Resenha: Ashanti – Braveheart

Lançamento: 04/03/2014
Gênero: R&B
Gravadora: E1 Music / Written Entertainment
Produtores: Ashanti, Yusuf Sef Millz Alexander, Detail, DJ Clue, L.T. Hutton, Rico Love, Sharif Slater, Jaramye Daniels, Timothy Bullock, E-Bass, Drone e Mista Raja Greene.

Já se passaram 12 anos desde que Ashanti lançou o seu primeiro disco auto-intitulado e vencedor do Grammy na categoria Best Contemporary R&B Album. Ano passado ela lançou o seu quinto álbum de estúdio, com 13 suaves faixas de R&B, batidas pré-programadas, sintetizadores e um vocal agradável. “Braveheart” teve três singles: “Never Should Have”, “I Got It (feat. Rick Ross)” e “Early In the Morning (feat. Frech Montana)”, mas nenhum desses conseguiram entrar na parada de singles dos Estados Unidos. Depois de 6 anos do seu último lançamento, Ashanti lançou “Braveheart” e estreou em #10 lugar na Billboard 200, com aproximadamente 28 mil cópias vendidas em sua primeira semana. Sua carreira, antigamente, era muito mais promissora do que tem sido nos últimos anos. Há muito tempo ela não tem um hit considerável nos Estados Unidos, como sua canção “Foolish”, que permaneceu em #1 na Billboard Hot 100 por 10 semanas em 2002. Ashanti concorria em popularidade com uma boa leva de cantoras de R&B no começo da última década.

Ao lado de Brandy, Aaliyah, Mary J. Blige, Mýa, Alicia Keys, as Destiny’s Child e Janet Jackson, ela tinha músicas tocadas constantemente nas rádios americanas. “Braveheart” é o seu primeiro álbum lançado por seu próprio selo, Written Entertainment, e também o primeiro sem a direção de Gotti. O disco chega depois de alguns anos de falsas previsões de lançamento, período onde Ashanti gravou cerca de 60 músicas e lançou alguns singles. Foi uma luta para ela lançar o álbum sem qualquer planejamento estratégico e uma forte liderança. Em uma entrevista para a Billboard, a cantora revelou que as músicas variam em um par de anos e meses em sua criação, e vêm de um “lugar vulnerável e sincero”. Ela é uma cantora e compositora veterana na indústria, com um catálogo cheio de canções de sucesso e com alguma história. Talvez esse seja um dos motivos pelo qual muitos esperam que ela volte a fazer músicas tão boas como as lançadas há mais de uma década. Entretanto, assim como o “The Declaration” de 2008, o “Braveheart” possui um repertório bem fraco. As faixas não são necessariamente ruins em si, mas são todas tão comuns e esquecíveis, que não despertam atenção.

Na maioria das faixas Ashanti canta sobre o amar, amores perdidos, corações partidos, amantes desprezados, enfim, não há muita originalidade em termos líricos no álbum. São canções que você poderia encontrar em qualquer álbum de R&B por aí. O disco não possui nada de espetacular ou inovador, em termos de produção, mas três ou quatro músicas conseguem ser agradáveis. Depois de uma “Intro”, de quase dois minutos e com efeitos sonoros de cavalos, Ashanti começa o disco cantando “Braveheart”, a faixa-título. Essa possui alguns fracos sintetizadores e um refrão irritante e repetitivo, onde ela fala inúmeras vezes a palavra “braveheart”. Ao invés de Ashanti capitalizar sobre o que falou na “Intro”, ela toma outra direção e canta sobre um amante desagradável. Ela afirmou que para este trabalho, havia se inspirado na história de William Wallace e sua luta contra os vastos exércitos da Inglaterra. Paralelamente, ela narra a sua luta contra a influência de grandes gravadoras para ainda produzir um produto de sucesso, agora que é uma artista independente. Mas, não foi uma boa forma de começar o álbum de seu retorno. Felizmente, “No Where” é muito melhor, pois contém uma melodia totalmente contagiante e uma composição vulnerável.

Ashanti

Ela promete ao seu homem, que não importa os obstáculos enfrentados, ela não vai desisitr dele (“And I ain’t gonna sleep until I see your face / Even though I’m mad / I’ma fix your plate / And ain’t no other man that can take your place / Believe me”). Sonoramente, “No Where” é uma mid-tempo R&B sólida onde a cantora mostra, vocalmente, um pouco mais de coragem e nuances. “Runaway” continua a coerência da faixa anterior, entregando outro número muito agradável. É definida em um tom menor e um som urbano ostensivo e escuro, que nos faz lembrar de Mary J. Blige, pois é praticamente uma reminiscência do soul e hip-hop que a cantora fazia no começo da carreira. Eu realmente gostei muito de “Runaway” em termos de harmonia e som, enquanto na letra ela percebe que é hora de arrumar suas coisas e deixar para trás um namorado que quebrou o seu coração. Em “Count”, produzida por Detail, Ashanti fornece um twerk com vocais distorcidos e uma repetição muito parecida com “Birthday Cake” de Rihanna. Um R&B com uma borda moderna e um enigmático refrão: “Baby don’t make me / count, count…count”. “Early in the Morning” é outra que consegue cativar, com versos bem estruturados e participação de Frech Montana.

Embora careça de uma profundidade lírica, possui um bom ritmo e um tom mais sedutor. É uma canção suave e intimista, que soa quase idêntica as músicas de Future. Logo depois, Ashanti vai e volta, entre o “eu te amo” e o “eu te odeio” na descartável “3 Words”. É uma música que soa familiar, com um refrão repetitivo e uma enorme falta de conteúdo e significado lírico. Em “Love Games” a cantora recebe outra assistência, desta vez de Jeremih, que combinou bem com a voz de Ashanti. Não é tão crua como as outras faixas, mas também é um exagero dizer que é uma ótima canção. A letra é tudo sobre amor e sensualidade, enquanto a produção é boa e a química vocal interessante. Em seguida, o álbum faz uma transição de volta para a parte amarga das relações, com a faixa “Scars”. Essa é uma canção triste, com uma batida up-tempo, que conta uma história de dor e pesar, sobre um amor que deu errado e deixou cicatrizes. Aparentemente, as letras referem-se ao seu rompimento amoroso com o rapper Nelly. Há um pouco mais de profundidade emocional nessa música, no entanto, ficou muito extensa, com quase 6 minutos de duração.

Ashanti

Uma faixa de destaque é a emotiva “Never Should Have”, que mostra Ashanti desafiante em cima de uma melodia indelével e um grandioso refrão. Com um vocal suave e uma ligeira sensação pop, “Never Should Have” olha para os perigos subjacentes de doar o seu amor para alguém que não está preparado para um relacionamento (“You never should’ve loved me, you never should’ve touched me / You never should’ve told me you loved me and you would never leave me”). “She Can’t”, décima faixa, é uma canção arrogante, onde Ashanti deixa perfeitamente claro para o seu homem que ele não vai encontrar outra mulher como ela (“She can’t love, she can’t touch you like, oh / She won’t ‘cause she won’t fuck you like, oh / She ain’t got a body like mine / Face like mine / The brain not like mine”). Musicalmente, é muito fraca, sem graça e deveria ter ficado de fora do álbum. Ashanti não consegue empregar algo atraente, para compensar suas deficiências vocais nessa canção.

Chegando quase no fim do álbum temos “Don’t Tell Me No”, onde ela demonstra que pode lidar com outras texturas como o EDM. Suas batidas balbuciantes são bacanas e criam um sentido eficaz e preciso, enquanto Ashanti canta sobre querer reaviver um amor fracassado – “I still look in your eyes and I can tell that you want it / Baby, don’t tell me no / Give me what I’m lookin’ for”. Os vocais adicionais de James Fauntleroy, durante o refrão, ficaram muito bem colocados. Em “I Got It” a cantora e o rapper Rick Ross ostentam em sintonia durante um número de hip hop, que como um todo, é ligeiramente esquecível. Rick Ross, sem surpresas, deixa cair uma linha que fala sobre dinheiro, enquanto se gaba de todas as coisas luxuosas que pode dar para a sua mulher. Em seguida, a voz de Ashanti funciona bem com a produção reggae e dancehall de “First Real Love”, uma colaboração com Beenie Man. É maníaca, triunfante e parecida, no geral, com o resto do disco. Em sua maior parte, Beenie Man domina a música e traz um sabor jamaicano para a mesma. Acabou soando muito melhor do que o previsto e uma ótima maneira de encerrar o repertório.

A faixa de encerramento da edição padrão é “First Real Love”, mas não posso deixar de mencionar a sublime “Perfect So Far”, que está presente apenas como faixa bônus do iTunes. É claramente uma das melhores canções do álbum, sendo incompreensível entender porque ela não foi incluída em sua versão padrão. A outra faixa bônus é a canção, lançada anteriormente, “Never Too Far Away”, uma contribuição de Ashanti para a trilha sonora do filme Dream House. Basicamente, “Braveheart” representa apenas um passo de Ashanti em sua carreira como artista independente, em vez de uma tentativa de voltar para os holofotes. Em um contexto geral, é um bom álbum de R&B, porém, com muitos clichês românticos, onde ela canta sobre indecisões e alusões à infidelidade, e com poucos momentos verdadeiramente interessantes durante 13 faixas. Ashanti ainda continua explorando sua sensualidade, cantando de forma sexy, no entanto, o disco ficou muito morno e sem nada inovador. Outro grande problema foi que, apesar de ser coeso, o álbum não sai nem um pouco da zona de conforto dela, o que acabou se tornando um trabalho muito previsível.

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Favorite Tracks: “Runaway”, “Early In the Morning (feat. French Montana)”, “Never Should Have” e “Don’t Tell Me No”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.