Resenha: B.o.B – Ether

Lançamento: 12/05/2017
Gênero: Hip-Hop
Gravadora: No Genre / Grand Hustle Records / Empire Distribution
Produtores: B.o.B, 30 Roc e Jacque Beatz.

Autoconsciência é algo perceptível no “Ether”, visto que B.o.B explora algumas lutas pessoais. Embora os últimos projetos do rapper sejam as mixtapes “Psycadelik Thoughtz” (2015) e “Elements” (2016), “Ether” não soa como elas. Um som aparentemente decidido permite B.o.B se apresentar como um rapper que escreve sem restrições. Esse é o quarto álbum de estúdio do artista, um retorno após o lançamento do “Underground Luxury” (2013). “Ether” é principalmente um registro de rap, com alguns números interessantes em seu interior. Os fãs de hip-hop o conheceram como um letrista criado em Atlanta. Mas, ao contrário de nativos como T.I. e Ludacris, suas músicas não são feitas para os típicos clubes dos Estados Unidos. Da mesma forma, não são músicas do mesmo estilo de Lil Jon e, não emanam um som trap diferenciado como o de Young Jeezy ou Gucci Mane. Todos esses rappers citados, para efeito de comparação, são da Geórgia (estado onde B.o.B. nasceu e cresceu).

A mixtape “B.o.B vs. Bobby Ray” (2009) pavimentou a estrada para B.o.B chegar ao mainstream. Essa mixtape provou que artisticamente ele tinha algo para oferecer. Sem deixar suas raízes de lado, esse projeto permitiu uma transição suave para o seu álbum de estreia, “B.o.B Presents: The Adventures of Bobby Ray” (2010). “Nothin’ on You”, o primeiro single do álbum, foi um grande sucesso e trouxe características do seu colega Bruno Mars. Ainda mais surpreendente foi o hit “Airplanes”, com vocais de Hayley Williams da banda Paramore. Apesar da música ter sido impulsionada pelo rap, ficou claro que havia um desejo de transformar B.o.B num artista mais pop. Mesmo com singles de sucesso em seu currículo, depois de 2013 o rapper começou a perder o impulso. Nos últimos anos, ele passou a produzir mixtapes cheias de teorias e conspirações. Ele ainda entregou alguns bangers, mas sua mudança repentina de som fez ele seguir por outra direção artística.

Desde que ele assinou um grande acordo com a Atlantic Records, a sua carreira foi catapultada para o sucesso e teve reviravoltas inesperadas. Porém, “Ether” é o seu primeiro álbum lançado de forma independente, uma vez que a Atlantic Records não está mais envolvida. Sete anos depois de prosperar comercialmente com o seu LP de estreia, o rapper B.o.B está de volta. O repertório começa com “Fan Mail”, uma faixa que reflete sobre as críticas e julgamentos que B.o.B enfrentou em sua carreira. Em seguida, ele demonstra a sua confiança ao explorar a alienação em “E.T.”, uma parceria com Lil’ Wayne. Paranoia e autoconsciência são muito evidentes nesse álbum, como podemos notar na terceira faixa, “Middle Man / Mr. Mister”. Em “Peace Piece” com Big K.R.I.T., o rapper revisita a história e o passado dos negros nos Estados Unidos. A independência artística parece algo propício para o momento que ele está vivendo. O banger “4 Lit”, com assistência de T.I. e Ty Dolla $ign, não deixa de ser uma faixa cativante.

É uma canção característica de hip-hop que fala sobre noites e festas com mulheres. Tais temas são esperados em álbuns de hip-hop, mas acabou soando superficial no “Ether”. A segunda metade do álbum toma uma rota meio estranha, porém, sonoramente mais cativante. “Xantastic”, por exemplo, contém sintetizadores e uma leve bateria que dão à instrumentação uma qualidade muito precisa. Young Thug fornece uma interpretação meio excêntrica ao deslizar e rimar em torno da leve batida. O verso de B.o.B possui uma rota sombria, principalmente no final: “Eu continuo dizendo que eu vou parar / Mas todos os dias eu contradigo”. Assim como em “Substance Abuse”, essa linha reflete sobre o uso e dependência de drogas. A segunda parte do álbum realmente possui músicas mais animadas e temas superficiais. “Tweakin”, com Young Dro, possui um baixo profundo e letras que falam sobre beber em boates e baladas.

Young Dro oferece uma ótima performance, mas B.o.B, por outro lado, dedica-se a um verso cheio de conspirações que só ele conhece. “Tweakin” percorre de um jeito cativante, mas de repente, B.o.B inclina-se para outras coisas e mata a boa vibração da música. Entretanto, em “Avalanche” Bobby Ray mostra os seus sentimentos mais honestos. Ele volta a mergulhar em temas mais pessoais. Aqui, ele canta: “Eu tenho uma nova confissão / Eu luto com a depressão”. As letras mais íntimas contrasta bem com a batida energética, e acaba emitindo uma profundidade emocional. Ele fala sobre superar a maconha, álcool e outras drogas, e confronta a letra de “Substance Abuse”. Embora não seja sonicamente perfeita, “Avalanche” explora lutas contra a depressão e permite B.o.B mostrar sua honestidade lírica. “Ether” termina com “Big Kids”, canção que apresenta Cee Lo Green e Usher. Nessa música, B.o.B percebe que ele é frequentemente criticado por aqueles que o rodeiam.

Ao refletir em sua própria perspectiva pessimista, ele tenta inspirar os ouvintes a reavaliar os seus pontos de vista. É provavelmente a música mais pop, bonita e promissora do álbum. “Ether” não é um registro perfeito ou de grande qualidade. Muito pelo contrário, possui muitas falhas de edição e coesão. Não possui nenhum momento de inovação e pouquíssima criatividade sonora. B.o.B nunca mostrou ser um rapper poderoso ou com algum fluxo excitante. Além disso, esse álbum contém pensamentos excessivos sobre conspirações e deduções teóricas desinteressantes. Em contrapartida, “Ether” também revela um artista com conflitos internos e circunstâncias externas. Há faixas trap em potencial, comentários sociais e auto-reflexões em seu núcleo. Parece que B.o.B está procurando um equilíbrio dentro de si mesmo. Depois de ficar livre da posse de alguma gravadora, ele se permitiu recomeçar. Talvez, era isso mesmo que ele precisava para se reencontrar, artisticamente falando.

Favorite Tracks: “E.T. (feat. Lil’ Wayne)”, “Xantastic (feat. Young Thug)” e “Big Kids (feat. CeeLo Green & Usher)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.