Resenha: BANKS – Goddess

Lançamento: 05/09/2014
Gênero: Eletrônica, R&B
Gravadora: Harvest Records
Produtores: Tim Anderson, Lil Silva, Justin Parker, Jesse Rogg, Shlohmo, Al Shux, Sohn, Totally Enormous, Extinct Dinosaurs e Jamie Woon.

A cantora californiana Jillian Rose Banks, conhecida simplesmente por Banks (muitas vezes estilizado como BANKS), lançou o seu álbum de estreia em setembro de 2014. “Goddess” é composto por um total de 14 faixas na sua versão padrão e foi lançado através da gravadora Harvest Records. Estreou em #12 na parada de álbuns da Billboard, ao vender 25 mil cópias nos Estados Unidos na primeira semana. Banks é uma artista em ascensão que aparece com letras sinceras, uma sonoridade eletrônica e um elegante R&B. Ela é uma boa aposta de sua gravadora, pois possui vocais cheios de emoção e fáceis de digerir. O conteúdo do seu primeiro disco é encharcado por uma solidão induzida pela fama e apresenta uma produção bastante variada. “Goddess” expõe muitas das inseguranças de Banks, como as falhas em seus relacionamentos, e mostra o quanto sua voz é sedutora.

Embora seja o seu álbum de estreia, a cantora já está há algum tempo no cenário musical. Em 2013 ela havia lançado dois EPs (“Fall Over” e “London”) e trabalhou como cantora de abertura da tour internacional de The Weeknd. “Goddess” segue uma tendência musical do começo dessa década, pois oferece letras confessionais e mal-humoradas, algo que artistas como Lorde, Lykke Li e Lana Del Rey fazem com frequência, e um R&B de ponta, igualmente ao de Tinashe, FKA twigs e seu amigo The Weeknd. Combinar tantos elementos familiares dessa forma poderia acabar soando um pouco genérico, principalmente quando esse sentimento é enfatizado por uma grande quantidade de baladas no piano. O álbum ainda inclui todas as canções que apareceram no seu EP “London”, o que acabou empurrando a sua duração para mais de uma hora e o deixando um pouco cansativo e desgastante.

BANKS

Felizmente, Banks é uma artista muito talentosa que, com base em suas inspirações, fez um bom trabalho e permitiu sua personalidade brilhar em diferentes momentos. O álbum começa de forma surpreendente com a faixa “Alibi”, uma canção rodeada por acordes de sintetizadores e uma percussão programada. É uma produção de Sohn, produtor que conseguiu oferecer uma batida eletrônica temperamental e boas bases para a entrega vocal da cantora. Aqui, Banks canta com uma culpa surpreendentemente auto-depreciativa: “Por favor, me dê algo para me convencer de que eu não sou um monstro”. Logo, já imaginamos o que esperar do conteúdo lírico do álbum: letras vindas de um coração aberto que está sangrando sobre páginas de notas rabiscadas. Uma pessoa desacreditada, introvertida e confusa. Suas letras parecem carregar um grande peso e são algo realmente simbólico para ela.

Na faixa-título, “Goddess”, a cantora mostra o quanto é decididamente e assumidamente feminista: “Agora você tem que lidar com esse peso no seu ombro / Fodendo com uma deusa e você fica um pouco mais frio”. Ela repreende um pretendente que se comporta mal diante de uma mulher (“Você a colocou para baixo, gosta dela sem esperança / Andando, se sentindo despercebida / Você deveria a ter coroado, porque ela é uma deusa”). A faixa “Waiting Games” reforça a ideia de que Banks é extremamente condizente com os sons eletrônicos mais obscuros. Uma canção quase em câmera lenta, que se mantém constante e ganha força com a inclusão de sintetizadores. Nessa balada, Banks flutua através de uma voz esganiçada, onde o seu único floreio são alguns vocais gospel ao fundo. “Stick” alivia alguns dos seus lamentos angustiados, oferecendo uma nova abordagem e um sutil balanço. Enquanto isso, em “Fuck ‘Em Only We Know”, ela praticamente sussurra o refrão como se estivesse com medo de deixar escapar os palavrões da letra, embora seja um faixa muito boa.

Em alguns momentos, a voz de Banks é mais aguda e com um timbre anasalado e, em outras vezes, é bastante sensual, como podemos ouvir na faixa “Brain”. Uma forte canção onde, em sua segunda metade, Banks canta com uma vontade raramente mostrada. “This Is What It Feels Like”, assinada por Jamie Woon e Lil Silva, soa perfeitamente confortável logo após “Brain”. Canção esta, que demonstra uma ótima inspiração R&B e é uma das que estavam presentes no EP “London”. A faixa seguinte, “You Should Know Where I’m Coming From”, é uma canção com um piano obscuro e marcada por uma grande honestidade. Banks compartilha coisas pessoais, dificuldades e intimidades com o público, ao apresentá-las como verdades nuas e cruas. Nas canções de Banks, o amor é uma compulsão desesperada, um vício brutal, uma chance de conforto, enfim, ela retrata todos os lados da história.

BANKS

Na faixa “Drowning”, por exemplo, a cantora aparece como uma mulher cada vez mais ressentida com a desonestidade do seu companheiro. Enquanto em “Change“, outra faixa que estava presente no seu último EP, ela a retrata como a mulher que sabe que seu namorado está a tratando injustamente. E, por causa disso, ela promete: “Eu vou mudar eu juro”. Aqui, temos uma mudança minimalista, onde ela parece bastante confiante de sua direção. A cativante “Beggin for Thread”, décima faixa, possui tambores alegres e um refrão melodioso. Apesar de sua letra desesperada, aqui há muitos momentos em que ela soa despretensiosa e charmosa. “Someone New” é uma boa e simples balada acompanhada de uma guitarra acústica, mas que soa um pouco fora do lugar. “Warm Water”, outro resquício do ano passado, é formada por uma boa simplicidade na letra e um refrão bem direto. “Under the Table”, por sua vez, fecha o álbum de forma consistente, por mostrar com propriedade a linhagem musical que a inspira.

“Goddess” é o refinamento de todas as expectativas iniciais em cima de Banks, com a cantora chegando exatamente onde ela se auto-afirma. Um material confiante e complexo, e uma estreia de destaque para uma das artistas mais promissoras dos últimos anos. As faixas do seu EP poderiam até ter ficado de fora, assim o álbum não teria ficado tão longo. Entretanto, de alguma forma, essas canções acabaram por completar o mistério que envolve a cantora. Com elas, o álbum parece estar mais completo e com lacunas preenchidas. Ou seja, o pacote final é um trabalho de uma pessoa muito talentosa, que tem capacidade de tocar corações com sua honestidade. O brilho, meticulosamente construído em cima de sua estética R&B, é um contraste que a faz parecer ainda mais intimista. Sua estreia é encantadora, diversificada e com um apelo universal. Parece que Banks conseguiu fazer jus ao hype que conseguiu para si.

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Favorite Tracks: “Alibi”, “Goddess”, “You Should Know Where I’m Coming From”, “Fuck Em Only We Know” e “Beggin for Thread”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.