Resenha: Alicia Keys – Here

Lançamento: 04/11/2016
Gênero: R&B, Soul, Hip-Hop
Gravadora: RCA Records
Produtores: Alicia Keys, Swizz Beatz, Erika Rose Santoro, Mark Batson, Illangelo, Jimmy Napes, Pharrell Williams e Harold Lilly.

Alicia Keys surgiu na indústria da música com seu álbum de estreia “Songs in A Minor”, que rendeu à ela 5 Grammy Awards. Desde então, ela já lançou 6 álbuns de estúdio e faturou um total de 15 prêmios Grammy. Conhecida por misturar momentos de jazz, com toques de neo-soul e uma dose de hip-hop com o seu charmoso R&B, Alicia Keys construiu uma grande carreira. Com esse pensamento, seu sexto disco, intitulado “Here”, tenta transmitir uma forte mensagem. Muito parecido com sua postura recente contra o uso de maquiagem, “Here” aborda questões nas bases. É um disco menos politicamente carregado do que o “A Seat at the Table” de Solange Knowles, entretanto, ainda possui temas muito consistentes. Não há como negar que nesse álbum, Alicia Keys parece mais confortável e confiante do que no seu disco anterior. “Here” é uma coleção de canções com alma, construídas por ritmos intensos e descontraídos.

A cantora ramificou-se para temas como mudança climática, direitos dos homossexuais e emponderamento feminino, tudo em consonância com a sua recente imagem livre de maquiagem. O disco permanece moderno, enquanto explora faixas com temas socialmente conscientes. É um projeto que encaixa-se bem no turbulento ano de 2016 e toda a sua luta sócio-política. “Here” começa com um interlúdio com palavras faladas chamado “The Beginning”. Emocionais teclas de piano apresentam uma força poderosa e poética. “Eu sou o mistério do que está dentro os cabos dos auto-falantes / Sou Nina Simone no parque e Harlem no escuro”, Keys afirma. Esse interlúdio nos leva rapidamente para o hip-hop de “The Gospel”. Ela começa suavemente antes de construir um fluxo cheio de confiança. Seu marido, Swizz Beatz, empresta todo o seu talento para produção desta faixa. Uma canção que mantém as teclas de piano juntamente com um pesado tambor.

Em vez de seus habituais vocais soulful, em “The Gospel” Alicia Keys opta por um rap bastante poético. Uma forte sensação jazz e um instrumental groovy são, posteriormente, canalizados em “Pawn It All”. Uma canção motivacional que consegue permanecer cativante, mesmo falando duras verdades. Com palavras da ex-presidente do Partido das Panteras Negras, Elaine Brown, Alicia Keys prepara o ouvinte para a próxima faixa, “Kill Your Mama”. Dando um assentimento a personagens femininas, a cantora pede perdão às mães ao reconhecer os sacrifícios delas para colocar suas crianças no caminho certo. A postura acústica desta canção fornece uma grande crueza ao repertório. Keys canta poderosamente sobre uma guitarra acústica, que soa ligeiramente folk. A sexta faixa é a estranhamente intitulada “She Don’t Really Care_1 Luv”, onde Alicia Keys colabora com o músico de jazz Roy Ayers. Além disso, Q-Tip e Ali Shaheed Muhammad do grupo A Tribe Called Quest também emprestam seus talentos para a escrita.

Nenhuma outra faixa do álbum mostra melhor as habilidades de lirismo e conexão com o hip-hop de Alicia Keys. O solo de xilofone e os vocais masculinos também foram adições interessantes. Lições de vida é um tema recorrente no interlúdio “Elevate”, onde Keys trouxe uma conversa sobre educação. A próxima faixa, “Illusion of Bliss”, usa todo o potencial vocal de Alicia Keys dentro de um ritmo poderoso. Sua produção é escassa, mas perfeita para a cantora mostrar o seu lado soulful e bluesy que vimos no álbum “The Diary of Alicia Keys”. Na instrumentação temos órgãos debaixo de vocais quase torturados, além de uma contundente e espaçosa batida de tambor. Ademais, temos uma linha de baixo muito limpa e pianos carregando a canção em direção ao seu final. Lançada anteriormente como single, o R&B de “Blended Family (What You Do for Love)” possui uma maior vibe mainstream. É uma ode aos enteados de Alicia Keys, com a presença do rapper A$AP Rocky.

Acusticamente guiada por uma guitarra, baixo e uma boa batida, a canção fala docemente sobre o amor não haver fronteiras. Enquanto “Work on It” também fala sobre família, especificamente sobre o marido da cantora, o interlúdio “Cocoa Butter” é um trecho de uma conversa onde homens falam sobre estrias. É um olhar interessante sobre a insegurança corporal. “Girl Can’t Be Herself”, por sua vez, é sobre a decisão aberta de Keys em renunciar a maquiagem. É bom ouvir uma artista falar sobre isso com tal propriedade, num mundo tão rigidamente obcecado em ver as mulheres embelezadas de uma forma específica. A décima quarta faixa, “More Than We Know”, exorta o ouvinte a dar um abraço na humanidade e a envolver-se. Keys tem estado num período diferente nos últimos anos e, ao lançar-se em questões sociais e políticas, provou que as pessoas podem fazer algo a mais para o bem de todos. Em seguida, “Where Do We Begin Now” explora o relacionamento de pessoas do mesmo sexo.

A cantora percorre os sentimentos de estar apaixonada por alguém do mesmo sexo, equilibrando tudo com mensagens otimistas. É bom ver uma cantora do porte de Alicia Keys assumindo uma postura positiva perante os homossexuais. A despojada, calma e poderosa “Holy War” encerra o álbum lindamente. Uma canção onde Alicia Keys, ao lado de um violão e uma potente batida de tambor, fala sobre guerras e como os humanos ficaram entorpecidos pelas atrocidades que acontecem todos os dias no mundo. Alicia Keys está em um ponto de sua carreira onde ela pode fazer o que quiser. Aqui, ela juntou um som musicalmente refinado para criar um repertório que flui agradavelmente bem. Interlúdios foram interligados entre sulcos pesados, e tornaram a escuta mais suave. Há elementos ásperos em seu vocais, mas a entrega comprometida e produção ficaram adequadas. É um registro que tem muito a dizer se for dada a devida atenção. Com “Here”, Alicia Keys conseguiu certamente manter seu lugar na realeza contemporânea do R&B.

Favorite Tracks: “Illusion of Bliss”, “Blended Family (What You Do for Love) [feat. A$AP Rocky]” e “Holy War”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.