Resenha: Avicii – Stories

Lançamento: 02/10/2015
Gênero: EDM, Dance-pop, House
Gravadora: Island Records
Produtores: Tim Bergling, Salem Al Fakir, Alex Ebert, Carl Falk, Kristoffer Fogelmark, Martin Garrix, Dhani Lennevald, Albin Nedler e Vincent Pontare.

Em 2015, os fanáticos por EDM esperavam ansiosamente pelo retorno de Avicii, após o seu grande sucesso com o álbum “TRUE”. O disco de estreia do DJ sueco lhe transformou em um dos DJs mais requisitados da atualidade, graças aos hits “Wake Me Up”, “Hey Brother” e “You Make Me”. “Stories” é o título do segundo trabalho dele e foi lançado em 02 de outubro de 2015 por meio da Island Records. O álbum foi produzido pelo próprio com auxílio adicional de nomes como Carl Falk e Martin Garrix. Quatro singles já foram lançados até o momento: “Waiting for Love”, “For a Better Day”, “Pure Grinding” e “Broken Arrows”. Em julho de 2014, Avicii disse à Rolling Stones que tinha trabalhado em cerca de 70 canções para seu próximo álbum, das quais incluíam colaborações com Jon Bon Jovi, Billie Joe Armstrong, Chris Martin, Wyclef Jean, Serj Tankian e Matisyahu. Se o “TRUE” tornou Avicii em um ícone do EDM, “Stories” pode ser considerado uma oferta muito mais crossover. É um trabalho mais lúdico, decididamente otimista e animado, e ao mesmo tempo expande o alcance sonoro do “TRUE”. Tal como acontece com “Wake Me Up”, aqui também há uma forte presença do country. Além disso, no decorrer de 14 faixas, Avicii mergulha de cabeça no house, reggae, rock, folk e hip-hop, enquanto o gênero dominante ainda é o dance-pop. É interessante ver a tamanha capacidade do DJ em caracterizar diferentes gêneros dentro do âmbito EDM. Mas, no geral, as pistas dance são, na verdade, onde encontramos as mais agradáveis surpresas no álbum.

A variedade de vocalistas creditados às músicas, certamente, é apreciado e agradável. Também devo salientar que se você procura um álbum que contém uma grande variedade de batidas, o “Stories” seria uma ótima opção. No entanto, ele não é tão forte liricamente como poderíamos imaginar. Um álbum que pretende contar histórias, não é tão inspirador quanto se pensa. De qualquer maneira, a julgar por suas letras, Avicii não deve estar tentando ramificar-se como um grande escritor. A diversidade e destreza do trabalho de Bergling resultou em um material que, embora não seja inovador, é sem dúvida agradável e divertido de se ouvir. “Waiting for Love”, primeiro single do álbum, produzida por Avicii em colaboração com o holandês Martin Garrix, abre o repertório. Ela traz vocais, sem créditos, de Simon Aldred, vocalista da Cherry Ghost. Antes de seu lançamento oficial, muitos pensavam que a música teria sido uma plena colaboração entre Garrix e Berling com vocais de John Legend. Depois de alguns vídeos e mensagens pelo Twitter, foi confirmada a colaboração, porém, com vocais confirmados de Simon Aldred. Mas é, tecnicamente, uma faixa solo de Avicii, visto que Martin Garrix só possui créditos na produção. O seu vídeo lyric transporta a sensação positiva da canção, onde mostra um cachorro atravessando campos de batalha em busca de seu proprietário que tinha ido lutar. Do mesmo modo, o vídeo oficial apresenta um senhor, que foi deixado por sua esposa, saindo atormentado de casa à sua procura. Ambos vídeos possui contos emocionais sobre o amor, bastante apropriado para a música como um todo.

Desde o início, “Waiting for Love” começa com riffs de piano e uma melodia otimista, antes de Simon Aldred introduzir seus melódicos vocais juntamente de uma pulsante batida de tambor. Ele fornece um vocal que parece de acordo com o gosto de Avicii, e a combinação atraente entre eles funcionou bem. Pouco tempo depois, o refrão é apresentado antes do primeiro interlúdio de Avicii acumular-se. Aldred estabelece para a música uma mensagem de esperança: “E se há amor nesta vida, não há obstáculos / Que não podem ser superados”. Enquanto no refrão ele dá uma sensação de vazio que anseia por ser preenchido: “A segunda-feira me deixou quebrado / Na terça, cansei de esperar / Na quarta, meus braços vazios se abriram”. Gozando de uma melodia contagiante, acordes infecciosos e riffs cativantes, essa faixa soa semelhante a um monte de canções que encontramos no “TRUE”. Também é uma canção muito comercial, com uma sonoridade e vocais andando em uma linha tênue entre o pop e o house progressivo. A canção acaba deixando qualquer um com uma sensação de euforia, Avicii parece ter um talento especial para isso. “Talk to Myself” é, particularmente, uma das canções mais fortes do registro e expande ainda mais a paleta sonora do sueco. Uma homenagem clara para Jellybean Benitez e seu trabalho na década de 1980 em algumas canções de Madonna. Nesta canção, temos uma fusão interessantíssima de violinos, cordas funky, bassline, sintetizadores, xilofone e grudentos vocais.

Seu ritmo e instrumentação acenam diretamente para a disco music da década de 80, mas incorporando elementos contemporâneos o suficiente para manter-se refrescante. “Touche Me”, terceira faixa, aparece no álbum em uma versão diferente do que Avicii vinha apresentando em suas performances. Uma canção EDM suave que faz uma incrível combinação de algumas progressões de piano, das quais o DJ já vinha mostrando em seus trabalhos anteriores. Além disso, temos a prenseça de uma doce linha de baixo, um forte sintetizador e uma batida mid-tempo. Mas, talvez, a verdadeira alma da música é o vocal feminino de influência gospel. Ao combiná-lo com o ótimo instrumental resultou em uma canção extremamente sólida. As próximas canções saltam de gênero para gênero, a começar pela balada folk intitulada “Ten More Days”. Uma inesperada canção delicada e um tanto quanto vulnerável, com uma produção mais sutil que o restante do repertório. “Mais dez dias debaixo d’água / E eu já sei que vou ficar bem / Mais dez dias até tudo acabar / Até a escuridão ir embora / E eu vou ver a luz”, assim a música inicia. As guitarras folk proeminentes na poderosa “Wake Me Up”, reaparecem aqui juntamente com assombrosos vocais. Quando esses vocais masculino atinge registros superiores, ele encontra um impulso bastante interessante. Tudo isso, adicionado a adequados intervalos e dubstep, dão uma sensação muito refinada e minimalista à música. A camada de efeitos sobre o forte teclado e os loops de bateria, também faz a canção atingir outro nível.

O single “For a Better Day”, quinta faixa, é uma exuberante balada contemporânea baseada em um som que permeou por todo o álbum “TRUE”. Uma canção house e dance-pop, que aborda um tema muito bacana e apresenta bons arranjos musicais. Ao longo de “For a Better Day” apenas um pandeiro e um poderoso piano serpenteiam, enquanto Alex Ebert encanta com sua voz cheia de tensão. Algumas palmas e pontapés programados também fazem aparições, enquanto a melodia ainda é sua maior força. Esta faixa também toca, levemente, em uma sensação mais soulful e a escrita é melhor do que eu esperaria que fosse. “E cantamos nossa canção para a pequena coisa / A magia chama, mas a alegria que você traz / É como um cantada / Mas queria que você descobrisse que o amor / É uma coisa frágil / A magia vem de uma coisa bonita / Talvez seja o momento / De um dia melhor”, Ebert canta no lindo refrão. “Broken Arrows”, quarto single oficial, combina os vocais de Zac Brown (vocalista da banda Zac Brown Band), com um grande baixo e cintilantes linhas de sintetizador. Assim como o single “Hey Brother”, do seu primeiro disco, essa é uma canção EDM/dance-pop com fortes elementos de música country. A introdução da canção apresenta um sintetizador analógico que imita, perfeitamente, o que uma guitarra country faria. A batida programada e o pandeiro, soam como perfeitos tambores, enquanto os vocais robustos de Zac Brown lembram os do cantor Kenny Rogers.

Aqueles que acompanham Avicii desde o início de sua carreira, irão certamente sentir um sentimento de nostalgia quando ouvirem a introdução de “True Believer”. Uma canção em que Tim Bergling se atreve a cantar o vocal principal, antes de Chris Martin entrar em cena e oferecer um suporte harmônico. Uma batida e um atmosférico sintetizador conduz a música, antes do vocalista do Coldplay colocar uma distorcida voz para fora. Enquanto o pré-refrão, com Chris Martin, é muito bom, a queda de texturas do sintetizador ofusca todos os vocais. Essa canção apresenta uma sonoridade dance tradicional e o sintetizador, por muitas vezes, lembra algo que o Prince & the Revolution utilizariam na década de 1980. Uma construção lenta, e um pouco longa demais, formada por uma amostra vocal picada e alguns tambores crocantes, abrem a sétima faixa: “City Lights”. É uma canção de house progressivo que estende-se por mais de seis minutos de duração e incorpora agradáveis sintetizadores, vocais celestiais e um padrão de arranjo simples. Conforme a música caminha, vozes femininas, emparelhadas com algumas harmonias, tanto acima como abaixo da melodia, tomam conta. Aqui, temos uma linha de baixo techno realmente firme e ressonante, que muda através de acordes e remove o senso de urgência que sentimos na maioria das outras faixas do álbum. Em seguida, temos uma orquestra cheia de sintetizadores, percussões, piano, bateria e vozes robóticas fazendo todo o serviço. É uma compilação de sons revigorantes, embora estendam-se por uma longa duração. 

A estranhamente intitulada, porém, agradável “Pure Grinding” foi escrita por Avicii, Kristoffer Fogelmark, Albin Nedler e Earl Johnson, e lançada como terceiro single do álbum. Ela também faz parte da trilha sonora oficial de 2015 do jogo Need for Speed. “Pure Grinding” é uma canção de funktronica com grande influência trap, que supreendeu a todos da melhor forma possível. Os seus sintetizadores analógicos são excelentes, assim como as progressões de acordes soam surpreendentes. A faixa cai em produção trap em grande parte do seu tempo, em vez de fazer um típico drop com sintetizadores pesados. Isso dá um toque muito especial e distinto à ela. “Sunset Jesus”, décima faixa, é definida por uma guitarra elétrica e conta com Gavin DeGraw nos vocais. Seu som é diferenciado, mas ainda assim é um house progressivo que não trai as raízes musicais de Avicii, como a maioria das outras faixas. Suas letras, basicamente, descrevem uma figura de Jesus como um desabrigado em Los Angeles: “Califórnia, não me decepcione / Parece tão dourado, mas há luta em tudo em volta / Pôr do sol Jesus, veio a mim / Ele já foi garçom, agora ele é um salvador / ganhando dinheiro na rua”. Musicalmente, essa faixa tem um pouco de gingado jazz, complementados por uma harmônica melodia e um bom refrão. Além disso, possui uma combinação poderosa de sintetizador, piano, guitarra elétrica e percussão acústica. É uma canção construída através de múltiplos instrumentos, em vez de apenas um mísero sintetizador ou linha de piano.

Isso adiciona várias texturas e contrastes à ela, algo que não vemos em todas as músicas do registro. “Can’t Catch Me”, por sua vez, é uma canção com vibe caribenha que conta com a participação de ninguém menos que Wyclef Jean. É uma faixa com vibrações reggae que, apesar de divertida, carece de uma identidade musical consistente. Ela é guiada por uma guitarra acústica desajeitada, vocais com alma de Wyclef Jean e letras que conseguem, até certo ponto, impressionar. Mas, uma canção que realmente chama atenção liricamente é “Somewhere in Stockholm”. Essa faixa dá um retrato bastante desolado a respeito da terra natal de Avicii: “Um lugar onde nós nunca compartilharmos abertamente as nossas emoções / Nós afogamos nossas dores em frascos sem fundo e os deixamos flutuar no oceano”. Os tambores marchantes e o canto expandindo-se por cima soam muito bacanas e funcionam em conjunto. Não é uma canção inovadora, no entanto, cumpre totalmente com o seu objetivo. A faixa mais curta do álbum, “Trouble”, depende quase que exclusivamente de um som acústico. É uma pausa bem-vinda, após dez faixas de domínio eletrônico. Essa canção, honestamente, lembra um pouco o hit “Wake Me Up”, graças a introdução de guitarra e progressão de acordes familiar. Os tambores não são tão pulsantes quando a repartição de house progressivo de “Wake Me Up”, entretanto, possuem uma sensação semelhante o suficiente para permitir comparações. Mas, de qualquer maneira, mesmo que seja uma reminiscência, “Trouble” é uma música que revela-se de uma forma distinta.

“Me perdendo apenas para me encontrar novamente / Eu sou um milhão de milhas de forma mais inteligente / Eu ainda não aprendi uma coisa”, alguns versos aqui são muito inspiradores e atingem um núcleo bem sensível. Suas letras possuem uma boa narrativa, enquanto o refrão é simplista e revigorante. A última faixa, “Gonna Love Ya”, é uma emocionante canção de tropical house com bons vocais filtrados em sua extremidade inferior. Além da variedade de técnicas vocais, ela possui uma boa percussão, tambor de aço e um sintetizador proeminente. Fecha o disco com um saldo bem positivo. Resumindo, tudo o que tenho a dizer sobre “Stories” é que é um álbum cativante. Um pouco básico, porém, muito cativante. Embora explore com propriedade outros gêneros, é um material muito fiel ao mercado EDM. A composição de cada faixa é um pouco estereotipada e preguiçosa, para ser honesto. Se você estiver esperando encontrar um som totalmente novo e com uma engenharia sonora inovadora, provavelmente irá se decepcionar. Por outro lado, se estiver a fim de ouvir um projeto dinâmico, divertido, jovial, estimulante e convidativo, o “Stories”, sem dúvida, vai suprir suas expectativas. Pois, de um modo geral, as histórias e produções de Avicii geraram um esforço artístico genuíno. A gama de colaboradores que o DJ recrutou, também foram capazes de acrescentar algo a mais. Por mais que você pense que essas colaborações não iriam funcionar, eles realmente fizeram a coisa acontecer. No geral, “Stories” tem faixas clássicas de Avicii, como “Waiting for Love” e “Trouble”, canções soulful e mais suaves como “Touch Me” e “For a Better Day” e surpresas agradáveis como “Talk to Myself” e “Ten More Days”.

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Favorite Tracks: “Waiting for Love”, “Talk to Myself”, “Touch Me”, Ten More Days” e “For a Better Day”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.

  • João Cortez

    Eu realmente achei esse disco de médio pra ruim, diferente do “true” que cada musica se tornou um ícone, esse dá a impressão de todas as faixas serem iguais, bem feijão com arroz, acho que o Tim pode ter errado a mão por está numa faze ruim de sua vida sem muita inspiração, espero que seja só uma faze mesmo e que logo mais lance algo digno do que conquistou em True.

    • Leo

      Concordo com você João! Sem dúvida, o “TRUE” é um disco de maior qualidade, mais coeso e ainda possui músicas bem marcantes. Como eu mencionei, o “Stories” é um álbum cativante, porém, muito básico. Ele não tem nenhuma música tão grande quanto “Wake Me Up” ou “Hey Brother”.