Resenha: Bat for Lashes – The Bride

Lançamento: 01/07/2016
Gênero: Pop Barroco, Art-Pop, Rock
Gravadora: Parlophone
Produtores: David Baron, Dan Carey, Ben Christophers, Simone Felice, Matt Hales, Head, Natasha Khan e Jacknife Lee.

Natasha Khan, mais conhecida pelo nome artístico Bat for Lashes, é uma cantora, compositora e multi-instrumentista inglesa. “The Bride” é o seu quarto álbum de estúdio, lançado pela Parlophone em 01 de julho de 2016. Foi produzido por Khan, com co-produção de David Baron, Dan Carey, Ben Christophers, Simone Felice, Matt Hales e Jacknife Lee. Uma década depois de “Fur and Gold”, Natasha Khan retorna com uma coleção de músicas que examinam a intimidade através do conceito de um casamento condenado. Khan apresenta-se como a noiva viúva na véspera da cerimônia, e incorpora o papel através de medos, raiva, tristeza, auto-descobertas, aceitação e esperança. É muito bom ver uma artista tão inovadora e criativa como Khan se aventurar por um álbum conceitual. No ano passado, ela interpretou canções folk iranianas e marroquinas em sua colaboração com Dan Carey e TOY.

Assim como David Bowie, ela é uma artista que costuma se aventurar por uma série de identidades. “The Bride” conta a história de um casamento que nunca aconteceu. O casal é separado antes do matrimônio, quando o noivo morre em um acidente de carro a caminho da igreja. A noiva, por sua vez, decola na lua de mel e viaja por um mundo de auto-reflexão. No papel, a história parece assombrosa e ruim, porém, Bat for Lashes é uma compositora hábil e explora o conceito de forma mágica e muito pessoal. “The Bride” é um álbum teatral e misterioso, com personagens detalhados e histórias interessantes. É um projeto que começa pelo romantismo, mas possui uma sequência sombria, a partir do momento que uma noiva se torna viúva em questão de instantes. Natasha Khan faz seu papel como compositora romântica, moderna e lunática, através de histórias realmente hipnóticas.

Bat for Lashes

As músicas capturam as sensações da noiva, como o entusiasmo pelo casamento, o luto pela perda e a auto-descoberta após todos os acontecimentos. Muitas vezes, as canções mais doces são aquelas que compartilham os pensamentos mais tristes. Sonoramente, “The Bride” é sonhador e explora o art-pop, pop barroco e o rock sob uma natureza solene e discreta. A primeira cena é definida em “I Do”, com a voz da noiva aparecendo cheia de promessas acima de um tremendo piano. É uma canção de amor lapidada por harpas e sons temáticos. “Amanhã, você vai me levar como sua noiva / E todo céu cinzento vai sumir / Com a eternidade que sinto dentro de mim / Quando você dizer ‘eu aceito'”, ela canta. “I Do” define o tom para a tristeza iminente que está por vir, através de um som bastante leve e esperançoso. A atmosfera muda rapidamente com “Joe’s Dream”, faixa onde o noive prevê sua morte.

As letras são melodramáticas, a partir do momento que a noiva começa a sentir que algo está errado. A música é anunciada através de vozes fantasmagóricas, uma máquina de tambor pulsante e uma forte guitarra. As três faixas seguintes, “In God’s House”, “Honeymoon Alone” e “Sunday Love”, são o auge do álbum. As três conseguem completar o fluxo da outra elegantemente. Em “In God’s House” a notícia de que seu noivo morreu ao volante no caminho para a igreja é contada. A voz de Khan permanece evocativa e equilibrada, conforme ela narra a história. Os sintetizadores são vibrantes e a linha de baixo, que acompanha os vocais, é intensa. As batidas eletrônicas ameaçadoras impulsionam ainda mais a história. Apesar da tragédia veicular, a noiva entra em um carro, dirige sob lágrimas e vai para a lua de mel sozinha, através de “Honeymoon Alone”.

Essa faixa é o arco mais dramático e desesperador, interpretada sobre um vocal inebriante e batidas de tambor triunfantes. É neste ponto que o álbum começa a se inclinar, quase que completamente, para as baladas. A partir de “Sunday Love” a profunda introspecção de Bat for Lashes começa. Essa canção move-se sobre uma batida eletro-pop, um refrão cristalino e vocais em falsete de arrepiar. É uma faixa pesada na bateria e com sintetizadores potencialmente poderosos. “Os pesadelos vêm e não vão embora / Pois o meu amor se foi / E nunca vou perdoar os anjos por aquilo”, ela canta tristemente em “Never Forgive the Angels”. Essa canção revisita o gosto de Natasha Khan pela estética de músicas da década de 60, enquanto a belíssima “If I Knew” usa um baixo escorregadio e, apropriadamente, nos faz lembrar de alguns trabalhos de Kate Bush. Seus vocais nesta faixa estão assustadores e poderosos, como poderíamos esperar.

Bat for Lashes

Algumas cordas ambiente, sintetizadores e uma batida de bumbo acompanham a faixa “Close Encounters”. Uma canção escura e sombria, que aborda a relação sexual ilusória que a personagem teve com um fantasma. Palavras assombrosas de Khan criam uma paisagem visual para a faixa “Widow’s Peak”. É número inteiramente falado que documenta a mudança de humor da personagem. Aqui, ela vagueia por um reino imaginário, recitando um poema. Em seguida, “Land’s End” invoca fantasticamente um desconforto, sob doces cordas e uma bela melodia vocal. Essa faixa permite o álbum fazer uma pausa na escuridão, para apresentar algo mais sonhador. Sob os mesmos sintetizadores galáticos de “Sunday Love”, “I Will Love Again” oferece uma fatia de modernidade sonora. Suas graves batidas são colocadas lado a lado aos vocais sinistros de Khan.

Por fim, a profundamente romântica “In Your Bed”, última faixa, é possivelmente a mais linda canção do álbum. Cada álbum de Bat for Lashes é teatral, conforme Natasha Khan cria personagens relacionados à música. A história por trás de “The Bride” transforma o que poderia ter sido várias baladas clichês, em uma experiência auditiva convincente. O álbum é teatral no tema escolhido, mas não necessariamente na composição. As palavras tem um grande poder, no entanto, muitas vezes, os vocais e instrumentos são discretos. As letras marcam uma progressão na história, mas ritmicamente eles se misturam de outra forma. “The Bride” é certamente o trabalho mais pessimista de Bat for Lashes, porém, ele também possui mensagens de esperança e força. É um álbum experimental muito bem executado, com músicas fortemente melódicas e belas.

76

Favorite Tracks: “I Do”, “In God’s House”, “Sunday Love”, “If I Knew” e “In Your Bed”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.