Resenha: Arcade Fire – Everything Now

Lançamento: 28/07/2017
Gênero: Dance-Rock
Gravadora: Sonovox / Columbia Records
Produtores: Arcade Fire, Thomas Bangalter, Geoff Barrow, Markus Dravs, Eric Heigle e Steve Mackley.

Formado em 2001 em Montreal, Canadá, Arcade Fire chegou a proeminência ao lançar o aclamado “Funeral” (2004). Três discos depois, eles passaram a exibir uma forte experimentação de sons e usar um grande arsenal de instrumentos musicais. Arcade Fire mais parece um movimento musical do que uma banda tradicional. Eles costumam escrever músicas épicas por trás de um som magistral. Os temas da banda geralmente são fundamentados em temas como religião, subúrbio, consumismo, mídia e perda. Não importa qual estilo tenha assumido, Arcade Fire sempre teve algo a dizer. Ao longo de sua carreira, a banda ganhou uma fã-base muito fiel e grande aclamação da crítica. Com o seu quinto álbum de estúdio, “Everything Now”, Arcade Fire duplicou o som do “Reflektor” (2013). Desta vez, o grupo parece estar tentando reconstruir a década de 80. Enquanto este álbum pegou todos de surpresa por seu som eletrônico, ele é inundado por sintetizadores, bateria disco e linhas de baixo funky. O narcisismo, tecnologia, ansiedade, paranoia e outras referências à vida moderna são os principais temas do álbum. Cheio de elementos mais eletrônicos do que nunca, a banda está empurrando-se para novos territórios sonoros.

Tornando-se um pouco repetitivo e longo demais, “Everything Now” possui alguns dos seus melhores singles, enquanto tropeça em determinados momentos. Inicialmente, o álbum parece atingir um grande poder com a gloriosa faixa-título. Entretanto, a banda decide experimentar muito estilos e, em alguns momentos, parece sem foco. O primeiro single, “Everything Now”, é basicamente uma canção de dance-rock. Mas essa não é a primeira vez que a banda lança algo tão dançante. Afinal, em seu álbum anterior, eles nos fizeram dançar com a faixa-título, “Reflektor”. Começando com um belo piano, Arcade Fire apresenta um sulco disco oitentista incrível e amostras de “The Coffee Cola Song” (Francis Bebey). Comparações com o ABBA são inevitáveis, afinal possui elementos muito reminiscentes deles. A banda canalizou algumas vibrações do quarteto sueco, através de melodias de grande efeito. Felizmente, o sabor disco de “Everything Now” não compromete as sensibilidades alternativas da banda. É uma música alegre e luxuosa, com cordas mágicas e harmonias de R&B. Assim como “Reflektor”, esse novo single possui uma produção quase impecável. Além de toques de flauta e violão, que lembram a banda Talking Heads, “Everything Now” ainda fornece toques disco globais.

Win Butler não decepciona nos vocais e soa excepcional. Ele fornece uma performance muito respeitável e intacta, enquanto é auxiliado por vocais ao fundo que parecem ter saído de alguma discoteca dos anos 70. O uso de guitarras rítmicas foi uma escolha brilhante e apropriada, pois mantém uma vibração acústica e folk lado a lado com o sulco dançante. Mas, sem dúvida, o melhor recurso de “Everything Now” é o piano, algo que justamente lembra o ABBA. Liricamente, a música trata de questões como o consumismo, com Butler cantando: “Cada centímetro de espaço na sua cabeça / Está preenchido com as coisas que você lê / Eu acho que você tem tudo agora”. Seguindo por uma veia familiar, “Signs of Life” é um número funk que parece um retrocesso da década de 70. Guiada pelo baixo e batidas disco, com saxofone, trompa e ótimas nuances, esta canção é inegavelmente cativante e infecciosa. O synthpop “Creature Comfort” fornece algumas batidas pesadas e graves eletrônicos. Aqui, o tom sombrio combinou bem com as letras sobre suicídio e dá à música um peso mais intenso. “Peter Pan” desloca-se para tons de reggae com a presença do baixo e sintetizador. É o mais próximo que temos de alguma música clássica do Arcade Fire.

Se a produção não fosse tão moderna, muitos poderiam considerá-la o destaque do repertório. Enfeitada por uma seção de trompa, “Chemistry” é uma faixa com influências de ska. À medida que as trompas, graves pesados, tambores, guitarras distorcidas e harmonias aparecem, a faixa assume uma mantra divertida e bastante peculiar. “Infinite Content” é uma faixa rápida, cheia de estranhas distorções e arranjos de cordas. Arcade Fire torna-se frenético, envolvente e melódico nesta faixa, que ainda é emparelhada com uma versão acústica intitulada “Infinite_Content”. Com seus fortes tambores, “Electric Blue” proporciona um bom contraste com os vocais de Régine Chassagne. Voltando aos tons de disco, as guitarras, linha de baixo e falsetes dançam ao longo de um sulco atraente. Colocando o baixo e a guitarra sobre algo mais sombrio, “Good God Damn” olha para algo espiritual. Além do humor elegante, esta faixa possui um dos melhores sintetizadores do álbum. Com influências dos anos 70, “Put Your Money on Me” fornece tons eletrônicos e uma maior densidade sonora. Em alguns momentos podemos notar uma certa inspiração no ABBA e Tame Impala, além de possuir um refrão alegre e algumas boas cordas.

A balada “We Don’t Deserve Love” provoca uma atmosfera relaxada, mas possui uma certa energia no refrão. O teclado cria uma vibração perturbadora que complementa as letras, enquanto a produção trabalha com sons de synth-rock. Por fim, Arcade Fire encerra o álbum com os tons inspiradores da continuação da faixa-título, nomeada “Everything Now (Continued)”. O primeiro álbum do Arcade Fire, “Funeral”, ainda destaca-se como um dos melhores discos de estreia de todos os tempos. Conforme os anos foram passando, a banda manteve o excelente conjunto nos próximos três álbuns. Obviamente, não há nada de errado com o Arcade Fire querer mudar o seu som, é algo que o tempo obriga. E, de qualquer forma, é difícil imaginar o que a banda poderia ter criado depois de ter aperfeiçoado o seu som no “The Suburbs” (2010). Embora haja falhas em “Everything Now”, é um registro coeso e rigoroso. O lançamento deste álbum não vai prejudicar o catálogo da banda como tantos ouvintes sugerem. Alguns podem achar que a banda está numa queda criativa, mas “Everything Now” não deixa de oferecer uma boa produção e ótimo desempenho. Apesar de não conseguir atingir a reputação do “Funeral”, “Neon Bible” ou “The Suburbs”, é um álbum adorável.

Favorite Tracks: “Everything Now”, “Signs of Life” e “Chemistry”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.