Resenha: alt-J – This Is All Yours

Lançamento: 22/09/2014
Gênero: Indie Rock, Eletrônica, Rock Experimental
Gravadora: Infectious Records
Produtores: Charlie Andrew.

Alt-J é uma banda de indie rock formada em 2007 na Inglaterra, por Gwil Sainsbury (guitarra/baixo), Joe Newman (vocais/guitarra), Gus Unger-Hamilton (teclados/vocais) e Thom Green (bateria). Eles nasceram na era da internet e, inicialmente, fizeram de sua imagem algo tão complexo quanto suas canções. O seu álbum de estreia, “An Awesome Wave” foi lançado em 2012, alcançou um grande sucesso no Reino Unido e chegou a vender mais de 300 mil cópias. No início de 2014 Gwil Sainsbury saiu amigavelmente da banda e vem sendo substituído nos shows por Cameron Knight. “This Is All Yours”, por sua vez, é o segundo álbum de estúdio deles e foi lançado em 22 de setembro de 2014 através da Infectious Records. A banda começou a gravá-lo em abril de 2014 no Iguana Studios, mesmo lugar do disco anterior. Esse é outro álbum brilhantemente charmoso que decola do ponto exato onde o “An Awesome Wave” parou. É um trabalho muito mais introspectivo, que aprofunda-se ainda mais no talento do grupo. É silencioso, suave e sedutor, enquanto frequentemente fornece sólidos tambores e épicas camadas de instrumentais.

Além disso a macia e adorável voz de Joe Newman ainda continua sendo uns dos principais focos do repertório. Mesmo com todo o seu ecletismo, alt-J é uma banda que tem uma fórmula confiável. No núcleo de quase todas as músicas, melodias são escolhidas habilmente e executadas através de guitarras e teclados, enquanto harmonias vocais sobem e descem eficazmente. Não importa o quão estranho são seus arranjos, eles surpreendentemente encaixa-se bem, ao passo que a instrumentação mantém-se alternativa e os vocais, muitas vezes, esquisitos. Tudo isso são complementos que deixam a banda ainda mais interessante. Para começar o álbum a banda optou, novamente, pela inclusão de uma complexo “Intro”, que fornece uma experiência maravilhosa de harmonias vocais, em grande parte sem palavras ou letras indecifráveis, mas sim com vários “la la las” e outros lamentos sem sentido. Suas vozes são apoiadas por sintetizadores suaves e esparsos tambores, mas acabam por transformarem-se em verdadeiros instrumentos. As camadas nessa introdução não definem um tom para o restante do álbum, mas flui de uma forma muito íntima para a segunda canção, intitulada “Arrival in Nara”.

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Essa faixa refere-se à cidade japonesa de mesmo nome e seu parque público no centro onde cervos vagueiam livremente. A sua metáfora visual não é difícil de analisar: na estrutura do urbano encontra-se o deserto inexplicável e angular, e de que esses dois não são tão divergentes como todos são levados a acreditar. Ela utiliza-se de uma bela melodia de piano e de uma guitarra delicada para tentar passar a sensação de liberdade criativa do álbum e da metáfora em questão. “Nara”, terceira faixa, da mesma forma que a anterior, segue o ciclo de vagar pela região do Japão conhecida por seus cervos selvagens. Aqui, começamos a ouvir um arranjo muito mais completo, com pianos perpendiculares e guitarras escuras sobre sinos e órgãos de igreja. O registro parece começar extra-oficialmente nesta canção, com vocais mais firmes e onde Newman canta frases como: “O amor é um faraó, e na minha frente / Eu pensei que ele seja onde ele quer ser / O amor é um faraó e ele me desossa / Eu descobri um homem como nenhum outro homem”. Em seguida, esse estado de espírito muda drasticamente em “Every Other Freckle”, um dos numerosos pontos de articulação do álbum, proporcionado por gritos tribais e uma repartição de flauta medieval.

Essa canção mostra a banda no seu mais liricamente provocante, com algumas metáforas sexuais que dizem: “Vou deitar em você como um gato deita em um saco de feijão / Virar você do avesso para te lamber como um pacote de batata frita”. Essas linhas cantadas por Newman representam exatamente o som bizarro que o alt-J costuma fazer com uma facilidade aparente. Além de solos de flauta e eufemismos alucinantes, há uma invenção rica por trás de algumas outras faixas. O blues rock “Left Hand Free”, por exemplo, mesmo com todas as suas realidades cruas ainda é um ponto alto, pois fornece rápidos vocais e fortes tambores. Uma música que não deixa de evocar conotações excitantes, particularmente desde que a banda revelou que ela foi escrita exclusivamente para ser lançada como single. É talvez a canção mais óbvia do registro, com riffs que parecem carregar o alt-J para as rádios alternativas, com uma estrutura comum e um tempo de execução pequeno que sugere um imediatismo dentro do catálogo da banda. É inegavelmente uma faixa muito cativante, com Joe Newman permanecendo como personagem central, um frontmam estranhamente fascinante, cujo tenor é tanto suave quanto estranho.

Nos vocais de apoio a presença do tecladista Gus Unger-Hamilton também foi fundamental, ainda mais por ele desempenhar um papel importante na organização da música. Sua formação clássica e o uso de contrapontos harmônicos, adicionados a um nível de sofisticação, deu uma camada vocal e textura extra interessante para a mesma. Canto de passarinhos aparecem logo em seguida na faixa “Garden of England”. Esse é um simpático interlúdio, com pouco mais de 1 minuto de duração, que entrega um curioso som barroco de flautas. “Choice Kingdom”, sétima faixa, possui um ambiente calmo, sereno, movido por linhas de sintetizador e uma guitarra acústica. Não é um grande destaque, mas não deixa de ser um belo número que ainda entrega falsetes interessantes do vocalista Joe Newman. Já o primeiro single, “Hunger of the Pine”, apresenta inesperadamente sample da música “4×4” de Miley Cyrus. Inicialmente, Thom Green, baterista da banda, havia produzido um remix da música, e incorporou a amostra vocal da cantora quando percebeu que soava legal quando colocada junta da guitarra de Newman. Eles fizeram uso das palavras “I’m a female rebel”, ao passo que a letra total sugere, principalmente, a ideia de que falta alguém, ou seja, é direcionada à saída de Gwil Sainsbury da banda.

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A música começa com ondulações eletrônicas e, mais tarde, apresenta uma pequena orquestração juntamente de uma batida triste e bizarra. Conforme avança a voz intrusiva de Miley Cyrus surge e, por incrível que pareça, tece perfeitamente a sua batida e aos vocais suavemente pensativos de Newman. É uma bonita, desarticulada, delicada e audaciosa balada, que nunca explode e se mantém ameaçadora o tempo todo. Na faixa “Warm Foothills”, um número belo e melancólico, alt-J interage com os convidados Marika Hackman, Conor Oberst e Lianne La Havas. É uma das canções mais impressionantes e agradáveis do álbum, uma cantiga simples com vocais graciosos, assobios e belas harmonias. A segunda metade do álbum fica cada vez mais estranha, impressionista e interessante, conforme avança. “The Gospel of John Hurt”, por exemplo, é um hino com batidas pesadas, elementos folk e que faz complexas referências. Já a décima primeira canção, “Pusher”, é basicamente apenas vocal e guitarra acústica, algo que não é típico do alt-J. É uma balada despojada, que apesar de parecer fora do lugar, nos dá a chance de ouvir de uma forma mais crua a voz inconfundível de Joe Newman.

“Bloodflood, pt. II”, penúltima canção, é uma continuação da faixa de mesmo nome presente no disco anterior da banda. Uma música poderosa, construída através de uma ótima combinção entre trompas, um brilhante piano e esparsos arranjos. A beleza e riqueza da sua instrumentação é incrível, uma verdadeira expansão do talento da banda. “Leaving Nara” fecha o álbum e o ciclo das faixas que falam sobre Nara, província japonesa. Seu som é melancólico e retorna para as vibrações sentidas nas primeiras canções do registro. Para uma banda cujo comparações com o Radiohead vieram cedo demais, o alt-J até que conseguiu escapar do destino de serem taxados de cópias e perseguirem suas próprias ideias e sons. Nesse processo, eles criaram um tipo raro de álbum que consegue ser ao mesmo tempo familiar e desorientador, uma experiência cinematográfica que permanece expansivamente despretensiosa. Tudo isso, juntamente com a voz elástica do vocalista Joe Newman, foi a maior arma deles no “This Is All Yours”. Por mais que o álbum sinta-se deslocado e inseguro em alguns momentos, eles não deixaram de ser uma banda que faz tudo com a máxima precisão. No geral, esse disco foi um enorme passo na direção certa para eles e só irá cimentar ainda mais seu legado que já é grande dentro do cenário indie rock.

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Favorite Tracks: “Nara”, “Left Hand Free”, “Hunger of the Pine”, “Warm Foothills” e “Bloodflood, pt. II”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.