Resenha: Asher Roth – RetroHash

Lançamento: 22/04/2014
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: Federal Prism
Produtores: Blended Babies e Asher Roth.

O rapper americano Asher Roth lançou em 2014 o seu segundo álbum de estúdio, intitulado “RetroHash”. Produzido exclusivamente por ele e o duo Blended Babies, o disco conta com participações de ZZ Ward, Curren$y, Coyle Girelli, Vic Mensa, Major Myjah e Chuck Inglish. Até o momento, o álbum teve apenas dois singles, as canções “Tangerine Girl” e “Fast Life (feat. Vic Mensa)”, e estreou no número #45 nos Estados Unidos vendendo modestas 6.1 mil cópias na semana de seu lançamento. Tanto o disco como os singles não estão obtendo sucesso comercial, diferente do seu primeiro trabalho, o “Asleep in the Bread Aisle”, que segundo a Billboard já vendeu mais de 220 mil cópias em território americano. Para quem não conhece o Asher Roth, experimente escutar o hit “I Love College” lançado em 2009, uma canção cativante, simples e divertida. Porém, essa música é tudo o que Asher Roth não é hoje, e seu segundo álbum de estúdio, é a prova disso.

Com base em seus trabalhos anteriores, muitos esperavam algo muito mais enraizado pelo hip hop, no entanto, o disco possui elementos de vários outros gêneros musicais. À medida que o tempo passou, Asher Roth distanciou-se do som do seu primeiro álbum, deixou o cabelo crescer e se escondeu dos holofotes. Cinco anos, duas mixtapes, um EP e uma luta desgradável com sua gravadora: esse é o resumo da vida profissional do rapper durante os últimos anos. O “RetroHash” é um registro liberal, em sua criatividade e, no geral, tem uma vibe tranquila e uma boa produção. O álbum até consegue recapturar a essência despreocupada dos trabalhos anteriores de Asher, que também eram espirituosos e, muitas vezes, deliciosamente joviais. Alguns elementos fundamentais do estilo de Asher Roth ainda permanecem no disco, mas definitivamente o “RetroHash” estabelece um novo som em sua música. A produção é mais madura, isso não podemos negar, além de melódica, atenuada e minimalista.

A substituição das batidas comuns de hip hop, por acordes, ritmos e padrões de bateria, além de instrumentos melhores trabalhados, o tornou um material distinto de outros álbuns de hip hop. As suas batidas também dependem fortemente da guitarra, baixo e violão, uma plataforma que terminou por ser adequada para Asher mostrar suas habilidades líricas. As letras são dominadas por mensagens positivas e contém dentro de si uma sabedoria bem comunicada através de suas rimas. O som cria um estado de espírito, algo típico das produções de Blended Babies, e faz você perceber uma sensação mais reflexiva e introspectiva. Isso foi bom por permitir que as letras fluíssem e criassem uma melhor maneira de transmitir sua mensagem. Ele parece ter encontrado um local agradável dentro do mercado indie. A primeira faixa, “Parties at the Disco”, com ZZ Ward, temos o rapper tentando abalar a sua imagem equivocada de um garoto de fraternidade e apresentando-se de outra maneira.

Asher Roth (4)

A sua batida é aparentemente pesada e a melodia introdutória é bem aprazível. A linda voz de ZZ Ward complementou a música de uma boa maneira, enquanto Asher abre seu verso explicando como lida com o mundo quando se sente desconectado: “Cause the cash rules everything around / So, every now and then / Feeling like I’m out of town / Got a chill, sit down, remember how to be a child”“Dude” em colaboração com Curren$y, é sem dúvida um dos destaques, a mais autêntica música de hip-hop do álbum. O seu fluxo é muito interessante, onde ele oferece ao ouvinte uma visão humorística de sua vida. A produção traz uma faixa bem construída em torno de uma amostra de tambor furtivo e um contra-baixo. O verso de Curren$y proporciona um bom contraste ao som, e é tanto estilisticamente como vocalmente parecido com o de Roth. “Tangerine Girl”, o primeiro single, oferece uma letra cativante e um som bem divertido. Entretanto, sua produção como um todo pode ter deixado os fãs sentindo-se um pouco por fora. É a faixa mais comercial do disco, mas não é memorável o suficiente para atrair novos ouvintes.

Aqui, ele traz conotações psicodélicas e ecos hipnóticos, em uma vibe bastante experimental e progressiva. Acordes de guitarra e sinos adornam o instrumental, enquanto em alguns momentos Roth canta, o que foi uma surpresa. “Pull It” tem um ritmo lento e apresenta, novamente, o canto de Asher Roth. Suas harmonias iniciais criam um inescapável primeiro verso sobre viver com arrependimentos (“One finger in the air just like this / One finger in the air and I’m gon’ pull it / Yes Im gon’ pull it, yell, I will pull it / yes, I’m gon’ pull it, yes, I will pull”). É uma faixa intrigante, que ainda muda de fluxo por volta dos 2 minutos. “Something for Nothing”, com Coyle Girelli, é suave e fria, assim como o restante do álbum, além de ser acompanhada por uma guitarra reminiscente do funky oitentista. É incrível a forma como Roth consegue ser rápido ou devagar quando quer e como consegue mudar o seu fluxo, facilmente, para se adequar a batida. A narrativa apresentada é vaga, e poderia ser vista de diferentes formas, visto que é aberta à interpretações.

Asher Roth (3)

“Fast Life”, por sua vez, é a surpresa temática do disco, advertindo adolescentes sobre a rapidez que a vida passa e as consequências de más escolhas. Mas apesar do tema, tem uma vibe alegre e conta com a participação do rapper Vic Mensa. É uma boa canção, com lirismo potente, uma forte presença do convidado, vocalizações bem utilizadas no refrão e boa produção. “Last of the Flohicans”, com participação de Major Myjah, é a melhor música do álbum ao lado de “Dude”. Possui um riff de guitarra pegajoso, uma produção polida, um som limpo, além de um ótimo refrão e, provavelmente, o melhor fluxo de Roth no álbum. Em seguida, Major Myjah permanece a bordo para também participar da próxima faixa, “Be Right”. Juntamente com o passeio de uma batida alegre e uma produção global, Asher Roth presta homenagem e até ridiculariza a si mesmo. Ele fala sobre sua mudança para Atlanta e o começo de sua carreira como rapper. “Pot of Gold”, outra canção com a vibração fria proposta para o álbum, é menos orientada liricamente e estranhamente inebriante.

Com apenas o uso de um verso, sobre objetivos a serem alcançados, Roth canta seu próprio gancho para acompanhar o forte fluxo de seus versos (“Surfing on the waves, million dollar boats / Really want to stay, but I gotta go / Searching for the pot of gold”). “Keep Smoking”, com o rapper Chuck Inglish, é a última faixa do álbum, no entanto, não foi uma boa escolha para encerrar o registro. É uma das canções mais fracas e esquecíveis, com versos decepcionantes sendo quase sussurrados. Asher Roth já chegou a ser comparado com o Eminem quando surgiu em 2009, mas esse novo material, diferente do seu primeiro, usa tons psicodélicos e foca mais em uma própria reinvenção. O álbum é divertido, mas por ser experimental pode decepcionar aqueles que já estavam acostumados com o estilo presente nas suas mixtapes. O “RetroHash” tem ideias confusas e possui algumas falhas, porém, também tem momentos brilhantes que demonstram uma possibilidade de moldar a carreira de Roth.

Como de costume, ele cospe alguns fluxos interessantes, mas faz isso usando positividade e humor. Cada música do álbum vem com uma assinatura nova dele. Mesmo que o rapper tenha mantido seu fluxo suave durante quase todo repertório, ele adotou um novo estilo nas melodias. Embora não seja um disco incrível, é um passo na direção certa. É um momento de triunfo, um tempo para descobrir o que funciona e o que não funciona para ele. A capacidade de Roth para criar um álbum ainda é escassa e há algumas faixas de enchimento presentes. É um disco que pode não funcionar em todos os sentidos, mas por outro lado, é bom ver ele fazendo o que quer, correndo riscos e tentando coisas novas. No geral, apesar de ser extremamente discreto, “RetroHash” é um álbum sólido. Não é um disco de rap padrão, por qualquer meio, e sofreu vários anos de atrasos, mas certamente é um material que abrange novos caminhos, do ponto de vista musical, bem como promove a progressão de sua carreira.

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Favorite Tracks: “Dude (feat. Curren$y)” e “Last of the Flohicans (feat. Major Myjah)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.