Review: Avicii – Stories (2015)

Lançamento: 02/10/2015
Gênero: EDM, Dance-pop, House
Gravadora: Island Records
Produtores: Tim Bergling, Salem Al Fakir, Alex Ebert, Carl Falk, Kristoffer Fogelmark, Martin Garrix, Dhani Lennevald, Albin Nedler e Vincent Pontare.

O “Stories” tem clássicas faixas do Avicii, além de números mais suaves e algumas surpresas agradáveis. As letras são uma boa razão para pensar que Avicii é um produtor versátil.

Em 2015, os fanáticos por EDM esperavam ansiosamente pelo retorno do Avicii, após o grande sucesso do álbum “TRUE” (2013). O disco de estreia do sueco lhe transformou em um dos DJs mais requisitados da atualidade, graças aos hits “Wake Me Up”, “Hey Brother” e “You Make Me”. Lançado em 02 de outubro de 2015 por meio da Island Records, “Stories” é o título do seu segundo álbum de estúdio. Ele foi produzido pelo próprio DJ com auxílio adicional de nomes como Carl Falk e Martin Garrix. Quatro singles já foram lançados até o momento, “Waiting for Love”, “For a Better Day”, “Pure Grinding” e “Broken Arrows”. Em julho de 2014, Avicii disse à revista Rolling Stones que tinha trabalhado em cerca de setenta canções para seu próximo álbum, das quais incluíam colaborações com Jon Bon Jovi, Billie Joe Armstrong, Chris Martin, Wyclef Jean, Serj Tankian e Matisyahu. Se o “TRUE” (2013) tornou Avicii em um ícone do EDM, “Stories” pode ser considerado uma oferta muito mais crossover. É um trabalho mais lúdico, decididamente otimista e animado, e ao mesmo tempo expande o alcance sonoro do “TRUE” (2013). Tal como acontece com “Wake Me Up”, aqui também há uma forte presença do country.

Além disso, Avicii mergulha de cabeça no house, reggae, rock, folk e hip-hop, enquanto o gênero dominante ainda é o dance-pop. É interessante ver a tamanha capacidade do DJ em caracterizar diferentes gêneros dentro do âmbito EDM. Mas no geral, as pistas dance são, na verdade, onde encontramos as mais agradáveis surpresas do álbum. A variedade de vocalistas creditados às músicas é, certamente, apreciado e agradável. Também devo salientar que se você procura um álbum que contém uma grande variedade de batidas, o “Stories” seria uma ótima opção. No entanto, ele não é tão forte liricamente como poderíamos imaginar. Um álbum que pretende contar histórias, não é tão inspirador quanto se pensa. De qualquer maneira, a julgar por suas letras, Avicii não deve estar tentando ramificar-se como um grande escritor. A diversidade e destreza do trabalho de Bergling resultou num material que, embora não seja inovador, é muito agradável e divertido de se ouvir. “Waiting for Love”, o primeiro single do álbum, foi produzida por Avicii em colaboração com o holandês Martin Garrix. Ela traz vocais sem créditos de Simon Aldred, vocalista da Cherry Ghost. Antes de seu lançamento, muitos pensavam que era uma colaboração entre Garrix e Berling com vocais de John Legend.

Depois de alguns vídeos e mensagens pelo Twitter, foi confirmada a colaboração, porém, com vocais confirmados de Simon Aldred. Mas é, tecnicamente, uma faixa solo de Avicii, visto que Martin Garrix só possui créditos na produção. O seu vídeo lyric transporta a sensação positiva da canção, onde mostra um cachorro atravessando campos de batalha em busca de seu proprietário que tinha ido lutar. Do mesmo modo, o vídeo oficial apresenta um senhor, que foi deixado por sua esposa, saindo atormentado de casa à sua procura. Ambos vídeos possuem contos emocionais sobre o amor, bastante apropriado para a música como um todo. Desde o início, “Waiting for Love” começa com riffs de piano e uma melodia otimista, antes de Simon Aldred introduzir seus melódicos vocais sob a pulsante batida de tambor. Ele fornece vocais que parecem de acordo com o gosto de Avicii, consequentemente a colaboração entre eles funcionou muito bem. Pouco tempo depois, o refrão é apresentado antes do primeiro interlúdio de Avicii acumular-se. Aldred estabelece para a música uma mensagem de esperança: “E se há amor nesta vida, não há obstáculos / Que não podem ser superados”.

Enquanto no refrão ele dá uma sensação de vazio que anseia por ser preenchido: “A segunda-feira me deixou quebrado / Na terça, cansei de esperar / Na quarta, meus braços vazios se abriram”. Gozando de uma melodia contagiante, acordes infecciosos e riffs cativantes, essa faixa soa imensamente semelhante ao “TRUE” (2013). Também é uma canção muito comercial que anda em uma linha tênue entre o pop e o house progressivo. Ademais, acaba deixando qualquer um com uma sensação de euforia, Avicii parece ter um talento especial para isso. “Talk to Myself” é, particularmente, uma das canções mais fortes do registro e expande ainda mais a paleta sonora do sueco. Uma homenagem clara para Jellybean Benitez e seu trabalho na década de 80 em algumas canções da Madonna. Nesta faixa, temos uma fusão interessantíssima de violinos, cordas funky, linha de baixo, sintetizadores, xilofone e grudentos vocais. Seu ritmo e instrumentação acenam diretamente para a disco-music da década de 80, mas incorporando elementos contemporâneos o suficiente para manter-se refrescante. A terceira faixa, “Touche Me”, aparece no álbum em uma versão diferente do que Avicii vinha apresentando em suas performances.

Uma canção EDM suave que faz uma incrível combinação com progressões de piano, das quais o DJ já vinha mostrando em seus trabalhos anteriores. Além disso, temos a presença de uma doce linha de baixo, um forte sintetizador e batida mid-tempo. Mas talvez a verdadeira alma da música é o vocal feminino de influência gospel. Ao combiná-lo com o ótimo instrumental resultou em uma canção extremamente sólida. As próximas canções saltam de gênero para gênero, a começar pela balada folk intitulada “Ten More Days”. Uma inesperada canção delicada e um tanto quanto vulnerável, com uma produção mais sutil que o restante do repertório. “Mais dez dias debaixo d’água / E eu já sei que vou ficar bem / Mais dez dias até tudo acabar / Até a escuridão ir embora / E eu vou ver a luz”, a música começa. As guitarras folk proeminentes da poderosa “Wake Me Up”, reaparecem aqui juntamente com assombrosos vocais. Quando esses vocais masculino atingem registros superiores, ele encontra um impulso bastante interessante. Tudo isso, adicionado a adequados intervalos e dubstep, dão uma sensação muito refinada e minimalista à música. A camada de efeitos sobre o forte teclado e os loops de bateria, também fazem a canção atingir outro nível. 

O single “For a Better Day” é uma balada exuberante e contemporânea baseada num som que permeou por todo o “TRUE” (2013). Uma canção house e dance-pop que aborda um tema muito bacana e apresenta bons arranjos musicais. Ao longo de “For a Better Day” apenas um pandeiro e um poderoso piano serpenteiam, enquanto Alex Ebert encanta com sua voz cheia de tensão. Algumas palmas e pontapés programados também fazem aparições, enquanto a melodia ainda é sua maior força. Esta faixa possui uma leve sensação soulful e a escrita é melhor do que eu esperaria que fosse. “E cantamos nossa canção para a pequena coisa / A magia chama, mas a alegria que você traz / É como um cantada / Mas queria que você descobrisse que o amor / É uma coisa frágil / A magia vem de uma coisa bonita / Talvez seja o momento / De um dia melhor”, Ebert canta no lindo refrão. “Broken Arrows” combina os vocais de Zac Brown, vocalista da banda Zac Brown Band, com um grande baixo e cintilantes linhas de sintetizador. Assim como o single “Hey Brother”, do seu primeiro disco, essa é uma canção EDM/dance-pop com fortes elementos de música country. A introdução da canção apresenta um sintetizador analógico que imita perfeitamente o que uma guitarra country faria. 

A batida programada e o pandeiro soam como perfeitos tambores, enquanto os vocais robustos de Zac Brown lembram os do cantor Kenny Rogers. Aqueles que acompanham Avicii desde o início de sua carreira, certamente irão sentir uma nostalgia quando ouvirem a introdução de “True Believer”. Uma canção em que Tim Bergling se atreve a cantar o vocal principal, antes de Chris Martin entrar em cena e oferecer um suporte harmônico. Uma batida e um atmosférico sintetizador conduz a música, antes do vocalista do Coldplay colocar uma distorcida voz para fora. Mas enquanto o pré-refrão é muito bom, a queda de texturas do sintetizador ofusca todos os vocais. Essa canção apresenta uma sonoridade dance tradicional e o sintetizador, por muitas vezes, lembra algo que o Prince & the Revolution utilizaram na década de 80. Uma construção lenta e um pouco longa demais, formada por uma amostra vocal picada e alguns tambores crocantes, abrem a sétima faixa, “City Lights”. É uma canção de house progressivo que estende-se por mais de seis minutos de duração e incorpora agradáveis sintetizadores, vocais celestiais e um arranjo simples. Conforme a música caminha, vozes femininas, emparelhadas com algumas harmonias, tanto acima como abaixo da melodia, tomam conta.

Aqui, temos uma linha de baixo techno realmente firme e ressonante, que muda através de acordes e remove o senso de urgência que sentimos na maioria das outras faixas do repertório. Em seguida, temos uma orquestra cheia de sintetizadores, percussões, piano, bateria e vozes robóticas fazendo todo o serviço. É uma compilação de sons revigorantes, embora estendam-se por uma longa duração. A estranhamente intitulada, porém, agradável “Pure Grinding” foi escrita por Avicii, Kristoffer Fogelmark, Albin Nedler e Earl Johnson, e lançada como terceiro single do álbum. “Pure Grinding” é uma canção de funktronica com grande influência do trap, que surpreendeu a todos da melhor forma possível. Os seus sintetizadores analógicos são excelentes, assim como as progressões de acordes soam surpreendentes. A faixa cai em produção trap em grande parte do seu tempo, em vez de fazer um típico drop com sintetizadores pesados. Isso dá um toque muito especial e distinto à ela. “Sunset Jesus” é definida por uma guitarra elétrica e conta com Gavin DeGraw nos vocais. Seu som é diferenciado, mas ainda é um house progressivo que não trai as raízes musicais do Avicii, como a maior parte do repertório.

Basicamente, as letras descrevem uma figura de Jesus como um desabrigado em Los Angeles: “Califórnia, não me decepcione / Parece tão dourado, mas há luta em tudo em volta / Pôr do sol Jesus, veio a mim / Ele já foi garçom, agora ele é um salvador / ganhando dinheiro na rua”. Musicalmente, essa faixa tem um pouco de gingado jazz, complementado por uma harmônica melodia e ótimo refrão. Além disso, possui uma combinação poderosa de sintetizador, piano, guitarra elétrica e percussão acústica. É uma canção construída através de múltiplos instrumentos, em vez de apenas um mísero sintetizador ou linha de piano. Isso adiciona várias texturas e contrastes à ela, algo que não vemos em todas as músicas do registro. “Can’t Catch Me”, por sua vez, é uma canção com ritmo caribenho com a participação de Wyclef Jean. Uma pista com vibrações reggae que, apesar de divertida, carece de uma identidade musical consistente. Ela é guiada por uma guitarra acústica desajeitada, vocais com alma de Wyclef Jean e letras que conseguem, até certo ponto, impressionar. Mas, uma canção que realmente chama atenção liricamente falando é “Somewhere in Stockholm”.

Essa faixa dá um retrato bastante desolado a respeito da terra natal de Avicii. “Um lugar onde nós nunca compartilharmos abertamente as nossas emoções / Nós afogamos nossas dores em frascos sem fundo e os deixamos flutuar no oceano”Os tambores marchantes e o canto expandindo-se por cima funcionam adequadamente em conjunto. Não é uma canção inovadora, no entanto, cumpre totalmente com o seu objetivo. A faixa mais curta do álbum, “Trouble”, depende quase que exclusivamente de um som acústico. É uma pausa bem-vinda, após dez canções de domínio eletrônico. Honestamente, ela me lembra um pouco de “Wake Me Up”, graças a introdução de guitarra e progressão de acordes familiar. Os tambores não são tão pulsantes quando a repartição de house progressivo de “Wake Me Up”, entretanto, possuem uma sensação semelhante o suficiente para permitir comparações. Mas, de qualquer maneira, mesmo que seja uma reminiscência, “Trouble” é uma música que revela-se de uma forma distinta. “Me perdendo apenas para me encontrar novamente / Eu sou um milhão de milhas de forma mais inteligente / Eu ainda não aprendi uma coisa”, alguns versos aqui são muito inspiradores e atingem um núcleo bem sensível.

Suas letras possuem uma boa narrativa, enquanto o refrão é simplista e revigorante. A última faixa, “Gonna Love Ya”, é uma emocionante canção de tropical-house com vocais filtrados em sua extremidade inferior. Além da variedade de técnicas vocais, ela possui uma boa percussão, tambor de aço e sintetizador proeminente. Fecha o disco com um saldo bem positivo. Resumindo, tudo o que tenho a dizer sobre o “Stories” é que é um álbum cativante. Um pouco básico, porém, muito cativante. Embora explore com propriedade outros gêneros, é um material muito fiel ao mercado EDM. A composição de cada faixa é um pouco estereotipada e preguiçosa, para ser honesto. Se você estiver esperando encontrar um som totalmente novo e com uma engenharia sonora inovadora, provavelmente irá se decepcionar. Por outro lado, se estiver a fim de ouvir um projeto dinâmico, divertido, jovial, estimulante e convidativo, o “Stories” sem dúvida vai suprir suas expectativas. De um modo geral, as histórias e produções de Avicii geraram um esforço artístico genuíno. Em suma, “Stories” tem faixas clássicas do Avicii, como “Waiting for Love” e “Trouble”, canções soulful e mais suaves, como “Touch Me” e “For a Better Day”, e surpresas agradáveis como “Talk to Myself” e “Ten More Days”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.