Resenha: ANOHNI – Hopelessness

Lançamento: 06/05/2016
Gênero: Eletropop, Synthpop, Experimental
Gravadora: Rough Trade
Produtores: Anohni, Hudson Mohawke, Oneohtrix Point Never e Paul Corley.

“Hopelessness” é o primeiro álbum solo de ANOHNI, anteriormente conhecida como Antony Hegarty, vocalista da banda Antony and the Johnsons. É uma cantora e compositora inglesa, que reside nos Estados Unidos desde a adolescência. Em 2016, ela tornou-se a segunda pessoa abertamente transgênero a ser nomeado ao Oscar. Trabalhar sozinha, em vez de ter apoio de sua banda, é sempre diferente para qualquer artista. Seu primeiro disco solo assume uma perspectiva espantosa, pois é descaradamente politico, auto-reflexivo, irônico e pessimista. O repertório aborda temas como guerras, ecocídio, governo e vigilância, em um estado emocional, melancólico e raivoso. Anohni explora as letras de forma autêntica e aborda questões sociais de frente, sem cair em um melodrama piegas ou sem graça. “Hopelessness” é um álbum eletropop com uma natureza protestante totalmente condizente com os dias de hoje.

Com apoio de nomes como Hudson Mohawke, Oneohtrix Point Never e Paul Corley, Anohni mergulha em algumas questões problemáticas da sociedade. Apesar de tomar uma direção eletrônica, o álbum ainda é semelhante ao material apresentado em Antony and the Johnsons. Afinal, possui a mesma intensidade, tons melancólicos, arranjos de cordas, bem como os vocais emocionalmente carregados. Seu alcance vocal é o elemento que dá a beleza necessária para suas mensagens. A capacidade em retratar a dor através de sua voz é notável. A produção, por sua vez, mistura tambores expansivos, com sintetizadores amplificados e um som eletrônico de grande impacto. Resumidamente, “Hopelessness” é igualmente belo e assustador. A faixa de abertura, “Drone Bomb Me”, estabelece o seu tema de forma muito direta e, imediatamente, decreta o tom para o resto do álbum.

Essa música foi escrita a partir da perspectiva de uma jovem afegã, cuja família foi morta por ataques aéreos dirigidos à sua aldeia. O refrão apoiado por um carrilhão de sintetizadores é o ápice da música. A percussão e os ruídos atmosféricos caminham entre os versos e adicionam uma sensação mágica à música. A entrega vocal de Anohni é nada menos que sublime. Da mesma forma, “4 DEGREES” fala sobre a pesquisa assustadora que prevê um aumento de 4 graus na temperatura do planeta até o ano de 2100. A canção explora abertamente o aquecimento global e as possíveis alterações climáticas. “Eu quero ouvir os cães clamando por água / Eu quero ver peixes ir de barriga para cima no mar / Todos esses lêmures e todas essas pequenas criaturas / Eu quero vê-los queimar, é apenas 4 graus”, ela canta hipoteticamente.

Anohni

É gratificante ver uma cantora contemporânea envolver-se conscientemente com as mudanças climáticas e retratar isso em sua música. “4 DEGREES” é uma das faixas mais grandiosas do registro, tanto musicalmente quanto liricamente. Ela é introduzida e impulsionada por uma excelente percussão e sintetizadores apaixonantes. Trompas cooperam para empurrar sua voz em direção as letras aterrorizantes. O poder emocional de sua voz e a orquestra magistral são unidas, a fim de proporcionar uma experiência auditiva incrivelmente encantadora. “Watch Me” é outro grande destaque do registro, uma faixa perfeitamente executada e inquietante. Aqui, Anohni canta com ironia, afirmando: “Eu sei que você me ama / Porque você está sempre me observando”. De forma sarcástica, ela aborda a relação predatória entre a vigilância do governo e os cidadãos.

O refrão é excepcionalmente cativante, enquanto o conteúdo é controverso e polêmico. É essencialmente uma faixa synthpop, com um grande valor de produção, apoiada por maravilhosos sintetizadores oitentistas. Ela utiliza o máximo de vibrações da década de 80, através de uma sintética produção. Em seguida, a cantora aborda a pena de morte em “Execution”. O título por si só, não deixa qualquer espaço para outras suposições. É outra canção perturbadora, cheia de poderosas melodias e sintetizadores cristalinos, que proporcionam uma escuta brilhantemente agradável. Em “I Don’t Love You Anymore” temos uma mulher apaixonada, culpada e rejeitada, que prefere ficar completamente sozinha. Assombrosos órgãos de igreja constroem a atmosfera temperamental e obscura dessa música. É uma faixa vocalmente emotiva e uma das poucas do álbum que não é politicamente carregada.

A sexta faixa, “Obama”, é minimalista e fala sobre as falhas do atual presidente dos Estados Unidos. A canção é liricamente surpreendente e um dos momentos mais desafiadores do registro. “Quando foram eleitos / O mundo chorou de alegria / Agora a notícia é que você está espionando / A execução sem julgamento”, ela entoa com um tom alterado. Aqui, Anohni canta num registro mais profundo e sem vida, para transmitir seu descontentamento. Sem qualquer variação tonal nos vocais, ela canta sobre sintetizadores, teclas de piano e uma batida trap. Semelhante a faixa anterior, “Violent Men” é tematicamente abstrata e refrigerada. É uma canção guiada por sinos, ruídos, vocais distorcidos e letras repetitivas. É o número mais curto do registro, com pouco mais de 2 minutos de duração. Definitivamente, é uma das canções mais experimentais e minimalistas do álbum.

Anohni

“Não quero o teu futuro / Nunca voltarei a casa / Não quero o teu futuro / Nascerei antes de tu nasceres”, ela canta em “Why Did You Separate Me from the Earth?”. A partir de linhas como essas, você percebe que Anohni não está feliz com a humanidade. Na escuridão dessa música, encontramos uma beleza sonora. As batidas, sintetizadores, instrumentos de metais e as cordas adicionais são intensas. O fraseado vocal de Anohni, por sua vez, traz à mente o tema constante de desesperança. A faixa seguinte, “Crisis”, é um dos maiores destaques do registro. Sua letra e o tom de voz de Anohni estão num estado completamente vulnerável. Enquanto sua entrega é genuína, ela esconde traços de raiva e ironia em cima de letras como: “Se eu matasse seus filhos / Com uma bomba / Como você se sentiria?”.

É uma canção menos conflituosa, porém, tristemente franca. Uma balada ambiente, com um tom delicado e agridoce. É sonoramente um número sombrio, que lista algumas das atrocidades que acontecem no mundo. A faixa-título, “Hopelessness”, é outra peça interessante onde Anohni aborda questões de grande alcance no mundo. Esta canção fala sobre as futilidades que crescem em torno da sociedade. A cantora se mostra frustrada com a falta de ação coletiva e o egoísmo, comparando a humanidade a uma doença. O final da canção é propositalmente interrompida, enquanto ela canta: “Desesperança, desesperança”. O álbum termina com “Marrow”, um protesto global com a perspectiva de que “somos todos americanos agora”. É uma canção enganosamente bonita, com letras sinistras que resumem a temática do álbum.

Sonoramente, a música apresenta um piano agudo, blips de sintetizador, lisas batidas e a parte mais superior do seu alcance vocal. “Hopelessness” não é um álbum perfeito, mas é um material incessante e com um bom propósito. O que Anohni fez com este projeto foi incrível, pois ofereceu uma coleção genuína e politicamente consciente. A produção, como seria de se esperar, é excelente e fornece um palco para Anohni brilhar. Entre ritmos sinistros, sintetizadores contundentes e melodias assombrosas, ainda temos um lirismo provocativo e surpreendente. Em outras palavras, “Hopelessness” é um disco autêntico, refrescante, intenso, profundo e convincente. Como primeiro projeto solo de Anohni, o álbum tem suas falhas. Mas, analisando todos os seus riscos, é um disco muito bem sucedido.

80

Favorite Tracks: “Drone Bomb Me”, “4 DEGREES”, “Watch Me”, “Execution” e “Crisis”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.