

Além de ser interpretado com bastante confiança, o conteúdo lírico de “Formation” é muito inspirador, positivo e construtivo. Versos como: “Eu gosto da minha pequena herdeira com cabelo de bebê / E cabelos de afros / Eu gosto do meu nariz negro com narinas Jackson Five” e “Dou meu máximo, sou negra / Eu sonho, eu trabalho duro / Eu me esforço até conseguir”, mostram todo o seu emponderamento feminino e orgulho por ser uma mulher negra. O fato de Beyoncé prestar homenagens às suas origens, fazem desta canção uma verdadeira celebração da cultura negra. Com grandes tensões raciais acontecendo nos Estados Unidos, é bom ver uma celebridade como Beyoncé contribuir e tentar conscientizar de alguma forma. Sonoramente, “Formation” também surpreende, pois apresenta um arranjo instrumental poderoso, uma forte melodia e batidas minimalistas. O instrumental marcha durante toda a música, enquanto Beyoncé ostenta orgulhosamente o seu poder feminino. O refrão é pegajoso, a batida principal é potente e o sulco muito cativante e sedutor.

Como um todo, “Lemonade” é o ápice da criatividade e inovação de Beyoncé, e um grande êxito para sua carreira. É o seu trabalho mais forte, seja estilisticamente, artisticamente ou sonoramente falando. Beyoncé o descreveu como “um projeto conceitual baseado na jornada de auto-conhecimento e cura de cada mulher”. Isso é retratado por ela de forma confessional, emocional e assertiva, no decorrer de 12 faixas. As letras, encharcadas por honestidade e diferentes emoções, são uma autêntica viagem pela vida da cantora. O núcleo do “Lemonade” é poderoso e eficiente, porque não deixa de ser incrivelmente universal. É impressionante a forma como esse álbum passeia por diferentes gêneros musicais e, ainda assim, permanece coeso. Aqui, a cantora caminha pelo pop, R&B, hip-hop, country, rock, blues e mostra toda sua versatilidade. Beyoncé é uma das artistas mais bem sucedidas e influentes de sua geração. Ela tornou-se um ícone moderno não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. “Lemonade” é apenas a coroação e afirmação do seu reinado na música pop.

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São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.