Resenha: A$AP Ferg – Always Strive and Prosper

Lançamento: 22/04/2016
Gênero: Hip-Hop, Rap
Gravadora: RCA Records
Produtores: A$AP Ferg, Bryan Leach, Geno Sims, DJ Khalil, Clams Casino, Skrillex, DH Mustard, Stelios Phili, Todd Bee, Lex Luger, Honorable C. N.O.T.E., Cashmere Cat, Lido, VERYRVRE, TM88, Stargate, No I.D. e Jordan Lewis.

Darold Ferguson, Jr., mais conhecido por A$AP Ferg, impressionou os fãs de rap em 2013, quando lançou o seu inesperado álbum de estreia. Intitulado “Trap Lord”, o disco é cativante, divertido, coeso e foi muito bem recebido pela crítica. Com este registro ele criou um mundo sonoro criativo, cheio de fortes batidas e sintetizadores ameaçadores. Além de trabalhar em carreira solo, Ferg também é membro do grupo de hip-hop A$AP Mob. Em 22 de abril de 2016, ele lançou o “Always Strive and Prosper”, o seu segundo álbum de estúdio. Entre os produtores do registro, temos nomes de peso, como Skrillex, DJ Mustard, No I.D. e Mike Will Made-It. Com um total de 18 faixas e 47 minutos de duração, o álbum possui elementos muito parecidos com o “Trap Lord”. Embora possua alguns enchimentos, como as desnecessárias esquetes, é um registro intimamente contemplativo, que explora as vulnerabilidades do rapper como músico, filho e namorado.

É um álbum versátil que marca uma nova direção lírica, graças às letras mais pessoais. A$AP Ferg é um artista que consegue alterar a sua capacidade lírica com facilidade. “Always Strive and Prosper” é bom porque consegue ter um pouco de tudo, desde trap, EDM até um clássico hip-hop. “Rebirth”, a primeira faixa, mostra um pouco da mudança que A$AP Ferg conseguiu ao longo dos três últimos anos. Aqui, o rapper é introspectivo, consciente e reflexivo ao analisar perigos que a fama oferece. É uma pequena faixa que pode ser vista como uma rápida introdução. Em seguida, temos a faixa “Hungry Ham”, com Skrillex e Crystal Caines, que serve como uma ode à Nova York, cidade natal de A$AP Ferg. Nesta faixa encontramos uma batida eletrônica up-tempo de Skrillex, enquanto Ferg fala sobre suas lutas no bairro de Harlem. Musicalmente, a canção é uma mistura confusa do estilo dos três artistas. Ela possui batidas nervosas, uma vibração energética, vocais repetitivos ao fundo, zumbidos irritantes e um estranho refrão.

Infelizmente, o fluxo de Ferg soa desarticulado e a produção é muito aquém do esperado. Sua colaboração com Missy Elliott vem em seguida, uma das poucas faixas de grande apelo comercial. Intitulada “Strive”, a canção vê Ferg combinando seu rap com uma batida groovy, vagamente reminiscente do dance britânico. É, provavelmente, a batida mais pop que Ferg já ofereceu, algo muito diferente do seu habitual hip-hop obscuro. Acompanhado por um forte piano, o rapper tenta oferecer uma mensagem motivacional: “Você pode ser você hoje / Pode ser que você esta noite / Sei que você está se sentindo realmente grande”. Não há nada de errado com um artista tentar algo de novo, mas, essa tentativa de A$AP Ferg, parece estranhamente fora do lugar nesse álbum. Depois da esquete “Meet My Crazy Uncle (Skit)”, a quinta faixa, “Psycho”, traz uma grande mudança de tom para o registro. O título refere-se ao apelido dado ao tio rebelde de Ferg.

A$AP Ferg

É uma canção que vê o rapper sendo, auto-consciente, extremamente introspectivo e refletindo sobre o passado. O instrumental, intensificado por uma batida escura, foi produzido por DJ Khalil e Clams Casino. O seu ritmo, tom e fluxo são mais lentos e suaves que os das três primeiras faixas. “Let It Bang”, com ScHoolboy Q, traz um pouco de nostalgia ao lado de um refrão cativante e batidas bem etéreas. Novamente, o assunto da música é o tio de Ferg, desta vez detalhando o seu auge criminal nas ruas de Harlem. Essa faixa vê o rapper retornando ao território delirantemente escuro que definiu o disco “Trap Lord”. Uma das minhas canções favoritas no álbum é “New Level”, um verdadeiro banger em colaboração com Future. Adotando o tom frenético de “Work (Remix)” e “Shabba”, A$AP Ferg oferece uma batida incrivelmente impetuosa. Enquanto a canção não possui a melhor letra, os seus versos transmitem uma forte energia. Esta pista, provavelmente, foi a mais bem recebida por aqueles que amam o disco “Trap Lord”.

Em “Yammy Gang” A$AP Ferg, o grupo A$AP Mob e Tatianna Paulino, trazem um estilo próprio para a música. Produzida por Cashmere Cat, aqui podemos perceber que Ferg está em seu momento mais confortável. Outro ponto interessante é a forma como a batida inquietante, o baixo pesado e o piano dão suporte para os versos. Na faixa “Swipe Life”, o rapper tem o apoio do chefão do hip-hop Rick Ross. É outra canção onde vemos Ferg apresentando um som muito mais maduro e refinado. A batida ameaçadora e obscura se encaixa muito bem ao fluxo de ambos artistas. Da mesma forma, a progressão menor e os profundos graves deixam um amplo espaço para Ferg e Ross rimarem. A décima faixa, “Uzi Gang”, com Lil Uzi Vert e Marty Baller, foi produzida por TM88 e é uma das faixas mais sólidas do álbum. Liricamente, é a resposta de Ferg para qualquer preocupação de sua vida. É uma clara reminiscência do seu primeiro disco, especialmente por causa do seu instrumental. O clímax do álbum muda novamente diante da faixa “Beautiful People”.

A$AP Ferg

Aqui, temos um A$AP Ferg consciente, entregando comentários sociais sobre lutas, união, auto-crescimento e vida sustentável. Ao lado do rapper de Nova York, temos a presença de Chuck D e a própria mãe de Ferg. Nesta canção, ele apresenta-se como um artista maduro e sem medo de celebrar a vida. É admirável vê-lo afastar-se de alguns temas habituais, a fim de tentar motivar a juventude. Foi surpreendente ver A$AP Ferg colaborar com Chuck D, uma realeza do hip-hop e frontman do Public Enemy. Ele aparece apenas na introdução da faixa, embora teria sido melhor ouvi-lo durante algum verso. Para essa colaboração era esperado um jogo rápido de rimas. No entanto, por outro lado, “Beautiful People” apresenta uma batida incrivelmente exuberante e soulful. O interlúdio “Damn Not Again (Skit)” mostra um telefonema da namorada de A$AP Ferg e antecede, apropriadamente, a faixa “Let You Go”. Essa canção, por sua vez, é uma faixa despojada e confessional, que aborda as dificuldades de ter uma namorada a longo prazo. É uma música sentimental, honesta e biográfica, bastante interessante.

Além da honestidade lírica, a cativante e minimalista batida é um dos seus maiores atrativos. “World Is Mine”, com o rapper Big Sean, foi liberada algumas semanas antes do álbum. Apesar de ambos artistas serem engolidos pela poderosa batida, não dá para negar que essa música é muito sólida e atrativa. Por sua totalidade, poderia ser considerada uma das faixas mais fracas, entretanto, o seu saldo foi muito mais positivo. Após uma breve interrupção de um telefonema entre Ferg e Chris Brown, intitulado “Phone Call With Breezy (Skit)”, temos a canção “I Love You”. Além do próprio Chris Brown, a pista também conta com a participação de Ty Dolla $ign. Canções como essa, geralmente, aparecem de forma tardia em álbuns de hip-hop. Da mesma forma, elas são incluídas com o intuito de atrair o mercado mainstream, dado o seu apelo comercial. Aqui, Chris Brown toma as rédeas e canta a maior parte da música. Embora possua um refrão grudento, é o tipo de música que dezenas de rappers já fizeram antes.

Depois da esquete “Grandma (Skit)”, o álbum termina com “Grandma”, outro relato biográfico de Ferg perante aqueles que o cercam. Resumidamente, é uma singela homenagem para a sua falecida avó. Uma ode sincera e honesta da dor de Ferg, diante do luto pelo falecimento dela. Após algumas faixas abaixo da média, “Grandma” encerra o repertório positivamente. “Always Strive and Prosper” é um projeto que possui erros evidentes, entretanto, também possui alguns momentos realmente grandes. Ao todo, sente-se como um disco que foi projetado para atender uma ampla variedade de ouvintes. A$AP Ferg conseguiu demonstrar um crescimento como artista, provando ter capacidade para explorar novos territórios musicais. Esse álbum é bem melhor em termos de composição e estrutura, se comparado ao “Trap Lord”. E, apesar de pisar em outros territórios, o rapper não abandonou totalmente as suas raízes. Em suma, “Always Strive and Prosper” é uma grande adição para o catálogo de A$AP Ferg e, definitivamente, vale a pena ouvir.

70

Favorite Tracks: “Psycho”, “Let It Bang (feat. ScHoolboy Q)”, “New Level (feat. Future)”, “Yammy Gang (feat. A$AP Mob & Tatianna Paulino)”, “Uzi Gang (feat. Lil Uzi Vert & Marty Baller)” e “Beautiful People (feat. Chuck D & Mama Ferg)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.